‘Produto têxtil está em evolução’ diz Luiz Barreto

Empresa genuinamente amazonense, a BDS Bicho da Seda investe em inovação, tendência que a coloca, hoje, no topo dos grandes empreendedores brasileiros, exportando produtos de tecnologia avançada, confeccionados com mão de obra exclusivamente local, tão arrojada quanto as encontradas em países de referência no setor de confecção e de produtos têxteis.

E não é à toa que o grupo faz parte do nicho das EED (Empresas Estratégicas de Defesa), onde a principal palavra de ordem é inovar constantemente num mercado econômico cada vez mais competitivo.

Reunindo pelo menos 390 funcionários em sua matriz em Manaus, norteados por um diretor exclusivo de inovação e tecnologia, função ainda não tão comum no segmento industrial, a BDS opera no Amazonas desde 1995. E foi pioneira na produção nacional de roupa profissional com bordados, uma novidade que ditou os novos rumos das vestimentas nas empresas.

Agora, seu protagonismo ganha maior visibilidade com a produção de uma máscara cujo tecido inativa o novo coronavírus, bactérias e outros tantos micro-organismos nocivos à saúde.  O produto já foi lançado em Manaus e estará disponível em todos os mercados consumidores. 

A BDS é, atualmente, um referencial de negócios quando o assunto é aprimorar produtos com base nas peculiaridades regionais. “Esse é o nosso grande diferencial que atraiu a atenção das três Forças Armadas do país. Em parceria com o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, produzimos uniformes personalizados com um tecido especial que combate mosquitos, dá proteção solar e não reflete o infravermelho em situações de combate à noite”, diz Luiz Augusto Barreto, presidente da empresa.

Segundo Luiz Barreto, a BDS é uma marca global quando se fala em produtos de exportação. Foi a primeira Empresa Estratégica de Defesa do Brasil no segmento têxtil de confecção. “E seguimos atuando até hoje. Nós nos habilitamos nessas condições operacionais desde 2019”, acrescenta o empresário.

Ele afirma que a produção atende às necessidades específicas de militares com a deliberação do alto escalão das três Forças Armadas. “Só é importante se houver interesse de todos. Caso contrário, não haverá aprovação das propostas. A indústria de defesa é hoje grande geradora de novas tecnologias, promovendo mais empregos e renda”, diz ele.

O executivo Luiz Barreto falou exclusivamente ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – A BDS é uma EED (Empresa Estratégica de Defesa). Mas o que vem a ser uma EED?

Luiz Augusto Barreto – São empresas que realizam desenvolvimento de produtos em parceria com as Forças Armadas para atender a necessidades específicas. Essas indústrias de defesa geram muitas tecnologias para diversos produtos como os que utilizamos hoje -telefones celulares, TVs, carros elétricos….

Ela existe não só para incrementar a base tecnológica do país, mas também para realizar aquisições das Forças Armadas.Para se ter uma ideia, o Exército Brasileiro tem, hoje, 220 mil usuários de uniformes que são comprados todos os anos.

É mais do que ter um Polo Industrial de Manaus inteiro. É razoável que a gente queira que essa demanda seja atendida por empresas brasileiras, gerando empregos e tecnologias no país. E, se puder ser no Estado do Amazonas, por quê não? Será muito melhor.

A BDS foi a primeira Empresa Estratégica de Defesa do Brasil no segmento têxtil e de confecções.  Segue até hoje, nos habilitamos nessas condições operacionais em 2019. É uma empresa que desenvolveu um produto para o Ministério da Defesa com análise e aprovação das três forças –Exército, Marinha e Aeronáutica. Mas só vai ser aprovado se houver interesse dos três.

JC – Essa parceria da BDS com as Forças Armadas para desenvolvimento de tecnologias vem de um bom tempo. Agora, a empresa está lançando uma máscara facial que inativa o vírus da Covid-19. Como aconteceu essa inovação?

Barreto – Na verdade, existe uma visão um pouco ingênua com relação às tecnologias no setor têxtil. Vemos hoje os tecidos das roupas espaciais que parecem tênis. O uniforme usado pelos fuzileiros navais e também pela marinha americana é feito com um tecido que mata mosquito, tem proteção solar, não reflete o infravermelho em combates noturnos.

