Pontos negativos e positivos da pandemia na cultura local

Nem tudo foi ruim para o segmento cultural, segundo o produtor de shows musicais e jornalista Fabrício Nunes. De acordo com ele, a pandemia, apesar de ter atrapalhado os negócios de cultura, trouxe grandes lições. “A partir de agora, quem não aprender a utilizar computador, smartphone, aplicativos, redes sociais e todas essas novas plataformas digitais vai ficar para trás e vai perder mercado, porque a pandemia mostrou que nós temos de nos adaptar a outros formatos para podermos continuar trabalhando”.

Ele destaca que outro benefício oriundo desse período, em especial para os artistas da área musical, foi o registro audiovisual. “Antes, nós tínhamos uma deficiência nesse quesito. Raros artistas tinham shows ou apresentações gravados. E isso prejudica na hora de divulgar o trabalho dos cantores. Agora ficou mais fácil porque temos registros de muitas lives no Instagram, Facebook e YouTube”.

Fabrício ressalta que manterá o formato digital exatamente pelo fato de facilitar o registro audiovisual do trabalho realizado e também porque as lives possuem outra vantagem. “É uma maneira de aliviar o ‘esvaziamento’ de 50% do local do show porque não podemos utilizar a capacidade total dos teatros. Então, as pessoas que não conseguirem entrar porque tem limitação na capacidade poderão assistir pelas redes sociais”.

A pandemia 2020 afetou todas os segmentos sem distinção, dentre eles o de negócios de Cultura, como afirma a empresária e artista visual Mel Kenia, proprietária do Cervantes Bar e Restaurante, no Largo São Sebastião, Centro, zona sul de Manaus. “Foi um desastre para todo mundo porque simplesmente parou tudo. Nós, talvez, não tenhamos sentido muito porque nós tínhamos acabado de abrir. Nós estávamos funcionando há um mês e 15 dias, quando fechamos devido ao decreto estadual”.

Porém, ela considera que, de uma certa forma, o período de pandemia impôs um nivelamento na concorrência. “Eu não pensei em fechar de vez porque eu percebi que estava ruim tanto para nós quanto para os demais. E isso igualou a todos nós que temos empreendimentos do mesmo segmento. Os que são mais antigos – porque tem locais aqui com 20 anos de atividade – ficaram na mesma situação que nós. Então, fechamos e agora reabrimos, recomeçando tudo novamente do zero, que nem eles”.

Ela crê que a retomada da economia de fato só aconteça em 2021. “O governo liberou para a reabertura no dia 6 de julho, mas nós abrimos somente no dia 15, porque queríamos ver o movimento, e percebemos que realmente estava muito lento. Não tinha ninguém, e os outros estabelecimentos que já estavam funcionando ‘penaram’ duas semanas. Depois, em agosto, começou a melhorar um pouquinho. E, ainda assim, com prejuízo. Nós todos ainda estamos no prejuízo aqui. Em setembro, começou a melhorar, mas equilibrar mesmo, financeiramente, eu acredito que só para o ano que vem”.

Mais visibilidade na pandemia

Jean Williams tem 37 anos e é músico e cantor há 22 anos. Ele conta que iniciou a carreira em 1998, cantando e tocando no regional Swing do Norte, um dos grupos oficiais do Boi Garantido, depois participou de uma banda de heavy metal e, em seguida, de uma de pop-rock, a Playmobil. Desde 2012, ele optou pela carreira solo.

“Tive de me reinventar e, graças a Deus, consegui. Eu fui o primeiro artista do Amazonas a fazer live de show no Instagram (@jeancantor_) e isso deu uma visibilidade muito grande, tanto que antes de começar a pandemia eu só tinha 6 mil seguidores e agora tenho mais de 24 mil. E eu só tenho três anos de Instagram, pois comecei em julho de 2017”, comenta Jean, que, paralelamente ao trabalho online, começou a fazer outros projetos, como o “Sarrafo na Sacada”, shows presenciais em condomínios, nos quais ele se apresenta no térreo e os moradores ficam em suas respectivas sacadas.

