Problemas em abastecimento de insumos preocupa o PIM

Embora tenha conseguido resolver o entrave do desabastecimento de insumos em algumas de suas linhas de produção, parte substancial das indústrias incentivadas do PIM ainda devem enfrentar dificuldades para obter partes e peças para o processo fabril, pelo menos até o terceiro trimestre. O prazo coincide justamente com o período em que o setor começa a aquecer os motores para atender a demanda extra das festas de fim de ano. 

Aliado a outros fatores econômicos igualmente desfavoráveis ao setor, os efeitos do estrangulamento da oferta de insumos –ou mesmo da demora em sua chegada –já produzem efeitos inflacionários. Os preços do setor subiram 5,22%, entre janeiro e fevereiro, na maior expansão registrada pelo IPP (Índice de Preços ao Produtor), desde 2014. O indicador do IBGE –que não leva em conta impostos e frete em seu cálculo – acumula altas recordes de 8,95%, no ano, e de 28,58% nos últimos 12 meses. 

Setor está preocupado com o desabastecimento e os efeitos no pronto atendimento ao atacado Foto: Divulgação

O aumento mensal do indicador da “inflação de porta de fábrica” reflete, principalmente, a elevação de preços das indústrias extrativas (+27,91%), de refino de petróleo e produtos de álcool (+12,12%), de outros produtos químicos (+9,69%) e de metalurgia (+8,35%). Em relação às grandes categorias, a principal influência veio dos bens intermediários (+4,50 pontos percentuais), seguido de longe pelos bens de consumo (+0,70 p.p.) e pelos bens de capital (+0,02 p.p.). 

Consumo x produção

Mas, o que realmente preocupa o setor é o desabastecimento e seus efeitos no pronto atendimento ao atacado. Na análise do presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Antonio Silva, embora a situação tenha melhorado em relação a 2020, as empresas ainda devem sofrer com a escassez de componentes e insumos pelo menos até julho. Os principais segmentos industriais afetados, segundo o dirigente, são os de duas rodas, metalúrgico e de eletroeletrônicos, que dependem “sobremaneira” dos componentes eletrônicos importados.

Dados extraídos da mais recente publicação dos Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, de dezembro de 2020, informam que 78,24% dos insumos utilizados pela indústria eletroeletrônica e de bens de informática instalada em Manaus eram de procedência estrangeira e apenas 4,83% eram fornecidos por empresas brasileiras, enquanto outros 16,91% vinham de fabricantes regionais. O levantamento da Suframa acrescenta que, para o polo de duas rodas, os respectivos percentuais foram 45,77%, 15,86% e 38,38%. 

“Hoje, existe um problema quase crônico no fornecimento contínuo de matéria-prima, em razão dos impactos da pandemia do novo coronavírus em nível mundial. Houve um descompasso entre o decréscimo do consumo e a retração da produção. Temos, atualmente, uma logística complexa para estabelecer um fornecimento ininterrupto e constante”, lamentou. 

Antonio Silva reforça que os gargalos não dizem respeito apenas ao Polo Industrial de Manaus, mas à toda cadeia produtiva mundial. O presidente da Fieam dá como exemplo o fato de que o BC (Banco Central) se viu forçado a reajustar a taxa básica de juros em 0,75%, após seis anos de cortes e manutenções na Selic, mesmo no contexto atual de segunda onda e demanda vacilante. Isso se deu, segundo o industrial, justamente para refrear o consumo e segurar a inflação. 

“A retração da atividade produtiva foi maior que o consumo, de forma que não há produção global para suprir toda a atual demanda, razão pela qual também houve um aumento nos preços. Aliado a esses fatores, temos também as medidas restritivas que impactam e atrasam diretamente a operacionalização da cadeia produtiva. Leia-se: remessa, transporte e recepção. Em suma, a matéria-prima encontra-se escassa e com valor elevado”, resumiu.

Trabalho com fornecedores

Os efeitos do estrangulamento na cadeia de suprimentos para a indústria se dão em estágios diferentes, conforme o subsetor em questão. Para o polo de duas rodas, ele segue crônico, conforme permitem perceber os comunicados mais recentes da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares) a respeito dos balanços de produção de motocicletas e bicicletas no PIM, em fevereiro.

De acordo com o vice-presidente do segmento de bicicletas da entidade empresarial, Cyro Gazola, a falta de componentes e de insumos foi um dos maiores fatores para justificar a queda de produção em fevereiro, assim como a segunda onda de covid-19 –que começou no Amazonas –e as medidas de restrição promovidas pelo governo estadual. O executivo também projeta que o problema de escassez de peças não deve acabar antes do terceiro trimestre deste ano.

“A demanda por bicicletas cresceu no mundo todo e os fornecedores globais de componentes não conseguem atender aos nossos pedidos nem de outros países (…) Cerca de 50% das peças de uma bicicleta são importadas. Há alguns anos, a Abraciclo e suas associadas vêm trabalhando com fornecedores locais para reduzir essa parcela. No entanto, ainda dependemos muito dos componentes importados”, lamentou o dirigente, no texto divulgado pela assessoria de comunicação da entidade. 

“Problemas atenuados”

Em entrevista anterior concedida ao Jornal do Commercio, o presidente da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), José Jorge do Nascimento, assinalou que a expectativa da entidade era que 2021 seria um ano decisivo para o PIM, em virtude do desabastecimento de insumos, entre outros entraves à indústria incentivada de Manaus. O problema da falta de insumos nacionais, prossegue o dirigente, começou a ser sentido no terceiro trimestre de 2020

“Os fornos do aço foram desligados e a indústria de resina plástica, também. Como a retomada deles é diferente da nossa, começou a faltar aço, plástico e até papelão. Teve uma associada nossa, fora da ZFM, que parou porque não tinha material para embalagem. Até então, algumas fábricas estavam trabalhando aos sábados e em três turnos, coisa que há muitos anos não acontecia. Infelizmente, em dezembro, algumas tiveram de antecipar férias coletivas, pela falta de insumo”, contou. 

Produzir sem que a cadeia de suprimentos “deixe as empresas na mão” era uma das preocupações do subsetor, neste ano. Sem conceder maiores detalhes, o dirigente assinala à reportagem do Jornal do Commercio que, pelo menos no âmbito da indústria incentivada de Manaus e seu leque de produtos, o segmento eletrônico já não enfrenta mais esse problema. “Não estamos, neste momento, com problemas de atendimento na cadeia de suprimentos para as empresas instaladas na Zona Franca de Manaus. Especificamente para a ZFM, os problemas foram atenuados no fim de fevereiro”, encerrou. 

Foto/Destaque: Divulgação

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