Quase dois séculos para o Amazonas virar província

As rusgas entre amazonenses e paraenses e entre estes e aqueles são antigas, muito antigas. Pode-se dizer que têm origem política e iniciaram quando se formou um povo em solo amazonense e esse povo percebeu ser dependente das ordens que vinham de longe, lá do baixo rio Amazonas.
Décadas se passaram, quase dois séculos de dependência, até que no dia 5 de setembro de 1850 o Amazonas, como aprendemos na escola, foi elevado à categoria de província, frase, aliás, explicada corretamente por poucos alunos, mas que veremos a seguir qual é o significado de tal elevação de categoria para o nosso Estado.
O 5 de setembro de 158 anos atrás veio concretizar em definitivo a separação política dos dois Estados, deixando como sobra as rusgas entre os dois povos irmãos que, embora superficialmente, continuam até os dias de hoje.

Esboço do Amazonas

Desde que os portugueses se estabeleceram no forte do Presépio, futura Belém, em 1616, começaram a ampliar, a partir daquela base e seguindo na direção do alto rio Amazonas, os domínios da Amazônia.
Tal a imensidão da região, também se tornaram grandes os problemas que os governadores do Pará tiveram de enfrentar para conquistá-la e administrá-la. Primeiro, promoveram o massacre dos povos indígenas que a habitavam para tirá-los do caminho, depois guerrearam contra os estrangeiros – espanhóis, ingleses, franceses e holandeses – que teimavam em querer um naco do rico pedaço de terra.
Para facilitar essa conquista e a conseqüente administração da região, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do poderoso ministro português Marquês de Pombal, resolveu criar um outro governo, mais para o centro da Amazônia, ou Alto Amazonas, como o designavam, porém, subordinado ao Pará. Idéia aceita pelo gabinete português, no dia 3 de março de 1755 nasceu a Capitania de São José do Rio Negro, o primeiro esboço do que viria a ser o Estado do Amazonas.
A sede da Capitania foi instalada na missão de Mariuá, atual cidade de Barcelos, no rio Negro, em 7 de maio de 1758, sendo seu primeiro governador o coronel Joaquim de Melo e Póvoas.

Manaus surge no cenário

Trinta anos depois, em 1788, vamos encontrar o capitão-mor e comissário das demarcações, o português Manoel da Gama e Lobo D’Almada governando a Capitania de São José do Rio Negro e realmente a efetivando, mesmo enfrentando dificuldades. É que as distâncias da capital, na vila de Barcelos, tornavam a incipiente capitania totalmente dependente do Pará, mas já naquela época o povo, apenas umas poucas centenas de pessoas, queria a sua autonomia política, desejo encampado pelo governador. Tanto que Lobo D’Almada se empenhou pela elevação da capitania à categoria de capitania autônoma, mas não foi atendido.
Uma das medidas mais marcantes da administração de Lobo D’Almada foi a transferência da capital Barcelos para o Lugar da Barra, futura Manaus, em 1791, localizada numa região mais estratégica, com frente para os rios Negro, Amazonas e Solimões. No lugar da Barra Lobo D’Almada mandou construir fábrica de tecidos, olaria, hospital, casas para os funcionários da administração entre outras obras que visavam o desenvolvimento do lugar, mas seus inimigos políticos o acusaram do que se chama hoje de malversação do dinheiro público.
Quando morreu, em 1799, uma junta governamental assumiu a administração da capitania.

Retrocesso com D. Pedro I

Até a Independência do Brasil, em 1822, alguns governadores e várias juntas governamentais foram os responsáveis pelos destinos político e econômico da Capitania de São José do Rio Negro. Naquela época, os atritos não eram entre amazonenses e paraenses, mas entre brasileiros e portugueses. Os brasileiros do Pará apoiaram D. Pedro I quando este decidiu separar o Brasil de Portugal, mas tropas portuguesas foram mandadas intervir para obrigá-los a desmerecer esse apoio, o que resultou na morte de muitos paraenses.
No Amazonas a notícia da Independência só chegou mais de um ano depois, no dia 22 de novembro de 1823. A Câmara de Serpa, instalada no Lugar da Barra, também jurou fidelidade a D. Pedro I, mas as tropas portuguesas nem se preocuparam em vir impedir tal ato, ou pela distância dos acontecimentos, ou porque julgaram que aquela pequena localidade no meio da floresta não tinha nenhuma importância, tanto que o Amazonas não teve um agradecimento satisfatório por parte do imperador.

Subordinação humilhante

Sob o governo de D. Pedro I as capitanias passaram a denominarem-se províncias, porém, a Capitania de São José do Rio Negro sofreu uma reorganização passando a se constituir não numa província, mas numa comarca. Não havendo mais entreveros entre brasileiros e portugueses, começaram a acontecer abalos mais sérios entre a província do Pará e a agora Comarca do Alto Amazonas. Uma disputa entre o ouvidor paraense e a junta que governava a Comarca, em 1825, levou o presidente (a denominação mudara de governador para presidente) do Pará a solicitar a subordinação da Comarca do Alto Amazonas à província paraense, o que foi acatado pelo ministro Estevão Ribeiro de Rezende.
No ano seguinte, em 27 de maio, o bispo da Bahia, dom Romualdo Antônio Seixas, advogando pelo povo amazonense no Parlamento Imperial, apresentou um projeto que pedia a elevação da antiga capitania à condição de província. Uma das razões apresentadas, atual até os dias de hoje, era a proteção da região, repleta de riquezas, já naquela época cobiçada pelos estrangeiros. Mas o projeto foi em vão.

Batalha pela província

Seis anos depois, em 23 de junho de 1832, aconteceu o caso mais sério na questão de litígio entre amazonenses e paraenses. Sob a presidência do juiz de paz João da Silva e Cunha, insatisfeitos com vários desmandos do governo paraense, os habitantes da então Vila da Barra resolveram fundar a Província do Rio Negro. Barcelos e Serpa (atual Itacoatiara) aderiram ao movimento, não aceito por Borba que preferiu permanecer sob as ordens de Belém. O governador do Pará, Machado de Oliveira, não gostou do acinte e mandou o coronel Domingos Simões da Cunha, no navio Patagônia, à frente de 50 homens, atacar os revoltosos da Vila da Barra. No caminho, subindo o rio Amazonas, a força incorporou a canhoneira Independência, em Cametá, e a escuna Andorinha, em Santarém.
Quando chegou à vila, a esquadra foi recebida pelos amazonenses detrás de alguns canhões, bombardeando e sendo recebida com tiros. Em 10 de agosto os paraenses pisaram em solo amazonense, tendo os rebeldes se rendido. Acabava assim a efêmera Província do Rio Negro.

Curiosamente, um paraense

Foram necessários mais 18 anos para que, curiosamente, um paraense, o deputado João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, um dos batalhadores pela sonhada independência política do Amazonas, conseguisse a tão desejada elevação. No dia 5 de setembro de 1850, através da assinatura da lei nº 582, a Comarca do Alto Amazonas foi finalmente elevada à categoria de província, tendo como sede a cidade da Barra do Rio Negro, que passou a se chamar Manaus seis anos depois. Tenreiro Aranha se tornou o primeiro presidente (hoje governador) do Amazonas, viajando de Belém a Manaus a bordo do Guapiassu mais de um ano depois, para tomar posse em 1º de janeiro de 1852 e efetivar a Província do Amazonas.

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