Então, existe toda uma tecnologia que permeia um produto têxtil. Não é apenas o eletroeletrônico que evoluiu. Têxtil e confecção também evoluíram especialmente sobre o que chamamos de tecidos técnicos, que são desenvolvidos com determinadas condições, características e peculiaridades.

Como é o caso do que estamos lançando agora no país, que é a máscara facial. Foi um projeto desenvolvido junto com a Unicamp e a multinacional francesa Rhodia. Mas quem desenvolveu realmente foram cientistas brasileiros. Se alguém pegar a máscara, vai pensar que ela é comum.

Mas não é. O produto tem uma matriz polimérica que inativa não só o vírus da Covid-19, mas qualquer outro vírus e bactérias que sejam suscetíveis à contaminação. Com a pandemia, as máscaras serão uma ferramenta do nosso uso comum durante muito tempo ainda.

A máscara é o primeiro produto com esse novo tecido. É muito estratégica para os homens das Forças Armadas realizarem operações e se prevenirem da Covid-9. O mesmo tecido pode servir para a confecção de batas, jalecos, como um produto têxtil qualquer, mas trazendo esse novo diferencial.

JC – A máscara está disponível à população em geral ou só para as Forças Armadas?

Barreto – Além das Forças Armadas, o objetivo é também disponibilizar as máscaras para toda a população. Conseguimos produzir uma boa quantidade delas que já podem ser adquiridas na matriz de nossa loja.

JC – É interessante falar sobre novas oportunidades de negócios. Em 2017, o general Geraldo Miotto fez um trabalho nesse sentido alertando as empresas sobre o potencial das Forças Armadas para esse intercâmbio comercial. Em meio a essa situação complexa na pandemia, quais as grandes estratégias da BDS na busca desses nichos?

Barreto –  É importante dizer que com o desenvolvimento desses produtos substituímos as importações. Estamos concluindo 13 meses de trabalho. Não só conseguimos aumentar nossos volumes de negócios como também geramos mais empregos e renda, aproveitando a mão de obra exclusivamente amazonense.

O Exército tem 200 mil empregos, os soldados precisam comer todos os dias, abrindo novas oportunidades de negócios para toda a nossa cadeia produtiva nos mais diversos nichos. Mas é necessário buscar sempre a inovação onde ela esteja. A BDS é a primeira empresa do mundo a lançar esses produtos em tecido plano.

Outras empresas fazem em tecido de malha, mas os itens não têm a mesma durabilidade. Então, esse diferencial foi que atraiu as Forças Armadas para os nossos projetos. Temos uma proximidade muito estreita com elas.

Apresentamos as demandas. As Forças Armadas recebem, os oficiais superiores da Cemid (Comissão Mista da Indústria de Defesa) avaliam, fazem o teste, e decidem se aprovam ou não os produtos. Para ser aprovado, o item tem que ter interesse de todos. Hoje já temos 16 produtos estratégicos de defesa, gerando emprego e renda no país, substituindo importações, com inovação na Zona Franca de Manaus.

O primeiro foi difícil. É como o primeiro beijo, mas depois as coisas fluem com mais facilidade. É isso que faz com que a gente possa dizer com muito orgulho que é um produto feito com tecnologia global e com mão de obra amazonense.

JC – O que é a Bicho da Seda, quantos funcionários tem hoje a empresa. Fale-nos um pouco do grupo empresarial….?

Barreto – É uma empresa amazonense com 26 anos de atuação, sempre mantendo a inovação, reconhecida no mercado nacional. Temos a maior planta da América Latina no segmento têxtil e de confecções. Hoje, as empresas têm uma tendência de terceirizar as atividades.

A BDS vai em outra direção, verticalizando a produção, desenvolvendo novas tecnologias, com mais automação. A empresa prioriza um produto que possa ser desenvolvido de maneira diferenciada, com tecnologia também diferenciada. Essa trajetória é realizada com a mão de obra de 390 profissionais, isso só em termos de empregos diretos na área de confecção.

Não é comum para uma indústria no país ter esse número de empregos. Hoje isso só é possível por todas as questões relacionadas aos incentivos da ZFM, reunindo ainda toda a capacidade da mão de obra amazonense que  é esplêndida, muito eficaz.

JC -Pode-se fazer, hoje, uma roupa profissional igual à que usamos para sair. Isso é uma estratégia também da BDS?

