Religião e Política podem se comunicar e se influenciar, porém, quando se misturam e formam um único movimento político-religioso, isto pode ser perigoso, tanto para a espiritualidade das igrejas quanto para a qualidade da atividade política. Infelizmente é o que tem ocorrido em diversos países, inclusive no Brasil, colocando em risco a evolução democrática e ameaçando a integridade de igrejas que se associam diretamente ao poder político.

A crença religiosa difere da crença ideológica política. A primeira deve estar à serviço de Deus na humanidade, já a Política, a serviço do bem-estar da sociedade, na mediação de conflitos e na busca de convergências para o bem comum. Ou seja, a fé não é um dispositivo de construção material, mas espiritual, da relação entre o ser humano e Deus, enquanto o credo político é uma construção do ser humano, com materialização de atividades que recebem – ou não- influência religiosa.

Pode parecer complicado, mas não é. Basta lembrar que na prática religiosa temos o dever de lealdade e de obediência aos preceitos que nossa fé preconiza como essenciais na relação com Deus e o próximo, a partir de um fundamento espiritual. Na prática política o que vale principalmente é harmonizar conflitos de opinião entre diferentes segmentos da sociedade, buscando soluções palpáveis, materiais, de comum interesse, de acordo com uma orientação ética e ideológica.

É evidente que interessa aos cristãos e à crentes de outras religiões o direito de professar sua fé sem ser intimidado ou perseguido, como ocorre em certos países. Ou seja, a liberdade religiosa deve estar insculpida no ordenamento jurídico, a fiom de garantir o direito de livre adesão- ou não – a um credo religioso. Por outro lado, interessa aos cidadãos, religiosos ou sem religião, o direito de exercer sua cidadania livremente. Nesse sentido, a democracia, com o respeito ao livre arbítrio de escolha, se coaduna com o direito de professar uma fé religiosa. O fato é que nos regimes democráticos costuma haver garantia de liberdade de culto e de manifestação da fé, dentro dos limites de respeito à quem não é adepto da mesma religião. Ou seja, nas democracias, as religiões e as igrejas em geral são mais respeitadas e protegidas do que nos regimes autoritários, que “escolhem” a quem proteger, defender e costumam propiciar condições materiais melhores para alguns segmentos religiosos, em detrimento dos outros.

Penso que é importante os cidadãos poderem absorver conceitos e práticas espirituais que propiciem a melhoria dos ambientes sociais e políticos que frequentam. Trata-se de incorporar valores e condutas que podem auxiliar pessoas a viver em harmonia, com respeito recíproco e cooperação na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Nesse sentido, as lideranças religiosas e políticas podem dialogar, mas não devem se misturar, porque se isso ocorrer haverá uma contaminação corruptora, pelo processo de acúmulo de poder para ambas.

A religião pode trazer benefícios para a política, se a atitude dos que a praticam se reverter em ações pacíficas, em respeito, em amor ao próximo, em generosidade pelo bem coletivo e em compaixão pelos indivíduos mais vulneráveis. Mas se as igrejas e os partidos, por meio de seus líderes, se associarem diretamente na práxis política, a corrupção de valores e atitudes é praticamente inevitável. 

A meu ver, uma das provas de que a mistura entre religião e poder político não fazem bem são a grande violência, a corrupção sistêmica e a enorme desigualdade social que existem em nosso país, em paralelo com vantagens e privilégios para quem é “amigo” do poder temporal. No caso, como explicar que mais de 95% dos brasileiros se declarem cristãos e a honestidade de propósitos espirituais, de praticar o bem, não prevaleça sobre esses males? Na realidade, o “farisaísmo contemporâneo” parece predominar, apesar das “boas intenções” de líderes religiosos que, no afã de defender os interesses de suas igrejas, acabam se tornando líderes políticos. 

Lembrando o que disse Jesus Cristo: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”! Assim, buscar o diálogo com “César” no sentido de influenciá-lo para o bem comum, o amor ao próximo e a justiça é bem diferente de se tornar “sócio” ou “súdito político” dele…Em síntese: a religião e a política não devem pertencer uma à outra.

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