Pesquisa mostra riscos do consumo de peixe e farinha no norte

As principais atividades desenvolvidas em áreas rurais dos municípios do nordeste do Pará incluem a produção agrícola, a pecuária e a pesca. Nesses municípios, dois grupos de alimentos estão quase sempre disponíveis na dieta: a mandioca e o pescado. A atividade pesqueira e a produção de farinha artesanal são elementos importantes para as comunidades tradicionais da região.

No Norte no Brasil, é comum o consumo de farinha e peixe concomitantemente. Entretanto, assim como a farinha pode apresentar teores significativos de cianeto de hidrogênio (HCN), algumas espécies de peixes da Amazônia têm apresentado elevados níveis de mercúrio, acima de 0,5μg/g, o limite recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Esse foi o contexto da pesquisa desenvolvida por Cláudia Simone Baltazar de Oliveira e apresentada na tese Respostas toxicológicas e oxidativas associadas ao consumo de peixe e farinha de mandioca em uma população rural do nordeste paraense. O estudo foi defendido pelo Programa de Pós-Graduação em Doenças Tropicais (PPGDT/NMT), orientado pela professora Maria da Conceição Nascimento Pinheiro.

“Diante da ausência de estudos da interação bioquímica do HCN e do Hg através da alimentação no organismo e da existência de grupos populacionais na Amazônia em risco por essa dupla exposição, surge a necessidade de se investigar os efeitos nocivos da ingestão do metilmercúrio oriundo da dieta de peixes e do HCN da farinha”, afirma Cláudia Baltazar.

Em contato com o organismo, o cianeto é rapidamente absorvido independentemente da via (mucosa respiratória, gastrointestinal, pele e olhos, se o contato for contínuo). Em casos de intoxicação oral, foram observadas quantidades relevantes de cianeto no cérebro, nos rins, no estômago, no fígado, no sangue e na urina, demonstrando que ele é distribuído em vários tecidos, causando vertigens, vômito e, dependendo da dose, pode levar à morte, em uma ou duas horas.

Em relação ao mercúrio, destaca-se a atividade garimpeira na contribuição da exposição, pois o metal é oxidado, gerando íons de mercúrio (Hg+1 e Hg+2), que interagem com o ecossistema aquático. A ingestão do pescado contaminado é capaz de causar várias doenças em humanos, como diminuição da memória, alterações da visão e da pressão arterial, tremores, problemas reprodutivos e renais.

Amostras

A metodologia usada foi observacional e transversal, desenvolvida em dois municípios no nordeste paraense. “Foi realizada a avaliação das concentrações de cianeto em 14 amostras de farinha de mandioca e de mercúrio total (HgTotal) em nove espécies de peixes. Além disso, analisamos as concentrações de HgTotal e de marcadores oxidativos de 76 residentes de uma comunidade rural, que tinham dieta à base de peixes e farinha de mandioca”, relata Cláudia Baltazar.

A biomédica revela que a concentração média de cianeto variou entre as comunidades. Na comunidade “A”, a concentração obtida foi de 20,06 mg/HCN/Kg, variando entre 18,2 e 23,00 mg/HCN/Kg. Na comunidade “B”, localizada em outro município, a média encontrada foi de 14,24, mínimo de 7,5 e máximo de 22,1 mg/HCN/Kg. Ao comparar com o valor preconizado de HCN total para consumo seguro segundo a OMS (10 mg/HCN/kg), foi observada diferença estatística significativa.

Os peixes analisados foram avaliados de acordo com o seu hábito alimentar. A variação de HgTotal no grupo carnívoro foi de 0,03 a 1,30 μg/g nas amostras de S.brasiliensis (peixe serra). Nos detritívoros, o mercúrio foi menor, com mínimo de 0,09 e valor máximo de 0,90 μg/g na espécie C.latus (guaraximbora) e H.litoralle (tamoatá).

Constata-se, por fim, que os peixes de hábitos carnívoros apresentam maior contaminação por HgTotal, em comparação aos detritívoros, que apresentam como elemento dominante na alimentação o detrito orgânico. Desse modo, os peixes predadores, como o planctívoro, o carnívoro/piscívoro e o carnívoro/necrófago, possuem elevadas concentrações de Hg e devem ser evitados.

Um modo de investigar as consequências do consumo desses dois alimentos de forma concomitante é por meio da determinação de biomarcadores. “O estresse oxidativo está associado ao desenvolvimento de diversas doenças crônicas, como diabetes, obesidade, transtornos neurodegenerativos e câncer. Portanto conhecer os marcadores para a avaliação do estresse oxidativo pode aperfeiçoar o diagnóstico de patologias associadas. Os marcadores de estresse oxidativo são parâmetros biológicos que identificam a produção de radicais livres e metabólitos específicos e se baseiam na análise do processo de oxidação de lipídios, proteínas e DNA”, explica a autora da tese.

“Foram colhidas amostras de 10 ml de sangue por punção venosa para as análises hematológica, bioquímica clínica e oxidativa, nesta ordem. Fizemos também coletas de fios de cabelo para a avaliação das concentrações de HgTotal. Foi realizado hemograma completo e bioquímica clínica, que incluiu a dosagem de glicemia de jejum, dosagem de colesterol total, triglicerídeos, creatinina, ureia, TGO, TGP e proteínas totais em todos os 76 participantes da comunidade “B”, afirma Cláudia Baltazar. Com informações do Portal Amazônia e UFPA.

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