Preparação de médicos deve ser completa, avalia CRM/AM

Antecipar a formação de médicos para suprir as demandas de profissionais por conta da pandemia vem causando polêmica, dividindo opiniões. E motiva especulações sobre outros interesses que não os voltados, realmente, para o enfrentamento à Covid-19.

Segundo o CRM-AM (Conselho Regional de Medicina do Amazonas), um exemplo bem prática dessa iniciativa ‘absurda’ seria como deixar um piloto, ainda sem concluir o curso, totalmente inexperiente, conduzir um avião.  Nessas condições, quem se atreveria a entrar na aeronave? Esse é o principal questionamento.

“Será que essa viagem teria um desfecho feliz, permitindo que tripulantes e passageiros chegassem com segurança ao seu destino? É um risco muito grande”, questiona Emanuel Jorge Akel, novo presidente do CRM-AM, tendo agora como vice José Bernardes Sobrinho, que ocupou a presidência do conselho por dez anos.

Na CMM (Câmara Municipal de Manaus), vêm acontecendo debates acirrados sobre a necessidade ‘imperiosa’ de se acelerar a colação de alunos finalistas de medicina para reforçar o atendimento dos pacientes do novo coronavírus.

Bernardes Sobrinho disse que não faltam médicos no Brasil. Ao contrário, esse não é o principal problema. São de 2.3 a 2.4 profissionais para cada mil pessoas, os mesmos porcentuais dos Estados Unidos e Canadá, segundo ele.

Jorge Akel avalia que, no País, as questões sobre a saúde estão muito politizadas, judicializadas, envolvendo principalmente interesses financeiros de grupos políticos e de lideranças empresariais.

“Acelerar a formação de médicos é só um pretexto de quem visa barganhar, tirar proveito de uma situação de calamidade em que vivemos hoje com a pandemia”, diz ele. “Vamos deixar as questões médicas com os médicos, da política com os políticos e das empresas com os empresários”, acrescenta Akel.

José Bernardes e Jorge Akel questionam também as prioridades na campanha de vacinação nacional contra a Covid-19. Para eles, a população de Manaus deveria ter sido priorizada. Por uma única razão: a capital tem o maior número de habitantes que estão mais expostos por causa das aglomerações, o que não acontece com os municípios do interior, onde a densidade população é menor.

Bernardes e Akel falaram com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – O sr. assume os comandos do CRM-AM. Será uma continuidade das medidas adotadas pelo dr. José Bernardes ou haverá um novo pensamento….?

Emanuel Jorge Akel – Sim, com certeza. É Importantíssima a  larga experiência do dr. Bernardes na condução do CRM-AM. Atuo  com ele desde 2018. E me auxiliará muito nesse trabalho. É um enorme legado. Qualquer auxílio nesse sentido será muito bom.

JC – Dr. Bernardes, o sr. só vai dar uma descansada….

José Bernardes – Exatamente. Acabo de completar dez anos na presidência do conselho. O  Akel tem sangue novo, me ajudou bastante na minha gestão e me ajudará muito também com sua experiência.

Qualquer gestor precisa ter dois pilares básicos – probidade e experiência. E isso o Akel tem.

JC – A saúde ganhou mais notoriedade com a pandemia, deixando à mostra grandes problemas, acirrando os debates em torno do atendimento público. Como avalia essa politização e a sensação de se criar mais esforços para um objetivo comum que é o enfrentamento à Covid-19?

Emanuel Jorge Akel – Acho que a política deve ser exercida pelos políticos. Nós médicos devemos exercer a medicina. O assunto da pandemia está muito politizado. Aliás, tudo no Brasil ficam muito politizado quando as coisas estão muito evidentes.

É como na Copa do Mundo, quando o Brasil tem quase 200 milhões de técnicos pra dar sua opinião. As péssimas condições da saúde vêm se agravando por falta de investimentos que continuam cada vez mais minguados.

Nos últimos dez anos, mais de 20 mil leitos do SUS foram desativados bem antes da pandemia.

Então, a pandemia veio mostrar a fragilidade, o erro nas políticas públicas, que continuam erradas.

Não vamos entrar no assunto da política. Como médicos, o que podemos dar é a colaboração técnica, o que é necessário para os órgãos na três esferas de poder. Pra um melhor uso do orçamento público para área.

