22 de abril de 2021

‘Reimão venceu tranquilo’. Esta foi a manchete do Jornal do Commercio do dia 15 de dezembro de 1970, enaltecendo a vitória de Carlos Duarte Reimão na primeira edição da Travessia Almirante Tamandaré, ocorrida dois dias antes, como neste ano, num domingo, 13. Reimão tinha apenas 15 anos, era nadador do Clube do Remo e veio a Manaus a convite dos organizadores do evento junto com três outros colegas garotos como ele: Ivanildo Guerra, 15, segundo lugar na prova; Raimundo Ampuero, 16, terceiro lugar; e Adolfo Fischer, 15, quinto lugar, ou seja, a equipe de paraenses veio para fazer bonito em águas amazonenses. O amazonense Paulo Rebelo, do Rio Negro, chegou em quarto lugar.

Levantando a taça, em 1970

Nadar em águas abertas não era problema para Reimão. Em fevereiro daquele ano ele havia participado, em Salvador, da travessia da Baía de Todos os Santos, no oceano, de Itaparica (Mar Grande) até a praia do Porto da Barra.

“Eu estava em primeiro lugar, mas o meu guia se enganou e me levou para a praia da Barra ao lado da praia do Porto da Barra. Já havia nadado 12 km e não tive condições de nadar para a praia correta, porque estava contra a correnteza”, falou.

Helder da Fonseca entrega a medalha a Reimão

Três meses depois, porém, em maio, atravessando a Baía de Guajará, em Belém, o garoto foi o vencedor num percurso de 5 km. Aquelas competições o credenciaram a ser convidado para vir participar em Manaus, em dezembro, da Almirante Tamandaré.

“Viemos num avião Búfalo, da FAB. Foi uma aventura e tanto. O avião vinha parando em comunidades indígenas e para mim foi o máximo ver aqueles índios igual como vira na televisão”, recordou.

Pior do que no oceano

Reimão com o governador e o comandante da Capitania

Reimão e os colegas chegaram a Manaus numa quinta-feira, 10, e ficaram hospedados na Capitania dos Portos, então na rua Marquês de Santa Cruz.

“Íamos fazer nossas refeições no Hotel Amazonas e o pessoal da Marinha nos levou para passear e conhecer a cidade. Fomos super-bem tratados por eles, em especial pelo comandante Mário Hermes da Fonseca”, lembrou.

Comandante da Capitania, governador, Reimão e os colegas paraenses

Um dia antes das provas, no sábado, os garotos foram levados pela Marinha para conhecer o local de onde partiriam, no Cacau Pirêra, e o trajeto de 8,5 km até a praia da Ponta Negra.

Às 9h50 daquele 13 de dezembro, de acordo com a matéria do JC, 24 nadadores pularam nas águas do Negro para uma batalha de mais de duas horas nadando até Manaus. Com exceção da equipe do Pará, todos os demais eram amazonenses e nenhuma mulher participou.

“Em Manaus foi muito pior do que nadar no oceano. As águas eram pesadas e quentes. De vez em quando eu ia para o fundo, onde eram mais frias, me refrescar”, disse.

Com duas horas de duração da prova, Reimão já havia deixado todos os demais competidores bem para trás e, mais uma vez o guia o levou para um local de chegada errado.

“Felizmente avisaram para ele que a chegada era mais para o lado direito e, como eu estava bem distante dos outros, consegui voltar e me manter em primeiro. Quando entrei no funil de chegada, pisei na terra da praia e pus a cabeça para fora d’água, tive uma surpresa que nunca consegui esquecer. Dezenas de pessoas me cercaram e um monte de gente começou a tirar fotos minhas. Até hoje permanece nos meus ouvidos o barulho que as máquinas fotográficas faziam”, riu.

Dos 24 nadadores que partiram do Cacau Pirêra, apenas 14 conseguiram chegar até o final. A entrega dos prêmios aconteceu a bordo da corveta Angustura. Naquele ano a competição ainda não tinha nome de Travessia Almirante Tamandaré, e o JC publicou que fora a ‘primeira travessia oficial ‘à nado’ do rio Negro’, realizada pela Capitania dos Portos com patrocínio da Emamtur (Empresa Amazonense de Turismo), Faud (Federação Amazonense Universitária de Desportos), fábrica de jóias Beta e Governo do Estado.

Relíquias bem guardadas

Reimão e os colegas receberam as medalhas das mãos do comandante Hermes da Fonseca e do governador Danilo Duarte de Matos Areosa (1967/1971). Reimão recebeu ainda um belo troféu.

“A Beta me deu umas medalhas de ouro e de prata que homenageavam o tri centenário de Manaus, em 1969; e o tricampeonato do Brasil na Copa do Mundo do México, em junho daquele ano”, revelou.

“Na segunda-feira, minha mãe já estava em Manaus, fomos até às redações dos jornais A Crítica e Jornal do Commercio, que ficavam na Eduardo Ribeiro, pedir as fotos que haviam tirado de mim, e prontamente eles nos deram. Também visitei a fábrica de guaraná Baré e fui dar uma entrevista na TV Ajuricaba”, contou.

A mesma taça, o mesmo uniforme, em 2020

Apesar de as notícias não circularem tão rápido como nos dias de hoje, a Federação Paraense de Desportos logo ficou sabendo da conquista de Reimão, em Manaus, e o chamou de imediato para voltar a Belém para se juntar à seleção paraense, que ele integrava, e competir pelo Norte-Nordeste, prestes a começar, inclusive mandando sua passagem de avião. Na terça-feira, 15, no dia em que a notícia de sua vitória foi publicada no JC, Reimão partiu de Manaus, junto com a mãe, levando suas medalhas de ouro e prata, e o belo troféu que conquistara. Até hoje ele guarda as relíquias com o maior carinho, bem como o agasalho que usou no dia da vitória, há 50 anos.

E como um rei nunca perde a majestade, na mais recente competição de Reimão, a Olimpíada da Magistratura, realizada em 2017, ele ganhou a medalha de ouro em todas as seis provas que disputou. Em todos essas décadas Reimão nunca deixou de praticar natação.

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