Precisa ser historiador para lembrar?

Os anos que sucederam o ano de 1964 eram especiais. Quando o poder é central e as informações válidas são somente às que vêm dele, as pessoas começam a ter um comportamento típico. Por um lado, a revolta, no começo muito tímida, depois pode crescer. Por outro os aplausos patrióticos, daqueles que acreditavam que tudo é correto e necessário, mas também dos bajuladores que queriam se aproveitar da situação, independente se ela pudesse ser prejudicial ao seu próximo. No Brasil do período militar foi assim.

Quando os militares tomaram o poder em primeiro de abril daquele ano de 1964 (oficialmente sempre foi 31 de março por motivos óbvios), foi atendendo um apelo popular. O povo queria isso: O restabelecimento da ordem e o retorno à democracia, totalmente avacalhada com dezenas de partidos e cada um querendo mais cargos. Era para durar um ano, talvez dois. Durou vinte e um. Democratas renomados como André Franco Montoro em São Paulo ou o jurista Paulo Brossard no Rio Grande do Sul aplaudiram a intervenção. Mais tarde se tornariam ferrenhos opositores. Mudaram de opinião? Não, viram frustradas suas expectativas.  

Todos sabiam que assim como estava não podia continuar. 58 greves em andamento, João Goulart recebia muitos visitantes de esquerda e ele próprio já fora para China. Recusara a oferta de Kennedy em ter no Brasil uma base americana por isso era considerado de “tendências comunistas”. O comunismo no mundo era o exemplo da falta de liberdade individual, econômica e religiosa do cidadão. O golpe militar, anticomunista, era visto com bons olhos a todos que prezavam a liberdade e a livre iniciativa e principalmente pela Igreja Católica. Com o passar dos anos a ICAR se tornou ferrenha opositora do regime militar, tendo a frente o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. No afã de criar uma oposição forte, estimulou a esquerda que também nunca foi santa. 

A imprensa estava amordaçada, os governadores e os prefeitos de capitais e municípios de fronteira não eram eleitos, mas nomeados depois de passarem pelo crivo do SNI, o Serviço Nacional de Informações. Mesmo assim, havia o jornal “O Pasquim” que com humor fazia seu papel de oposição. Havia uma centena de publicações clandestinas. A revista Veja era um símbolo de imprensa independente. A emissora Globo de televisão nunca omitiu uma única análise sobre a situação política do Brasil e com isso possivelmente retardou a volta do estado de direito. Muitos jornais fizeram da bajulação sua sobrevivência, servindo até para denunciar “infiéis” do sistema. A censura em todos os níveis funcionava. Havia olheiros do regime nas universidades.

Havia apenas dois partidos políticos que abrigavam tendências nada harmoniosas. Contudo, a eleição era totalmente livre para o parlamento. A oposição crescia. Um fato muito curioso aconteceu na cidade fronteiriça de São Miguel D’Oeste em Santa Catarina. O prefeito já estava definido e as lideranças partidárias se reuniram e colocaram apenas candidatos em igual número que de vereadores. Se não me falha a memória, foram quatro candidatos da ARENA e três do MDB. Eles, por conta própria “nomearam” também os vereadores. Diga-se a favor disso, que o cargo de vereador era honorário, por isso sem remuneração.

Como dissemos, a nível nacional, a oposição crescia e elegeu 16 senadores. Em 1974, para garantir a maioria, o governo do presidente Geisel instituiu um terceiro senador que seria nomeado pelo regime. Assim cada estado passou a ter três senadores ao invés de dois. Com a redemocratização, o terceiro senador não foi eliminado, mas passou a também ser eleito. 

Emprego havia para escolher. Você podia andar tranquilo a qualquer hora. O que hoje se fala sobre este período é tendencioso de ambos os lados, claro. Ressaltar dramas individuais não representa um todo. Contudo o policiamento de ideias sempre é ruim.

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