‘Quero um debate sobre a comunidade LGBT’ diz Marklize Siqueira

Professora da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Marklize Siqueira diz conhecer a fundo, com propriedade, as mazelas, a situação de miséria, em que vive hoje grande parte da população manauara.

Parintinense, de origem humilde, filha de agricultores, agora se une ao deputado federal José Ricardo Wendling na chapa do PT/PSOL que disputa a prefeitura de Manaus nas eleições de 15 de novembro. Ela como vice e ele, como prefeito, candidato majoritário.

“É um casamento perfeito em defesa dos mais pobres, de uma prefeitura humanizada, inclusiva e democrática”, ressalta. Assistente social de formação, com mestrado em sociologia, Marklize é hoje uma das novas vozes do empoderamento das mulheres, alvos constantes de violência, de discriminação e de toda sorte de preconceitos numa sociedade estritamente patriarcal, machista.

Militou junto com José Ricardo na Pastoral da Juventude da Igreja Católica. E lá, afirma ter adquirido a formação para defender com veemência os mais pobres, invisíveis, esquecidos, por uma elite que domina o poder público e dita as prioridades.

“A Kombi, uma marca das campanhas do José Ricardo nas eleições, vai levar também agora as mulheres”,  diz, sorrindo, referindo-se a uma estratégia do candidato que vem dando certo junto ao eleitorado amazonense.

Aos 19 anos, Marklize foi cobradora de ônibus, ocupação que não lhe impedia de seguir à frente nos estudos. Pensava alto, queria ascender, mas sem esquecer os menos favorecidos.

Foi assaltada, viu colegas morrerem durante essa atividade, um preço muito caro de quem lida com ônibus superlotados, estresse de usuários, nervos à flor da pele, a explodir a qualquer momento.

Mesmo assim, argumenta que sua perspectiva, sua concepção de vida e ideológica, não se coaduna em combater violência com violência. Ao contrário, defende maior inclusão social, distribuição mais igual de renda e oportunidade de ascensão social e econômica para todos os segmentos da sociedade.

“Se todas as camadas sociais pudessem usufruir dos mesmos benefícios, das mesmas chances de ascender economicamente, com educação de qualidade, família agregada, não veríamos essa explosão de violência, de tanta criminalidade, que faz milhares de vítimas todos os dias”, salienta a candidata.

Ela falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – A sra. é uma das novas vozes em defesa das mulheres. E agora, como será a luta junto com o José Ricardo pela prefeitura de Manaus?

Marklize Siqueira – Conheço muito bem a situação dos menos favorecidos. Sou de origem humilde. Vim para Manaus aos 6 anos em busca de melhores condições de vida, junto com meus pais, uma situação muito comum entre milhares de pessoas que vivem no interior, completamente desassistidas, sob abandono.

Mas estar na periferia não me desmotivou a ascender na vida. Fiz escola pública, depois cheguei à universidade. Posso dizer que foi a educação que me salvou. Mas nem todos têm essa trajetória porque são vítimas de um sistema desumano, que não oferece as mesmas oportunidades para os diversos segmentos da população.

Aos 19 anos, fui cobradora de ônibus. E nessa atividade conheci muitas falhas no sistema que são vistas até hoje, infelizmente. Vi colegas meus morrerem, vítimas de violência, em assaltos.  

Mas foi na Pastoral da Juventude da Igreja Católica que conheci o José Ricardo. Lá aprendi como fazer política, a defender os mais pobres, pois senti na pele o quanto é doloroso ser vítima de preconceito por ser pobre, índio, negro.

No PSOL me envolvi com o movimento de mulheres, conheci o feminismo, movimento de negritude, o indígena. Mas o meu reconhecimento como mulher indígena e negra fui muito tardio, aos 21 anos.

A gente tem essa pele indígena, corpo indígena, mas não significa que não nos conhecemos como tais porque vivemos um processo de invisibilização das populações, o preconceito, a discriminação.

Jornal do Commercio – E estar num partido político contribuiu para essa trajetória….?