“Enquanto os colegas de profissão estavam reclamando da situação, porque tudo teve de parar repentinamente, eu fiz o inverso. Procurei alternativas de fazer shows em condomínios. Para isso, eu fiz um investimento, pois tive de comprar uma caixa de som mais potente para que o som pudesse chegar até o último andar dos prédios. Na realidade, eu considero que eu fui um dos únicos músicos de Manaus que não parou de trabalhar desde que começou a pandemia”, enfatiza.

Depois de fazer sucesso com shows-lives no Instagram e em condomínios, Jean passou a utilizar o YouTube apresentando o “Descendo o Sarrafo”, vídeos dos shows nos condomínios. Em seguida, em 21 de junho, ele realizou uma edição especial do seu projeto, só que desta vez sobre as águas do rio Negro. “Fiz uma live no meio do rio, dentro de um iate, que eu batizei de ‘Sarrafo sobre as Águas’, que teve 1.137 visualizações no YouTube, mas que também acabou viralizando pelo WhatsApp”, lembra Jean, que também participou do projeto #FicaNaRedeManinho, as apresentações artísticas em plataformas digitais criadas pela Secretaria de Estado de Cultura do Amazonas.

Jean conta que os meses de julho e agosto foram mais movimentados do que antes do período da pandemia. “Eu não parei de trabalhar porque as pessoas não podem sair, mas podem receber em casa e, então, estou até hoje fazendo apresentações em residências, tocando em aniversários, batizados, casamento e também em desfiles de lojas. Por essa razão, agora tenho pouco tempo para fazer lives no Instagram ou no YouTube. Esses formatos são importantes, mas os shows presenciais para mim agora, neste momento, estão me absorvendo inteiramente”.

Pandemia impediu artistas e técnicos de trabalhar

O ator, diretor e empreendedor cultural Michel Guerrero, que, atualmente, vive exclusivamente do fazer artístico, explica que a pandemia interrompeu o processo de transformação da sua companhia de teatro, a Apareceu a Margarida, em associação cultural, que, quando for legalizada, poderá produzir espetáculos de teatro, dança, música, cinema etc.

“Em dezembro e janeiro, eu trabalhei muito e estava com uma boa renda, então, eu dei entrada nos documentos em cartório para fazer a transição da companhia em Associação Cultural Apareceu a Margarida (Acam). Mas, ainda faltavam alguns documentos. Como tudo parou, eu não tive mais dinheiro para dar prosseguimento a esse processo. Isso atrasou um pouco os meus planos, mas, em breve, com essa retomada, eu espero corrigir essa situação logo”, comenta Michel Guerrero, que criou a Companhia de Teatro Apareceu a Margarida em 1998.

Assim como a maioria dos artistas, Michel Guerrero também foi afetado pela paralisação das atividades artísticas. Ele conta que conseguiu se manter com o apoio da família e das redes sociais, fazendo lives de humor com a personagem Lady Parker, que criou em 2004. No Instagram, Michel pode ser encontrado na página @michelmanaus37. No YouTube e no Facebook é Michel Guerrero, nos quais ele posta vídeos de peça.

Quem também sofreu impedimentos foi o diretor de teatro e técnico de iluminação Manoel Herculano da Silva, que desde o início da pandemia teve de paralisar as suas atividades da sua empresa, que realiza trabalhos de iluminação de eventos e espetáculos e também de comunicação visual. “A empresa ficou 100% sem trabalho de iluminação porque nenhum teatro estava funcionando. Já a parte de comunicação visual ficou prejudicada em 80%”, conta Herculano, que fundou o Grupo de Teatro e Dança Jurupari em 28 de abril de 1983, o qual produziu vários espetáculos de artes cênicas.

Ele conta que só não ficou sem dinheiro porque tem um emprego fixo na área administrativa de uma escola, mas, que, infelizmente, não é suficiente. Para se manter ao longo da pandemia, o profissional contou com o apoio da esposa. “Mas, agora, com a reabertura dos teatros, vou poder trabalhar novamente porque a minha empresa está com um contrato fixo com um teatro privado”.

Reportagem de Guilherme Gil 

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