25 de junho de 2022

Passagens aéreas caras, massacre de índios e agronegócio por desenvolver

Por Juarez Baldoino da Costa (*)

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Foram as manchetes na 1ª página da edição do Jornal do Commércio em 30 de maio de 1964, republicada na edição de 27/5/2022, 58 anos depois.

Por que estes temas são recorrentes no Amazonas?

No caso das passagens aéreas o fenômeno econômico da chamada lei da oferta e da procura produz efeito contrário ao efeito que ocorre com os bens de consumo em geral: quanto menos procura por assentos houver, maiores serão os preços, ao passo que para o feijão, por exemplo, quanto menos procura houver, menores serão os preços.

Houve períodos eventuais de passagens mais baratas por haver demanda elevada em razão da ZFM, mas ao longo do tempo o quadro se estabiliza porque, no caso do Polo Industrial, o maior contingente populacional trazido para Manaus veio do interior do Estado e de outros locais por via fluvial, e a mão de obra externa de nível médio e superior, potenciais passageiros de aviões, foi de fluxo único, apenas de ida para Manaus, e ainda de forma gradativa conforme as indústrias foram se estabelecendo. Outra variável foi o turismo de compras da ZFM que provocou diminuição dos preços das passagens por um período e por ser demanda de 2 fluxos de curto espaço entre eles, mas a partir da abertura das importações em 1990 no Brasil o contingente diminuiu.

Outro fator foi a abertura da estrada BR-319 (Manaus – Porto Velho) em 1976 que reduziu a procura por voos. Atualmente, entretanto, mesmo sem a BR-319 que tem o tráfego interrompido no inverno, o contexto é outro, porque a ZFM e o PIM estão estabilizados nesta relação com o transporte aéreo, e por isso os preços continuam elevados. Caso a BR-319 tenha restabelecido o fluxo de tráfego durante todo o ano, os passageiros das empresas aéreas provavelmente serão ainda menores, o que deve elevar os preços ainda mais. A demanda de passageiros causada pela ZFM é em parte da categoria “negócios”, cujo preço das passagens não é impeditivo importante e a quantidade não é expressiva.

A manchete de 1964 sobre o massacre dos índios se referia aos indígenas de Pauini, e hoje poderia se referir aos yanomamis do Amazonas ou aos kanoês de Rondônia.

Este processo contínuo e secular caminha para a inexorável incorporação dos indígenas que remanescerem à sociedade não indígena em mais algumas décadas, destino até inocentemente buscado inconscientemente por eles próprios. Seus territórios, nesta perspectiva, deixarão de ter sentido e deverão naturalmente ser restringidos substancialmente ou extintos como figura jurídica, e serão incorporados como territórios comuns com regras comuns de ocupação.

Em relação à agroindústria do Amazonas, o cenário de 58 anos atrás é semelhante ao cenário de hoje conceitualmente, ou seja, o Estado continua precisando buscar sua identidade econômica mais efetiva neste espectro, principalmente na última década em virtude também da política econômica mais liberal em curso que busca eliminação de incentivos fiscais, incluída a ZFM, mesmo com notícias de aceno com benefícios semelhantes para a Tesla de Elon Musk, o que parece ser um contrassenso. O agro amazonense hoje responde por cerca de R$ 5 bilhões anuais, ou 5% do PIB, e os novos derivados da Amazônia biológica ainda não foram quantificados e especificados.

As passagens aéreas muito caras e o processo de absorção dos indígenas têm poucas chances de mudança do curso atual, e até caberiam em análise à parte, mas a agroindústria pode ajudar a economia do Estado desde que se liberte da estratégia (ou da falta dela) adotada até hoje, apesar de avanços pontuais mas ainda incipientes frente a capacidade de geração de 600 mil empregos e arrecadação de R$ 14 bilhões de tributos estaduais que a ZFM proporciona através da indústria, do comércio e dos serviços.

A inteligência do assunto tem avançado em determinados círculos, como, por exemplo, entre outros, o trabalho conduzido pelo parintinense Dr. Alfredo Homma da Embrapa, intitulado Sinergias de Mudança na Agricultura Amazônica – Conflitos e Oportunidades, com 492 páginas.

Há também vários outros importantes trabalhos publicados nesta direção que podem ser somados ao trabalho da Embrapa, porém um dos problema que se percebe é que, mesmo sendo necessário tecnicamente e útil academicamente e cientificamente, estas obras fundamentais, riquíssimas e que se constituem em repositórios de potenciais soluções que se busca há décadas, têm, para alguns, o inconveniente de possuírem um extenso conteúdo, não muito apreciados por alguns dirigentes públicos, que preferem discursos de 2 ou 3 laudas. Há exceções, felizmente.

492 páginas de leitura não estimulam a todos os que poderiam mudar a história do Amazonas. 

As manchetes de 1964 e que ainda são as mesmas de hoje, poderão se repetir em 2073, quando termina a ZFM, e que pode não estar longe o suficiente para permitir tornar realidade outros vetores econômicos, alguns já listados entre as páginas das publicações que continuam nas prateleiras empoeiradas da academia.  

Os decretos de Brasília continuam à espreita.

(*) Amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia – UFAM, Economista, Professor de Pós-Graduação e Consultor de empresas especializado em ZFM.

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