Projeto Amazonas Sustentável cria arte inspirada na natureza

As madeiras amazônicas são cobiçadas no mundo inteiro. Dados da Polícia Federal mostram que, até o ano passado, ao menos 19 países adquiriam madeira retirada de forma ilegal de nossa região, por isso quando os moradores locais as exploram de maneira racional e sustentável, é motivo para cada vez mais se combater a derrubada indiscriminada de árvores.

O projeto Amazonas Sustentável acabou de lançar a coleção ‘Esse dito bicho’, formada por bancos de madeira inspirados nas histórias e lendas da Amazônia. Os bancos foram esculpidos em toras maciças, por moradores da comunidade Terra Preta, localizada na RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Rio Negro, a 80 km de Manaus, todos com alguma experiência em trabalhar com madeiras. O projeto foi desenvolvido pela Fas (Fundação Amazonas Sustentável) com a parceria da Petrobras, do Instituto A Gente Transforma, e do arquiteto Marcelo Rosenbaum, sob a coordenação de Gil Lima, coordenador de projetos da Fas.

“Nós que somos daqui sabemos que os moradores do interior conhecem muitas histórias fantasiosas que misturam mitos com realidade, então perguntamos pra eles: por que não retratar os personagens dessas histórias nos bancos? Naturalmente os personagens, que eles conhecem há décadas, contados nas histórias dos pais e avós, e que muitas vezes eles próprios já presenciaram, foram ganhando forma através dos esboços feitos por Assis Bitencourt Cobos, também morador da RDS”, contou Gil.

Resíduos de manejo

Por que bancos? Marcelo Rosenbaum esteve pessoalmente à frente dos trabalhos e inicialmente fez uma espécie de brincadeira com os 17 futuros escultores. Pediu que eles colocassem as mãos sobre as toras de madeira e deixassem que as energias da natureza decidissem o que deveria ser feito delas. Então, eles próprios foram dizendo banco, banco, banco. Eram homens que só sabiam serrar madeiras. Nunca tinham talhado ou feito acabamento numa peça, o que aprenderam num curso de dez dias.

“Numa grande roda de contação de histórias, com a colaboração de todos, os desenhos dos objetos de madeira foram surgindo a partir do lápis de Assis Cobo”, falou Gil.

Todas as toras usadas eram resíduos de manejo. Na floresta, devido às fortes tempestades ocasionais, muitas árvores simplesmente desabam. É destas árvores, já morta, que os moradores da RDS podem retirar madeira legal para vender, e sempre sobram os resíduos de manejo, grandes e boas peças, porém com algum defeito: um nó, uma rachadura, que as impedem de ser comercializadas, mas podem ser transformadas em outras peças, como os bancos da coleção ‘Esse dito bicho’.

O trabalho foi conduzido através da tecnologia social chamada Design Essencial, que consiste numa imersão do Instituto A Gente Transforma com a comunidade para identificar seu potencial e possibilitar o resgate de seus saberes ancestrais, e a criação coletiva, inspirada em seu imaginário cultural.

Ao menos duas vezes por semana os ‘escultores’ trabalharam nas suas peças, um ajudando o outro, sob o olhar de Rosenbaum, enquanto continuavam com sua vida normal, pescando, plantando, fazendo farinha. Ao final de três meses elas foram ficando prontas, 27 peças em oito modelos diferentes. Os personagens das lendas começaram a ganhar uma cara.

O banco ‘Lili’ traz a representação de Lili, uma cobra gigante que surgiu no rio Negro após um terremoto; o ‘Pé-melado’ conta a história de um par de pés que caminha à noite pela lama da comunidade e já foi ouvido por vários artesãos; o ‘Duas Cabeças’ retrata a história do avô de Sérgio, um dos artesãos, que se transformava em porco; o ‘Matin’ é um pássaro encantado sem penas e feito só de ossos, que possui um assovio arrepiante e já perseguiu alguns dos homens da RDS, sempre nas noite silenciosas.

As energias decidem

Os produtos agora serão comercializados pela empresa Dpot Objeto, de São Paulo, que se interessou por todos os bancos, e tudo o mais que for produzido pelos ‘escultores’ da comunidade Terra Preta.

“A proposta foi baseada na essência da economia circular com o foco especial num conjunto de soluções que contribuam positivamente para uma nova geração de renda aos moradores da Terra Preta, de baixo impacto ambiental, incentivando o uso sustentável da biodiversidade, promovendo conservação do meio ambiente e desenvolvimento social local, além de cuidar das pessoas que cuidam da floresta”, disse.

Em maio o projeto Amazonas Sustentável já havia lançado a coleção Tumbira, composta por vasos criados por Rosenbaum e Fernanda Marques, esculpidos em torno do artesão local Manoel Garrido, que transformou a oficina que pertencera ao pai, um conhecido construtor de barcos da região, em uma marcenaria, com direito a um torno único, uma invenção do próprio Manoel, feito com um motor de caminhão.      

“O projeto Amazonas Sustentável vai continuar, seja com a coleção Tumbira, ou com a coleção ‘Esse dito bicho’, porque as peças estão fazendo muito sucesso, mas é certo que no futuro serão feitas outras peças, tudo depende do que as energias da natureza decidirem”, concluiu.  

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