Quando as águas viram música

Dia 22 de março é comemorado o Dia Mundial da Água, criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) com o objetivo de pôr em evidência os diversos temas sobre esse bem tão precioso para a humanidade.
A Amazônia é conhecida mundialmente pela disponibilidade hídrica e, no Amazonas, uma região onde há água em exuberância descendo por belas cachoeiras é o alto rio Negro. Foi lá que o músico Agenor Cavalcanti de Vasconcelos resolveu fazer sua pesquisa de mestrado pela UFAM e publicar o resultado de seu trabalho no livro “A Música das Cachoeiras”, aliando os sons produzidos pelos povos habitantes daquela região ao mito tukano do canto das cachoeiras.
“Nosso objetivo foi coletar, registrar e depois difundir, via internet e CD, os sons, os timbres e as cores existentes naquela região”, explicou o músico.
Entre março e abril do ano passado, a expedição liderada por Agenor seguiu para Boa Vista, de avião, e depois de carro, de barco e a pé por trilhas rumo ao destino escolhido. “Buscamos seguir os passos do etnógrafo alemão Theodor Koch-Grunberg, a primeira pessoa a registrar o audiovisual da região há mais de cem anos. Com um estúdio móvel de gravação, fomos da foz do rio Içana, perto da fronteira com a Colômbia, até a comunidade de Kumarakapay, na Venezuela. Conhecemos mestres das culturas popular e tradicional, assim como jovens compositores, registrando tudo”, contou.
O projeto “A Música das Cachoeiras: do alto rio Negro ao Monte Roraima” foi patrocinado pela Natura, por meio de seu programa cultural Natura Musical. “Em meus estudos para o mestrado, pesquisei a vida de Koch-Grunberg, então, para a minha dissertação, quis viver o que ele viveu quando circulou pelo Negro e por, no mínimo, dois anos esteve entre aqueles povos registrando etnograficamente tudo o que podia”, disse.

Das águas surgiu o mundo
Foram vários os naturalistas e aventureiros que andaram pela região do alto rio Negro nas décadas que antecederam Koch-Grunberg, mas nenhum fez anotações, fotografou e gravou como ele. “Até os dias de hoje outros antropólogos atuam na região e também realizam registros audiovisuais, mas o resultado de seu trabalho permanece no âmbito da academia. Eu queria fazer algo e depois mostrar para o mundo, por isso o livro e o CD”.
Foi assim que os cantos e as músicas dos baniwa, dessana, tukano, wapixana, macuxi, taurepang e baré foram perpetuados por Aldenor e sua equipe: Davi Escobar (som direto e captação de áudio), Márcio Peixoto e Yure César (imagens).
“Nas águas do rio Negro que, desde tempos imemoriais, esculpe pacientemente as pedras e, com elas, compõem sem parar as músicas das cachoeiras, os antigos e os novos habitantes do noroeste amazônico aí aprenderam a entoar os cânticos imprescindíveis ao ordenamento do universo, para estabelecer a origem e o fim de todas as coisas e, sobretudo, justificar metafisicamente esse salto enorme em que nos lançamos na existência para nos movermos no abismo tal como, numa dança Parischerá, os animais espiam suas malvadezas recíprocas, segundo o ritmo da música”, escreveu no prefácio do livro o professor Nelson Matos de Noronha ou, como contou o pajé tukano Gabriel Gentil, de acordo com um mito de seu povo, “o mundo surgiu a partir das cachoeiras”.
O livro “A Música das Cachoeiras” pode ser encontrado na livraria Valer, banca Castanhola (Amazonas Shopping), banca da Ufam, sebos O Alienista e O Alienígena e através do site www.caboquesilustrado.com.br

Koch-Grünberg na Amazônia
O etnologista e explorador alemão esteve pela primeira vez na Amazônia entre 1903 e 1905, quando explorou o rio Japurá e o alto rio Negro. Voltou novamente em 1911, seguindo de Manaus, pelo rio Branco, até a Venezuela. Em 1913 fez uma expedição pelo rio Orinoco. Morreu em 1924, aos 52 anos, de malária, em Vista Alegre, Roraima.

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