Marklize Siqueira – Estar num partido político foi muito importante porque comecei a fazer debates que eu não fazia antes. Fui a primeira dirigente nacional do Amazonas do PSOL.

Circulei muito pelo Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia. Conheci muita gente. Me aproximei muito do Guilherme Boulos, da Sônia Guajajara, e lutamos muito para que eles pudessem ser representantes do partido nas últimas eleições.

Aí de lá para cá, veio essa mordidinha para ser candidata (rss).  Há dois anos, me candidatei dentro do PSOL para disputar o governo nas últimas eleições. Não passei na convenção porque tem muita disputa interna.

Mas este ano havia um debate nacional para fazer uma composição junto com o José Ricardo. Temos um projeto de mulheres chamado bancada coletiva que construímos desde 2019.

Os debates foram acontecendo e decidimos fazer uma chapa em defesa de melhores dias para essa cidade, que há muito tempo clama por mudanças mais efetivas.

Admiro muito o José Ricardo. É uma grande satisfação e muito confortável para mim compondo uma chapa que defende os mesmos interesses, os mesmos ideais. Ele é uma referência política para todas nós mulheres.

JC – O que sua candidatura com José Ricardo agrega em termos do empoderamento e da participação das mulheres na política. E dele também?

Marklize Siqueira – Falei para o José Ricardo que há muitos temas que são muito caros para nós, como na questão das mulheres e mães indígenas, negras. Quero trazer um debate sobre a comunidade LGBT em Manaus. Acompanho esse público durante muito tempo.

Vamos fortalecer as políticas públicas para as populações indígenas, negras. Estou acompanhando também a política de saúde no Amazonas.

A Covid mostrou o quanto o setor foi afetado durante esses anos por gestões que não funcionaram. Eu e o José Ricardo fazemos um bom casamento político.

Também trabalho a pauta socioambiental, que é de onde venho. Trabalhei vários projetos com empresas nacionais.

Temos que dar um cuidado especial para as populações rurais de Manaus, preservando igarapés, áreas verdes.

Manaus fica na Amazônia brasileira e precisamos ser uma referência disso.

JC – Vemos a entrada de muitos venezuelanos em Manaus. Muita gente argumenta que a situação de penúria na Venezuela é em decorrência de um governo socialista. Como avalia isso?

Marklize Siqueira– Penso que cada país elabora sua perspectiva de condução política.

No Brasil, temos uma profunda discordância pela forma como o governo federal conduz o nosso país.

A Venezuela tem um tipo de condução em muitos sentidos complicados. Acho que um bom governante não faz sua população passar fome e nem ter que sair de seu país para poder sobreviver.

Quando isso acontece, há uma falha de governança. Quando um país é bem governado, as pessoas não querem sair.

Esse é o olhar que a gente deve ter, independente da linha teórica, seja ela socialista ou capitalista.

Para nós, o problema é que ainda não se conseguiu atender a toda a população. Como na questão da saúde. Temos aumento da pobreza, as pessoas adoecendo. Sou assistente social. E atendemos venezuelanos e haitianos.

Não é porque eles são de fora que não devem ser bem tratados. Acho que os brasileiros também gostariam de receber o mesmo tratamento em outros países.

Então, uma gestão pública humanizada, seja para nós brasileiros e para essas pessoas que vêm de fora, é importante. A linha de raciocínio de uma gestão púbica é tratar as pessoas com dignidade, seja a gestão brasileira ou internacional.

JC – O que a sra. pensa sobre as invasões em Manaus. Qual o prejuízo real que elas trazem para a cidade. Iriam incentivar ou estancar esses movimentos?

Marklize  Siqueira –Um bom gestor público é um bom estudiosos também. A gente aprende a fazer análises sobre esses casos. Temos um índice muito alto de pessoas que não têm habitação.

Em Manaus, não temos uma política de Estado que funcione. As pessoas vêm em buscas de melhores condições de vida.

