21 de abril de 2021

A pesquisa científico-tecnológica é um processo. Isso significa que é operacionalizada a partir de uma sequência de etapas em que cada uma delas apresenta um subproduto a ser utilizado na etapa seguinte. Esse procedimento é seguido até a conclusão da última etapa, quando a tecnologia ou produto final é apresentado em sua versão de uso para o público-alvo ou usuários. Chamamos de versão final porque há várias versões parciais, provisórias, em que a primeira versão, chamada protótipo, é também parcial. Como será detalhado na parte específica, uma parcialidade precisa ser entendida como algo que ainda não foi aprovado, validado. É essa sequência de etapas e suas regras específicas que caracterizam o método científico-tecnológico. Sua primeira etapa, portanto, dão conta dos problemas de pesquisa. É preciso primeiro entender o que é um problema para a ciência para que se compreendam os problemas científico-tecnológicos.

Ciência e tecnologia são dois fenômenos distintos. A ciência se preocupa em entender e explicar os fatos e fenômenos do mundo; a tecnologia foca a produção de artefatos capazes de solucionar problemas. A produção de tecnologias pode acontecer sem o uso de conhecimentos científicos. Quando alguém inventa um automóvel que anda na água, por exemplo, usando apenas suas suposições cognitivas está gerando tecnologia de base não científica. Isso mostra, inclusive, que não precisamos da ciência para inventar coisas para solucionar grande parte dos nossos problemas. Contudo, quando o produto exige a reunião de conhecimentos gerados com o uso do método científico, aí teremos a produção tecnológica de base científica. É para este último caso que o método científico-tecnológico é recomendado.

Como o método científico-tecnológico culmina com a produção de tecnologia, é sua pergunta de pesquisa principal que vai orientar e guiar a operacionalização de todas as suas etapas. Por essa razão é preciso distinguir as perguntas de pesquisa tipicamente científicas das tipicamente tecnológicas, para a qual o MC-T foi criado. As perguntas de pesquisa científicas são estruturalmente formuladas apenas para gerar explicações, conhecimentos. De forma geral, há três padrões estruturais dessas perguntas. A primeira tem como finalidade gerar as primeiras explicações sobre algo que o cientista e sua comunidade ou desconhecem ou os conhecimentos são muito insipientes. São as questões exploratórias ou descritivas, cujo desafio é apontar o escopo de um fenômeno ou descobrir variáveis. “Quais são os principais fatores do clima organizacional?” é um exemplo típico desse tipo de problema.

O segundo padrão configura os problemas associativos. Aqui os cientistas procuram, como o nome sugere, associações entre duas ou mais variáveis (daquelas que outros cientistas descobriram nos estudos exploratórios ou descritivos). Seu desafio nesse tipo de problema é saber que variáveis aparecem juntas, estão sempre ou quase sempre próximas. Por exemplo, estrutura familiar e evasão escolar podem estar associadas, se todas as vezes que houver evasão escolar as famílias estiverem desestruturadas. Problemas desse segundo tipo poderiam ser assim formulados “Evasão escolar e estrutura familiar estão associadas?”.

O terceiro tipo são os problemas relacionais. Esses problemas são o sonho de todo cientista e com os quais lidam os grandes pesquisadores da humanidade. A razão disso é que é através das respostas por eles gerados que fazem avançar grande parte da ciência. E, mais do que isso, proporcionam elementos riquíssimos para a produção tecnológica. Eles buscam encontrar relações de causa-efeito entre variáveis e entre fatos e fenômenos do mundo. Suas estruturas são mais ou menos assim “Qual é a relação entre os fatores internos e externos de uma instituição com a evasão escolar?”.

Resumindo: os problemas científicos são direcionados para mapear contornos, encontrar associações ou demonstrar relações. Os problemas de pesquisas tecnológicas são diametralmente diferentes. Estão todos eles voltados para produzir algo material. E, mais ainda: algo que se comprove efetivo para resolver determinada situação. É por isso que as perguntas formuladas são todas voltadas para o próprio artefato. Por exemplo: “Que variáveis podem ser utilizadas para a construção de um painel eletrônico que gerencie a evasão escolar no Instituto Federal do Amazonas?”. Não se espante: essas perguntas são realmente longas. Veja a estrutura: 1) começa com o artefato desejado, 2) prossegue com o fenômeno cujos conhecimentos vão ser encapsulados e 3) termina com o contexto. Veja esse outro exemplo: “Que artefato se mostra mais eficiente para o gerenciamento visual da evasão escolar nos institutos federais brasileiros?”. Perceba a estrutura: 1) começa com o encapsulamento a ser encontrado, 2) prossegue com o principal indicador de decisão, 3) continua com o fenômeno cujos conhecimentos vão ser encapsulados e 4) termina com o contexto.

Essas estruturas não são fixas, nem para os problemas científicos, nem para os científico-tecnológicos. São apenas referenciais, didáticos, para que se percebam com nitidez as diferenças essenciais entre ciência e tecnologia nas suas primeiras etapas metodológicas. Parece fácil entender (e realmente o é), mas é um desafio muitas vezes descomunal elaborá-las e escrevê-las. Tanto é assim que é muito difícil a um pesquisador que não é cientista formulá-las, desconhecimento que é denunciado nas comunicações que ele redige (artigos ou relatórios). E a consequência é sua negação para publicação em periódicos de alto impacto internacionalmente.

É a partir das estruturas desses problemas que as etapas seguintes se desenrolam. E aqui vale sempre a voz da experiência que diz que problemas mal formulados levam a resultados desastrosos. Isso se algum resultado for alcançado. No caso das inovações tecnológicas, em que quase tudo está sendo feito pela primeira vez, é necessário o uso da técnica do avanço-recuo, em que é necessário voltar às etapas anteriores para validar o caminho mapeado. Mas esses detalhes serão vistos depois.

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