Os cogumelos brilhantes da Amazônia

Em julho passado o Jornal do Commercio publicou uma matéria com a bióloga do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Noemia Kazue Ishikawa, que pesquisa cogumelos e estava lançando o livro ‘Përisi – o fungo que as mulheres yanomami usam na confecção de cestaria’. O fungo em questão pertencia a uma nova espécie, o Marasmius yanomami, cujo nome homenageia as mulheres yanomami, que o utilizam em suas cestarias.

Agora, juntamente com Takehide Ikeda, Aldevan Baniwa e Ana Carla Bruno, Noemia Kazue lançará o livro ‘Brilhos na floresta’, sobre os cogumelos que brilham durante a noite na escuridão da floresta amazônica.

“São os fungos bioluminescentes. Na verdade eles brilham durante o dia todo, mas só são visualizados pelas pessoas à noite quando não temos a presença da claridade. No Brasil atualmente são conhecidas 19 espécies de cogumelos bioluminescentes. A mais antiga foi descoberta em 1916, e a mais recente, no ano passado”, relatou.

Em 2007, a bioluminescência da já conhecida Mycena lacrimans foi relatada na Amazônia. Em 2018, uma segunda espécie, a Mycena sp., foi encontrada na Reserva Florestal Cuieiras – Estação do Museu da Floresta, pelos alunos Julia Cardoso e Fernando Andriolli, dos programas de pós-graduação em Botânica e Ecologia do Inpa. “Atualmente os taxonomistas Jadson Oliveira e Tiara Cabral estão descrevendo a espécie”, acrescentou Noemia.

Micoturismo como alternativa

Os fungos bioluminescentes são encontrados em florestas no mundo todo. A questão irônica é que tanto os cientistas quanto as pessoas que andam pelas matas, procuram iluminar cada vez mais seu espaço e em maior tempo, inclusive à noite. Assim, acabam por apagar a oportunidade de ver fenômenos como fungos, bactérias e insetos bioluminescentes.

“Por outro lado os indígenas que protegem a floresta podem ver isso todas as noites”, disse.

Ao fazer doutorado na Universidade de Hokkaido (Japão), Noemia foi questionada sobre os cogumelos comestíveis do Brasil, “e eu não sabia nada sobre os nossos cogumelos nativos”, contou. Desde então ela passou a pesquisar pelas espécies comestíveis, mas os bioluminescentes não se enquadram aí.

“Não temos conhecimento de cogumelos bioluminescentes comestíveis ainda”, informou.

Sobre o porquê deles possuírem luz própria, a pesquisadora também ainda procura por respostas.

“Os mecanismos químicos estão cada vez mais bem elucidados para cada grupo, entretanto, apesar de especulações sobre os benefícios ecológicos ao organismo como: atração, repulsão, comunicação, camuflagem e iluminação, a ciência ainda desconhece uma explicação conclusiva, porém, se tantos organismos evoluíram até aqui com esta característica, sua importância na natureza é certa. Nós humanos é que não conseguimos entender tal ocorrência”, explicou.

Já para o ecoturismo, os cogumelos bioluminescentes seriam um algo mais para os turistas verem na floresta.

“Acreditamos que visitas noturnas, para ter a experiência de ver as folhas brilhantes, possa ser uma alternativa bem interessante para o turismo, o que chamamos de micoturismo na Amazônia”, informou.

Em quatro idiomas

O livro ‘Brilhos na floresta’ será lançado no dia 7, sábado, às 18h, na Banca do Largo, no Largo de São Sebastião.  Sua edição é uma iniciativa dos grupos de pesquisas ‘Cogumelos da Amazônia’, liderado por Noemia; e o grupo ‘História, Línguas e Cultura Indígena’, liderado pela antropóloga Ana Carla Bruno, cujo foco é a popularização da ciência somada à elaboração de mais livros em línguas indígenas.

O episódio narrado no livro começa com uma simples visita de Noemia e do biólogo Takehide Ikeda, do Centro de Pesquisas de Vidas Selvagens, Universidade de Kyoto (Japão), ao sítio da família de Aldevan Baniwa, em São Gabriel da Cachoeira.

“À noite, Aldevan nos apresentou as folhas bioluminescentes, na escuridão da mata, em noite de lua nova. Na verdade, as folhas estavam colonizadas pelos fungos bioluminescentes, por isso as enxergamos brilhando. Mesmo estudando fungos há 26 anos, e o Ikeda sendo doutor e professor de cores de seres vivos, nunca tínhamos visto o fenômeno e ficamos encantados ao ver o chão forrado de folhas brilhando. Foi realmente incrível”, lembrou.

Com ilustrações de Hadna Abreu, ‘Brilhos na floresta’ foi pensado para atingir um público infanto-juvenil em todo o mundo. Ele é escrito em português, inglês, japonês e nheengatu. Com o apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), foi possível a elaboração e a impressão do livro na língua tukano, traduzida pelo professor Pancrácio Denis de Azevedo e revisado pelo antropólogo Dagoberto Lima de Azevedo, ambos da etnia Tukano da comunidade de Pirarara-Poço na margem direita do Rio Tiquié.

“Este livro é o resultado de diversos saberes científicos, culturais, línguas e histórias unidas pela amizade e harmonia entre os participantes”, concluiu.

 

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