JC – Existem poucos intensivistas no atendimento aos casos na pandemia. A crise mostrou essa fragilidade. É um problema sério. Faltam médicos com essa formação. Isso decorre do ensino nas universidades ou faltam gestores investir em UTIs?

José Bernardes – A terapia intensiva é uma especialidade muito importante. A pandemia veio provar que temos números de profissionais muito insuficientes.

Dos municípios do interior, só Parintins tem hoje UTI. É E um absurdo. Não é qualquer médico que pode atuar como intensivista. Tem que ser um especialista.

E não adianta ter UTI sem intensivista. Outro sem essa especialidade não utilizará o sistema adequadamente

JC – A demanda por médicos cresceu. Chegam até a defender acelerar a formação em medicina para reforçar o atendimento. O assunto encontra coro até entre parlamentares da Câmara Municipal de Manaus. Como avalia essa questão?

José Bernardes – Não faltam médicos no Brasil. Temos os mesmos porcentuais de profissionais dos Estados Unidos e do Canadá – 2.3 a 2.4 médico para cada mil habitantes.

O que devemos fazer é distribuir os médicos para as regiões mais carentes. Agora,  antecipar a formação de novos profissionais, sem ter conhecimento, é um risco muito grande pra população.

Vou dar um exemplo pessoal. Quando me formei pela USP, eu me senti inseguro ainda pra trabalhar como médico. Tive que fazer especialização de mais dois anos pra me sentir seguro.

Então, a solução não é antecipar a formação. Tem que colocar um médico com condições para atender um paciente com segurança, qualidade.

Acontece que os médicos estão muito mal distribuídos. Em Brasília, são 5.3 por mil  habitantes.

Emanuel Jorge Akel – Defende acelerar a formação de médicos é como deixar um piloto,  que ainda não concluir o curso, sem a experiência necessária, conduzir um avião. Quem teria coragem de fazer uma viagem como essa?

Mas todo o segmento médico sabe que essa defesa tem finalidade política. Alguém deve ter interesse financeiro por trás disso tudo.

JC – Como está a questão da carreira médica no setor púbico?

José Bernardes – Temos um problema muito sério no Amazonas, uma questão que levamos ao governador. Por exemplo, uma pessoa que precise fazer uma cirurgia de catarata tenha que se deslocar de um município do interior, como Eirunepé, numa viagem de 12 dias pra fazer o procedimento em Manaus.]

A cirurgia demora apenas dez minutos. Então, por que não criar um polo de atendimento com várias especialidades em Carauari, bem próximo de Eirunepé? Evitar despesas como essa.

Se  fizermos uma enquete com a população do interior sobre o que mais precisam – de médico ou de juiz. Com certeza, dirão que são médicos. Não é que os juízes não sejam importantes.

É que a doença não espera. A questão judicial pode esperar. No interior, se o médico vai ser entrevistado, ele fica à mercê do prefeito. Se não fizer campanha política, acaba  sendo prejudicado e o novo que assumir a prefeitura manda demiti-lo.

Então, se não fizer campanha política, ele vira inimigo do prefeito que atraso os salários, até ele pedir demissão e vir embora.

JC – O CRM-AM empunha uma bandeira de luta pela carreira médica no interior como acontece no poder judiciário?

Emanuel Jorge Akel – Isso vem acontecendo não é de agora. Já foi exposto em congresso, nos sindicatos médicos.

Mas falta, realmente, uma determinação política. No Brasil, se analisarmos,  a prioridade seria para Amazonas por causa das dimensões continentais do Estado.

JC – Temos muitas discussões sobre prioridades na vacinação. Alguns contestam a questão de faixas etárias e outros defendem a imunização de pessoas que continuam à frente das atividades econômicas. Qual a sua análise sobre esses critérios?

Emanuel Jorge Akel – Das últimas 250 mil doses que vieram para o Amazonas, só 20 mil ficaram em Manaus. O restante foi destinado para o interior do Estado.

A transmissão da doença depende muito do índice populacional. Como Manaus tem mais gente, é lógico que essa prioridade deveria ser mais pra capital, onde há mais aglomerações de pessoas.

Não estamos dizendo que o interior não é importante. E ninguém é mais importante que o outro. A prioridade da vacinação deveria ser proporcional à população das cidades. Mas existe muita judicialização sobre o assunto.