Já era assim na década de 80 quando eu vim com a minha família.

Não tem uma política de Estado que transforme o interior num lugar bom para se viver com saúde, com educação de qualidade, com trabalho. A gente precisa mudar essa realidade.

Sobre as ocupações que já existem, precisamos chegar lá e fazer um levantamento. Primeiro precisa ser legalizada para posteriormente se implantar serviços.

Não é incentivar ocupações, mas fomentar políticas de moradias. Agora, a gente precisa cobrar do governo do Estado para que as pessoas não venham para  Manaus dessa forma. É um problema grave, difícil de lidar.

Uma gestão pública precisa dialogar com os movimentos sociais.

JC – A questão da segurança é ponto comum na maioria dos planos de  candidatos. Uns defendem aumentar a fiscalização de praças, logradouros públicos. Vocês pensam também em uma política para armar a Guarda Municipal. Essa estratégia faz parte?

Marklize Siqueira – É um tema delicado. Vivo nessa cidade há muito tempo. Quando eu era adolescente, o tipo de violência era diferente.

Hoje estamos lidando com crimes bárbaros, oriundo de uma lógica de violência que  tem origem no tráfico, que é muito mais brutal. Precisamos ter equipamentos para fortalecer os mecanismos de segurança. Mas violência não se resolve dessa maneira.

Você precisa dar condições de trabalho, de empregos, investir na cultura, esportes, ocupar essa juventude com mais qualidade na educação.

Os fatores geradores de violência resultam da ausência de políticas públicas.

Ou a gente fortalece o sistema de proteção social com medidas socioeducativas ou vamos continuar reproduzindo as pessoas que chamamos de criminosos, vândalos.

Se a população não tem acesso a política de geração de empregos e de renda, vamos continuar com esses problemas de criminalidade. É assim que a gente combate a violência.

Construir mais presídios não resolve a situação.

É claro que nós numa gestão municipal vamos fortalecer a Guarda Municipal com melhores salários, melhores condições de trabalho.

Temos outras perspectivas para enfrentar a violência.

JC – Qual a estratégia de vocês nas eleições. Estão batendo perna nas ruas, trabalhando na internet nesse período de campanha?

Marklize Siqueira – O José Ricardo tem a estratégia da Kombi que utiliza durante as eleições. E deu certo. Então, a gente fala brincando agora  que a Kombi vai levar também mulheres.

É uma estratégia que funciona há muito tempo e não é à toa que ele (José Ricardo) se elegeu nas últimas disputas. As pessoas reconhecem isso.

É um parlamentar que não fica só nos gabinetes. Volta o tempo todo em cima da Kombi para prestar contas do mandato, conversar com a população, para que as pessoas vejam que ele está na cidade e não ficou só em Brasília.

Evidentemente, que a pandemia nos impede de fazer campanhas nas ruas.  Mas se vamos, fazemos todos os protocolos de segurança que são necessários. Não fazer muito aglomeração.

Aí, a campanha fica sendo replicada nas redes sociais.

JC – Sobre o ‘lockdown’, a sra. decretaria nesse momento em Manaus?

Marklize Siqueira – Como profissional de saúde, eu decretaria porque temos informações de que os hospitais estão lotados. Ando na periferia e a gente vê que as pessoas não incorporaram os cuidados contra a Covid.

É uma decisão difícil porque sei o quanto isso afeta as condições de vida das pessoas.

A política municipal não atentou para a geração de renda. Isso é um problema. Mas se você for decretar ‘lockdown’, precisa pensar como gerar renda.

Mas não dá para tomar uma medida drástica se não pensar na vida das pessoas. Não pode matar as pessoas de fome.

Estamos com o projeto de construir uma cidade inclusiva, mais democrática que atente para a necessidade dos mais pobres de nossa cidade.

Não vim apenas para ser decorativa. Quero construir junto com o José Ricardo.

Qual sua opinião? Deixe seu comentário

Gostou do Conteúdo? Assine nossa Newsletter

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp
Email

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email