A iniciativa do projeto “Escola Sem Partido” é uma medida austera que objetiva combater, segundo a sua própria razão de ser, a “doutrinação ideológica nas Escolas”. Por doutrinação ideológica, leia-se: restringir os estudantes em todas as fases do processo de ensino às abordagens marxistas, que estão em íntima identidade com os projetos políticos dos partidos políticos e movimentos sociais de esquerda. O projeto visa construir, portanto, uma pedagogia mais pluralista e aberta a outras interpretações.

Sem querer entrar propriamente no mérito sobre a validade ou não do projeto, o que neste caso, prefiro suspender o juízo, apelando à velha artimanha dos céticos da antiguidade grega, o alvo do projeto é certamente combater o uso político-partidário da doutrina do filósofo alemão Karl Marx.

Na condição de professor universitário, vez ou outra, assumo a disciplina de Sociologia. Desde a minha graduação em Ciências Sociais, aprendi que os alicerces da disciplina estão em três grandes clássicos, a saber: Émile Durkheim e a sua abordagem positivista e funcionalista, Max Weber e a sociologia compreensiva e, finalmente, Karl Marx e o seu materialismo histórico e método dialético. Os três ganharam um apelido carinhoso: são “os três porquinhos da Sociologia”.

Lá na academia, durante o rito de formação, dependendo do professor, teremos um Marx como um anjo ou como um demônio. Marx consegue criar este espírito maniqueísta de ame-o ou odeio-o! Mas independente disso, sempre nutri muita simpatia pelo filósofo de Trier (nome da cidade natal de Marx). Confesso que passei até uma temporada prolongada como “marxista” de carteirinha até tornar-me conservador. Afinal, conforme citação de Georges Clemenceau, sempre muito bem lembrada por Winston Churchill e Roberto Campo, “Um homem que não seja um socialista aos vinte anos não tem um coração. Um homem que ainda seja um socialista aos quarenta não tem cérebro”.

Ultrapassados os muros da academia, Marx ganhou espaços nas ruas e nos bancos das escolas. Agora, termos como “luta de classes” transformam-se em causa para, por exemplo, invadir propriedade como justificativa para se reivindicara a reforma agrária; ou o estudante se rebelar contra o professor, a fim de se combater a educação burguesa que só perpetua a “alienação”. Definitivamente, Marx está na boca do povo, para o bem ou para o mal.

Todavia, este Marx tão propalado aos quatro cantos do país é um autor paradoxalmente desconhecido. São poucos aqueles se atrever a entrar na crítica da superestrutura e da moral burguesa de “Os Manuscritos Econômicos e Filosóficos”, “A Ideologia Alemã”, ou “A Questão Judaica”; são mais raros ainda aqueles que sendo marxista leram ou conhecem os seus trabalhos sobre política como o “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte”; e mesmo o “Manifesto Comunista” e “O Capital”, suas obras mais conhecidas no campo da economia política clássica.

O brasileiro é um caso raro de adesão ou repulsa sem o devido estudo sistemático e metódico. Tanto os marxistas quanto os não-marxistas estão pouco se lixando para o que Marx verdadeiramente estudou ou escreveu. A crítica ou elogio, em geral, seguem o efeito manada da multidão incauta movida apenas por sentimentos de paixão.

Estudar Marx ainda é importante, pois ele ainda é o maior paradigma das ciências humanas. Marx nos ajudou a entender a formação do mundo moderno a partir da emergência do modo de produção capitalista; ou seja, o capitalismo como um sistema econômico geral permeado de relações sociais de contradição entre aqueles que detêm os meios de produção e aqueles que possuem a força de trabalho. Usando o instrumental da economia política, Marx investiga as origens da desigualdade social a partir do conceito de mais-valia absoluta e relativa.

Em o “Manifesto Comunista”, Marx profetiza os caminhos da mundialização do capitalismo. A expansão das fronteiras econômicas do capital capaz de converter tudo em mercadoria. Este mercado mundial é a própria realização da globalização tal qual a percebemos nos dias de hoje.

Porém, Marx, o profeta do comunismo, o regime da igualdade entre os homens, se converteu no maior pesadelo político já registrado na história mundial. Estatísticas conservadoras colocam um total de cem milhões de mortes na conta dos regimes comunistas mundo afora. A utopia de um mundo melhor viu nascer a distopia do cerceamento das liberdades individuais e a barbárie totalitária.

Marx tem responsabilidade moral pelas ideias que levaram milhões a morte? Acredito que sim. A sua responsabilidade moral é necessária e suficiente, porém não devemos com isso suspender qualquer tipo de meditação em torno das ideias forjadas por uma das maiores inteligências que a humanidade já conheceu. Estudar Marx é necessário e urgente tanto para amá-lo quanto para odiá-lo. Fica aqui a minha sugestão.

*Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político

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