9 de maio de 2021

Quando o incêndio chega à casa-grande

No dia 12/02/2020 o ministro Paulo Guedes, num rompante de sinceridade, disse que, com o dólar mais baixo até mesmo empregada doméstica estava viajando para a Disney. Essa declaração rancorosa despejou nos ouvidos do povo brasileiro uma incomensurável carga de preconceito represada nos sentimentos mais profundos da nossa pretensa elite social. O rico brasileiro trata o pobre como um cachorro que precisa de cuidados básicos. Ou seja, ele precisa comer, vestir e outras poucas coisas mais. Por isso é que o mesmo Paulo Guedes sugeriu inicialmente R$ 200 de auxílio emergencial, que é suficiente para comprar uns dois fardos de ração barata. O pobre pode muito bem dormir na chuva ou se espremer nos ônibus lotados. O pobre não precisa de luxo nem de atendimento médico; ele resolve tudo com beberagens caseiras. O pobre, portanto, nem é gente; é uma coisa indefinida. O pobre pode até possuir uma casa, desde que seja pequena e na periferia. Carro, só se for um calhambeque. E estudar, só em faculdade de R$ 199 mensal. 

Essa mentalidade tortuosa explica o péssimo e eternamente incorrigível serviço público de saúde. Por décadas a fio presenciamos diariamente o noticiário cheio de gente morrendo nas portas dos hospitais públicos, mas tudo ficava somente no noticiário. Ninguém com poder de influência ou de decisão moveu uma palha para mudar esse quadro devastador. Nem os políticos, nem as pessoas ricas com poder de influenciar tais políticos se empenharam na solução do problema. E a razão é muito simples: esse pessoal endinheirado não usa serviço público de saúde. Portanto, o pobre que se arrombe. Essa sempre foi a posição do rico brasileiro. Por esse mesmo motivo, o sistema de transporte coletivo é o pior do mundo. Quem tem dinheiro não anda de ônibus e, portanto, o problema nunca vai ser resolvido porque nenhum pobre tem voz nem vez em canto nenhum do Brasil. O Metrô de São Paulo funciona relativamente bem porque transporta uma parte da elite. 

Em abril do ano passado o primeiro-ministro britânico Boris Johnson foi internado no hospital público londrino St. Thomas para tratar um quadro grave de covid-19. Por aqui, nunca, e nem nos maiores delírios ensandecidos, alguém já pensou na possibilidade dum político graúdo ser internado na rede pública hospitalar. A mesma afirmativa vale para o particular abastado. Funcionários públicos graduados exigem Albert Einstein ou Sírio-Libanês, pagos, obviamente, com dinheiro dos impostos daqueles que recorrem ao SUS. 

Pois é. Pela primeira vez os ricos brasileiros sentiram na carne o menosprezo dirigido aos pobres. A covid-19 veio mostrar que o dinheiro não compra tudo e que todo mundo morre com os pulmões afogados. O rico descobriu da pior forma o que é limitação de atendimento médico. E para piorar, a crise do oxigênio pegou todo mundo no contrapé. O morticínio acentuado dos últimos dias é consequência direta da péssima gestão pública de saúde que antes não prejudicava o rico. O pandemônio do momento mantém a empresa do rico fechada.

Não fosse a desastrosa e criminosa gestão da saúde pública, os problemas atuais seriam infinitamente menores. A questão é que os ricos nunca se interessaram em combater os diversos tipos de corrupção; muitos deles são beneficiários diretos dum sistema pervertido. Não fosse a corrupção sistêmica, haveria condições suficientes de amparo às pessoas físicas e jurídicas, como vem ocorrendo nos EUA e UK. O descaso dos ricos com as transgressões do poder público levou ao fechamento de empresas com impacto direto na perda de ricos patrimônios. A desgraça chegou para todas as classes sociais e não somente para o pobre, como sempre aconteceu. 

Sacrifício patrimonial implica perdas doloridas e traumáticas. A covid-19 cobrou um alto preço de variados segmentos econômicos na forma de prejuízos irrecuperáveis. E muitos empregados perderam o sustento da família.  

Até o presente momento, quem se sacrificou zero por cento durante a pandemia foram os funcionários públicos graduados. O Ministério Público, o Judiciário e o governador lutaram ferozmente pela extinção da fonte de renda de milhares de amazonenses que agora passam fome. As divindades públicas de salários astronômicos estão absolutamente indiferentes aos famintos e desgraçados. Não houve empenho por nenhuma medida compensatória efetiva. Trocando em miúdos, uma canetada fechou o comércio da noite pro dia, mas a lengalenga do auxílio emergencial local vai durar meses com previsão de não sair. Afinal de contas, a vida é mais importante; a fome pode esperar. O ente público de bucho cheio não tem motivo algum pra pensar em fome alheia. Pois é. Todo esse teatro das divindades locais evidencia um solene desprezo à população pobre sem trabalho. Os bonitões passam o dia em casa tomando champanhe e ligados na Netflix. E como fica o pobre? O pobre amazonense que se arrombe. Curta e siga @doutorimposto

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