Pintura com café, cenoura, beterraba…

Cenoura, beterraba e açafrão. Pra completar, café. Mais parece uma salada e um cafezinho para tirar o gosto. Mas, na realidade se trata das matérias-primas utilizadas pelo artista plástico peruano Miguel Angel Arce Peña para fazer suas tintas.
“Não inventei nada de novo. Antigamente, quando as tintas não eram industrializadas, com certeza os artistas se utilizavam desses meios para conseguir os pigmentos para colorir suas telas. Hoje, essas tintas são muito caras então prefiro eu mesmo fazê-las, e o resultado é muito bom”, explicou.
Miguel Angel começou a fazer seus primeiros desenhos com seis anos, ainda na cidade de Marcona, no Peru, e logo aqueles rabiscos muito bem feitos chamaram a atenção. “Mas eu nem pensava em ser artista plástico. Meu irmão mais velho é que, vendo meu talento, pediu para eu visitar a Escola Superior de Belas Artes de Ayacucho. Para não desagradá-lo, fui, fiz o vestibular, passei e comecei a frequentar as aulas. Só então o artista plástico despertou”, recordou.
Ainda na Escola Superior, Miguel Angel começou a vender seus primeiros quadros. “No último ano fui contratado pela Prefeitura de Huanta para fazer três esculturas para uma praça da cidade. Ganhei o equivalente a R$ 30 mil. Aí vi que valia a pena ser artista plástico”, revelou.
Miguel Angel chegou a Manaus em 2006 e por quase um ano trabalhou no atelier do grande mestre Anísio Mello. A partir de então começou a construir seu nome na cidade, aliás, um novo nome, Naycamp, com o qual ele assina todos os seus trabalhos. “Naycamp é o deus-pássaro da cultura mochica, que habitou o norte do Peru entre 100 a.C. e 800 d.C.”, explicou.

Em busca do estilo

Em Manaus, Miguel Angel se tornou professor de desenho técnico na Uninorte e divide seu tempo entre a profissão e as atividades no seu atelier. “Desde que comecei a dar aulas na Universidade, meu tempo para as artes ficou reduzido, pois sempre trago trabalho para casa, trabalhos dos alunos, para analisar com mais calma. Ainda assim, nas férias, como agora, ou nos feriados, dou vasão ao artista”.
Dos desenhos, para as esculturas e os quadros. “Em qualquer um deles, tenho facilidade em trabalhar. Sempre vendo minhas esculturas e meus quadros para empresários da cidade. Morei três anos em Rondônia e lá também nunca faltaram compradores. Minha pintura é acadêmica, mas tento fazer uma mistura do expressionismo com o surrealismo. No começo pintava motivos andinos, mas as pessoas daqui não se interessavam, aí passei a mostrar a cultura amazônica, o ribeirinho, os indígenas”, contou Angel.
Sobre as verduras e o café utilizados como pigmentos, eles são extraídos da maneira mais simples possível. A beterraba e a cenoura são colocados numa seringa dessas de aplicar injeção, e o sumo é extraído. O açafrão é um condimento vendido em pequenos sacos, da mesma forma o café, vendido em pacotes. “Esse dois últimos eu os utilizo da forma como eles vêm e o resultado é tão bom quanto o de uma tinta industrializada, bem como o sumo da cenoura e da beterraba”, afirmou. “Ainda utilizo a anilina, que é o pó de minerais e de ferrugem, mas esse material, acredito, todos os outros artistas utilizam”.
Miguel Angel se divide hora desenhando, hora pintando, hora esculpindo. “Agora pretendo fazer uma sequência de esculturas, porque já faz algum tempo que não as faço”. Sobre dar aulas, falta tempo. “Tenho apenas uma aluna, mas é porque não dá para ter mais. Mas quero fazer como o Anísio Mello. Quando me aposentar, pretendo ter uma escola de artes. Não quero mais ir embora de Manaus. Aqui, agora, é a minha cidade. Aqui desenvolverei minha arte e a ensinarei”.

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