Conhecimento científico se faz com conhecimento científico. O conhecimento funciona como uma espécie de feixe de luz que, direcionado para determinado ponto, permite o delineamento dos contornos daquilo que a gente quer ver, conhecer. Contudo, e é bom que jamais se tire isso da mente, da mesma forma que a luz permite enxergar melhor, também concede a possibilidade de nos conscientizar de que há muita sombra e negrume ao redor daquilo que se vê. O conhecimento científico é um tipo de luz que permite ver com a razão o que o ser humano já sabe (ou imagina saber) acerca de determinado aspecto da realidade, aquele pontinho sob o qual o que a ciência direciona seus feixes de luz. Aquele pontinho, que chamamos simplesmente de fenômeno e que também é dito “assunto” ou conceito, é sempre o centro das atenções dos esforços dos cientistas. O que sabemos foi construído com os tijolinhos chamados dados, que se transformam quando unidos naquilo que chamamos informação, que vai gerar as explicações. Vamos ver, aqui, dois grandes grupos de tipos diferentes desses tijolos.

Os primeiros tipos de dados com os quais o cientista precisa saber lidar com adequação são os bibliográficos. E por uma razão muito simples: ciência se faz com ciência. Newton dizia que só conseguiu explicar o fenômeno da gravidade porque se apoio nos ombros de gigantes. E isso é verdade. Ninguém consegue fazer algo significativo, inovador, importante e revelador se não levar em consideração os conhecimentos que já existem. Não é nem um pouco inteligente, portanto, partir do zero, começar tudo de novo, reiniciar as pesquisas sobre um pontinho do qual já se sabe alguma coisa. É por isso que a própria ciência exige que seja feito um levantamento de tudo o que se sabe sobre o assunto que queremos entender melhor antes de se prosseguir com os estudos empíricos. Não se espante: eu falei tudo, absolutamente tudo o que se sabe sobre o fenômeno que queremos compreender. Vamos entender melhor isso.

A primeira coisa que o cientista precisa aprender para lidar com dados bibliográficos é o que chamamos de escopo conceitual. Um escopo é uma espécie de contorno, delineamento. Conceito é o nome que damos para determinado aspecto da realidade que já tem um certo consenso sobre os seus contornos. Dito de outra forma, um conceito já é uma descrição mais ou menos precisa e aprovada pela comunidade científica sobre determinado fenômeno. O escopo conceitual é formado pelas dimensões e categorias analíticas. Análise é uma palavra que significa parte, elemento componente. Por exemplo, cabeça, tronco e membro são partes do corpo humano; são, portanto, suas dimensões analíticas, suas partes maiores. Ouvidos, nariz, olhos e boca são categorias analíticas, partes menores do fenômeno e subcomponentes das dimensões analíticas.

Pois bem, o primeiro desafio do cientista é fazer um levantamento na literatura para saber quais são as dimensões analíticas do fenômeno ou fenômenos que queremos conhecer e suas respectivas categorias analíticas. É como um esforço para tentar montar o quebra-cabeças com o que a ciência já conhece até aquele ponto, até aquele momento histórico. A razão disso é que a ciência progride a cada dia, a todo momento novos conhecimentos e descobertas são publicadas, aumentando o estoque de conhecimento. O cientista precisa estar em dia com essa progressão. E isso se faz coletando dados bibliográficos, ou seja, de artigos científicos, dissertações e teses. Os livros devem ser evitados, a não ser que sejam coletâneas de estudos científicos ou tratem de aspectos específicos do fenômeno em profundidade.

O segundo grande tipo de dados são os empíricos. Empiria é um nome dado aos fatos e fenômenos do mundo tais como eles acontecem no dia a dia e que podem, de alguma forma, serem apreendidos. Tome o fenômeno da gravidade como exemplo. A gente vê as coisas caírem, da mesma forma que vem que tudo o que é atirado para o alto, depois de um certo tempo, também cai. Essa é uma forma de ver o fenômeno agindo. Mas só isso não basta para a ciência. É preciso encontrar uma forma de registrar a ação da gravidade, seja através de mensuração, medindo-se algumas de suas manifestações, seja através de outros esquemas lógicos, como os impactos que o fenômeno causa em outros fenômenos, como a dificuldade de locomoção das pessoas.

Por incrível que possa parecer, é o estoque de conhecimento científico existente que orienta as possibilidades de coleta dos dados empíricos. Muito do que a gente pretende entender sobre a realidade já pode ter sido descrito pelo menos uma vez, enquanto outros aspectos já têm dezenas e às vezes centenas de explicações. Por esses motivos, o que justifica a realização de estudos empíricos é a descoberta de novas dimensões ou categorias analíticas ou o teste do escopo conceitual existente sob novas circunstâncias. No fundo, do ponto de vista da epistemologia (que é uma área da filosofia que pretende explicar a ciência, por maior que seja a ousadia), isso representa um esforço de falsear um campo teórico (conjunto de teorias) ou uma teoria isolada. Se o estudo fracassa no falseamento, faz progredir a ciência, confirmando a validade do campo teórico ou teoria testada.

Os dados bibliográficos permitem que os cientistas retratem o estado da arte, os limites do conhecimento científico, enquanto os dados empíricos possibilitam tanto a confirmação dos conhecimentos existentes quanto a expansão das fronteiras científicas. Dados empíricos não têm sentido sem uma arquitetura teórica, que é o produto dos dados bibliográficos, como veremos mais tarde, mas dados teóricos podem fazer aparecer novos conhecimentos, uma vez que uma própria arquitetura ou marco teórico já é um produto que sintetiza o que a ciência sabe. De qualquer forma é importante que se saiba que esses dois campos de trabalho são as arenas para as quais os cientistas costumam direcionar seus feixes de luzes para saber o que se sabe, ter uma ideia do que não se sabe e arquitetar cursos de ação para gerar novos conhecimentos (e abandonar os conhecimentos incompletos, que não são poucos).

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