Projeto leva arte até as paradas de ônibus de Manaus

Dignas de aplausos as ações dos cidadãos que, diante da omissão do poder público, vão lá e fazem algo que servirá para a comunidade e, detalhe, trabalhando de forma rápida, eficiente e com pouco custo. Um destes exemplos é o projeto ‘Grafite é Arte’, do Casarão de Ideias, que no último mês do ano passado embelezou e deu vida aos muros da Beneficente Portuguesa, atrás de duas paradas de ônibus, na av. Getúlio Vargas.

‘Grafite é Arte’, no último mês do ano passado embelezou e deu vida aos muros da Beneficente Portuguesa

“Nosso projeto começou em janeiro de 2020, num muro em frente ao Casarão de Ideias, na rua Barroso. Sentíamos que a cidade precisava de mais cor, tirar o aspecto escuro, de muro sujo, existente nas paradas de ônibus, para que as pessoas se sentissem mais confortáveis até mesmo para ir ao Casarão”, contou João Fernandes, diretor do Casarão de Ideias.

“Depois de grafitar o muro na Barroso, ficou guardada a ideia de fazer isso num outro momento, em outros lugares, mas esse trabalho tem um custo e precisa de planejamento, e naquele momento não tínhamos recursos. Ao surgir a Lei Aldir Blanc, que em Manaus teve o edital do Conexões Culturais, da Manauscult, vimos que a hora era aquela. Mandamos o projeto e fomos selecionados. O ‘Grafite é Arte’ foi concretizado e ganhou mais visibilidade em outros lugares da cidade”, disse.

Agora João aguarda a autorização do proprietário de mais um muro para realizar o terceiro trabalho.

“O projeto é fazer essas três paradas, mas queremos ampliar isso com a ajuda de novos parceiros, novos apoiadores, e chegar a outros espaços. Continuaremos no Centro, no entorno do Casarão de Ideias, porque nos bairros existem outros grupos, outros coletivos, que também estão com trabalho similar. Começamos em muros atrás de paradas de ônibus, mas podemos grafitar em outros que não tenham interação com paradas, porém, sempre buscando lugares onde a população tenha acesso”, explicou.

Revitalização total 

Para João, as pessoas precisam entender que, diferente da pichação, grafite é arte, por isso o nome do projeto.

“Nossas ações não estão sendo feitas de forma ilegal. Temos autorização da Beneficente Portuguesa para utilizar o muro. É importante as pessoas consumirem diversos olhares sobre a arte para que ela possa estar entre a população, por isso escolhemos as paradas de ônibus, locais geralmente pichados, onde colam cartazes de anúncios, e fica ‘aquela coisa’ escura e perigosa, de noite. Com as cores do ‘Grafite é Arte’ conseguimos dar mais claridade a esses ambientes”, falou.

O grafite pintado em cada um dos muros mede 30 m de comprimento por 3 m de altura, num total de 90 m2, “ou seja, já grafitamos 180 m2 de paisagens”, afirmou João.

O grafite pintado em cada um dos muros mede 30 m de comprimento por 3 m de altura

Na primeira etapa do projeto estava prevista a grafitagem de apenas duas paradas, mas o grupo se empolgou tanto com o resultado e o sucesso de seu trabalho, que já estão se preparando para grafitar a terceira. E a ação não se resume somente à pintura do muro. O banco da parada também recebe cores e as lâmpadas queimadas são trocadas.

“Fazemos a revitalização da parada como um todo”, completou.

O projeto tem várias etapas. Começa com a preparação do muro, lixar, fazer um acabamento, dar tinta base. Esse trabalho é realizado por uma equipe em um dia, ou dia e meio; depois se espera a secagem da tinta. Aí entra a equipe do grafismo: dois grafiteiros e duas pessoas na produção, seja fazendo a segurança dos artistas, ou comprando o material quando falta.

“Diretamente trabalham oito pessoas no projeto mas, indiretamente, diria que ganham todas as pessoas que usam as paradas de ônibus atrás da Beneficente Portuguesa, e os transeuntes que passam pelo local”, informou.

Os ‘Curuminz’ de volta

Os ‘Curuminz’ são os parintinenses Kemerson de Souza Freitas e Alzenei Pereira

Mas quem são os artistas do grafite, do ‘Grafite é Arte’? Eles já foram matéria do Jornal do Commercio, em janeiro do ano passado. São os ‘Curuminz’, os parintinenses Kemerson de Souza Freitas e Alzenei Pereira, ambos com 24 anos. Apesar de os dois terem nascido e viverem na ilha Tupinambarana, só se conheceram na faculdade, em 2014, quando cursaram artes visuais, na Ufam. Trabalhando juntos, um desenha e o outro pinta, depois o outro desenha e o um pinta, os jovens vêm se destacando pela bela e diferente arte que realizam.

“Os dois estão conseguindo despontar com um trabalho artístico mais autoral, que mesmo falando da Amazônia, do regional, não utiliza aquelas figuras clichês. Eles conseguem dar outro olhar para essas mesmas figuras. Foram eles que pintaram o muro do Casarão, em janeiro, daí a relação de retornar a parceria com eles. Manaus tem muitos artistas com reconhecimento, então é importante trazermos artistas do interior, depois os ‘Curuminz’ têm uma relação muito próxima do pensamento do Casarão enquanto cultura”, revelou João.

“O ‘Grafite é Arte’ não tem tempo de existência. Vamos mantê-lo, buscando patrocínio e apoio de parceiros privados. Agora será um dos projetos fixos do Casarão, como é o ‘Mova-se’ e o ‘Pedalando pela Manaus que se constrói’. Queremos um Centro melhor, pois é o nosso local de trabalho. Sabemos que alguém vai vir e riscar, colar algum cartaz, faz parte, mas também faz parte a nossa resistência e insistência, é um processo educacional. As pessoas vão sujar e vamos fazer de novo, tornam a sujar e a gente torna a limpar até que um dos dois canse, e não seremos nós. A arte vai continuar existindo e resistindo”, concluiu.

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