José Bernardes – Essa nova remessa de vacina priorizou mais os ribeirinhos. Eles já fazem isolamento social. Moram dois ou três quilômetros distantes um do outro.

Em lugar de priorizar os municípios, a prioridade deveria ser a capital que é onde existe mais contágio. Claro, todo mundo deve ser vacinado.

JC – A vacinação é mesmo o grande caminho que deve ser seguido….?

José Bernardes – Com certeza, todas as vacinas passam por aval dos órgãos de avaliação e segurança.

Mas toda vacina tem um percentual mínimo de complicações. E quem tem que avaliar isso é a Anvisa. E quando a agência libera, pressupõe-se que exista um grau de garantia.

Emanuel Jorge Akel – Além da vacina, deve-se manter os cuidados com a higiene porque vamos ficar com esse vírus ainda por algum tempo.

E ainda com distanciamento familiar, social, uso de máscara. Nos últimos meses, o agravamento da pandemia maior foi no leito familiar.

JC – Também é polêmica a questão sobre o tratamento da Covid-19 que acabou virando uma politização…..

José Bernardes – O CRM-AM foi o primeiro conselho a se manifestar sobre o assunto recomendando o tratamento precoce com hidroxicloroquina, azitromicina, zinco, ivermectina e anticoagulante.

Isso é muito bom. Evita que a doença se agrave e o paciente seja hospitalizado, chegando a UTIs e intubado.

O grande segredo é  que, tendo-se os sintomas, não esperar o resultado do exame. É tratar logo a doença antes que ela chegue aos pulmões.

A fase um demora de seis a sete dias. Se não  for tratada precocemente, a doença já estará nos pulmões na fase dois.

Até porque esse tratamento precoce não tem nenhuma contraindicação. Então, na dúvida é melhor tratar logo.

Se chegar à fase 2, complica. Aí, a pessoa pode ser intubada.. Na intubação, 80% dos pacientes vão a óbito.

JC – Por que essa recomendação de especialistas não é levada à frente?

Emanuel Jorge Akel – Tudo tem interesse financeiro, é muito politizado. A medicina, nos últimos 100, anos tem correntes diferentes.

Em qualquer tratamento, existem teorias que seguem uma corrente e outras buscam caminhos diferentes

Só que a Covid é uma doença rápida. A conduta médica é pessoal e ele tem que ser responsabilizado pelos procedimentos.

Acho que assuntos da medicina devem ser tratados num fórum médico. O Estado deve fornecer também a medicação necessária. Hoje está tá faltando tudo. A morte do paciente não é nem por conta do tratamento e, sim, pelas dificuldades de atendimentos nos hospitais.

JC – Com a pandemia, foram reforçadas as medidas de biossegurança. Muitos médicos acabaram sendo vitimados pela Covid-19? Tem-se, hoje, mais cuidados com essas questões?

Jose Bernardes – Sim. Em Manaus, morreram muitos médicos. Perdemos um grande porcentual de profissionais. Já deveríamos ter pensado nisso muito antes.

Os equipamentos de proteção não oferecem a segurança que os médicos precisam. E,  às vezes, são de baixa qualidade. Aprendemos muito com a Covid, mas temos conhecimentos pra aumentar ainda mais a proteção.

Emanuel Jorge Akel – A pandemia nos alertou pra outro problema. O SUS deve rever a sua política.

Hoje, o paciente vai num posto, pede uma receita, pega o remédio. Cumpre uma complicada rotina para ter acesso aos atendimentos.

Tudo isso onera muito o sistema.  Faz-se um exame num posto A, pega o resultado no posto B….Uma dinâmica cansativa, onerosa.

Os custos são finitos. Mas as necessidades são infinitas. Se não avaliarmos essa questão, a situação vai ficar ainda mais difícil.

JC – O sr assume o CRM-AM. Quais são os grandes desafios?

Emanuel Jorge Akel – A responsabilidade é grande, são muitos os desafios. Mas contamos com o apoio de todos os conselheiros e também do meu vice, dr. Bernandes, que esteve à frente do conselho por muitos anos.

Somos uma equipe. Temos 44 conselheiros. Precisamos  instalar mais câmaras de sindicância; É sobre essa questão que irei me debruçar. As maiores demandas  ginecologia, obstetrícia, medicina intensiva, dermatologia, cirurgia plástica e cardiologia.

Foto/Destaque: Divulgação

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