Barreto – Em 1995, a BDS introduziu o bordado em roupa profissional no Brasil. Parece que foi ontem. Importamos as primeiras máquinas de bordado do Japão. Os japoneses vieram aqui e ficaram impressionados, emocionados, ao colocar uma máquina na floresta amazônica.

Na época, parecia assim uma coisa louca que chamava muita atenção. O nosso time de vendas está com a gente há muito tempo, fazendo de 50 a 60 visitas a clientes no país. A BDS é uma empresa nacional. Em 2020, dos 27 Estados brasileiros, 23 deles compraram nossos produtos, roupas confeccionadas por amazonenses.

Exportamos roupas profissionais da marca BDS para cinco países. Falamos disso com orgulho e pelo sentimento de gratidão ao Amazonas que nos acolheu. Foi esse desenvolvimento tecnológico que nos trouxe até aqui, ao que somos hoje. Temos um diretor de tecnologia na BDS, graduado e pós-graduado em inovação e tecnologia.  São medidas que buscam um horizonte de prosperidade para o nosso país e também para todo o nosso Estado.

JC – O ano de 2021 começou com a nova variante do coronavírus. Ainda estamos cheios de interrogações por causa da pandemia. O governo federal já não sinaliza com o mesmo auxílio do ano passado para o enfrentamento da crise. E agora, algumas pautas ameaçam a ZFM no Congresso, como a reforma tributária. Como avalia esse ambiente tão minado em relação aos produtos do Amazonas?

Barreto – Presido também o conselho superior do Centro da Indústria. Dedico 30% do meu tempo para atividades associativas empresariais em Manaus, na CNI. É uma pauta diária. A gente enfrenta chumbo toda a semana, mas continua resistindo. Sempre tem alguém que mexe em compromissos assumidos de forma arbitrária.

Mas Manaus está mais preparada para o combate. A pandemia mostra isso. Nós, empreendedores, estamos acostumados a conviver em qualquer circunstância. A gente acorda surpreendido todo dia com uma conta grande para pagar. Então, não tem muito espaço para lamentações. Nosso sonho é que o governo possa sanear dúvida, principalmente sobre a insegurança jurídica que atinge o capital.

A insegurança é uma tragédia e explicar isso aos investidores internacionais é muito complicado. Mas estamos otimistas com toda a renovação nas lideranças na Câmara e no Senado. E imagino que essa pandemia trará muita evolução na base tecnológica do País.

Como relacionada à vacina e ao produto que estamos lançando agora. Tenho muita esperança de dias melhores. Nós nunca mais voltaremos a ser os mesmos. Quem imaginava que o mundo estaria assim um ano depois. A nossa expectativa é que o governo trabalhe mais sobre a questão da segurança.  E tenho muita esperança que em 2021 será melhor do que foi em 2020.

JC – Além da máscara, quais outros produtos a BDA deve lançar?

Barreto – A nova máscara tem duas camadas que inativam o coronavírus. Agora, já evoluímos para um tecido um pouco mais pesado que pode ser utilizado em lençóis, equipamentos para cirurgias. Pode-se também confeccionar calças, campos cirúrgicos.

O tecido para máscara é muito mais leve.  Já temos pedidos até pra forro de banco de ambulâncias que tem contato com a doença o tempo todo. É evidente que isso traz uma garantia adicional. Não quer dizer que quem usar essa mascara não vai ter Covid. Temos tido um ótimo sucesso. Dos três diretores da nossa empresa, nenhum pegou a doença.

A máscara vai dar imunidade, mas precisa manter os cuidados básicos e os protocolos de higiene e segurança. Se não, não funciona. Quer dizer, usando a máscara e tendo-se os cuidados básicos, a probabilidade de se ter a doença é muito menor.

JC – O novo coronavírus marcou a vida de todos. Qual é o aprendizado da BDS em  relação à pandemia?

Barreto – Participei muitas vezes de reuniões no Exército, pegava o avião, era uma correria nos aeroportos para viajar. Agora, fazemos tudo por videoconferências. A pandemia nos proporcionou essa tecnologia sem precisar se deslocar para outros locais.

Usar máscara, cuidar mais de si e dos outros com procedimentos adequados, é outro grande legado.O mundo jamais será o mesmo, apesar da vacina. Mudou praticamente tudo. A gente tem que se reinventar todo dia, esse é o grande desafio para todos os profissionais.

Foto/Destaque: Divulgação

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