21 de janeiro de 2022

O julgamento do discurso de Bolsonaro na Abertura da Assembleia Geral da ONU já estava sacramentado antes mesmo de o presidente abrir a boca para verbalizá-lo. Para os bolsonaristas, o discurso do presidente foi fantástico, digno de um estadista, pois apresentou ao mundo as suas realizações governamentais. Para os antibolsonaristas, o presidente repetiu os seus impropérios, todo seu negacionismo e rebaixou o Brasil no cenário internacional. O presidente poderia fazer o maior discurso da história ou apenas falar sandices – tanto faz. Independente de tudo, os seus aliados e seus adversários iriam julgá-lo de acordo com as suas conveniências políticas, partidárias ou ideológicas.

É um grave erro pensarmos que os atores políticos, nos mais diferentes níveis, são movidos apenas por critérios de racionalidade. Aí está um engano imperdoável. A política como ela é, é na verdade um grande drama humano, digna de tragédias que atravessam a história e se perdem nas brumas do tempo. As obras literárias – teatros, poesia, romances etc. – registram insistentemente a nossa capacidade de repetir atos heroicos e, muitas vezes, as mais profundas bestialidades. Uma coisa é certa: estadistas, como todos os seres humanos, não são anjos tampouco demônios. São homens e mulheres de carne e osso que são forçados, pela força das circunstâncias, a tomar decisões políticas que vão necessariamente agradar um grupo e desagradar o outro.

Toda meditação antropológica, filosófica e existencial por de trás da análise política nos ensina, contudo, algo imprescindível: as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar. O cientista político Robert Jervis, orientado por estudos psicológicos e cognitivos no campo do realismo, sistematiza em seu livro clássico Perception and Misperception in International Politics [Percepção e Erros de Percepção na Política Internacional], três fatores decisivos que condicionam o comportamento dos tomadores de decisão – presidentes, primeiros-ministros, chanceleres, estadistas em geral – nas relações internacionais: 1) atores veem apenas o que desejam ver acerca do que está acontecendo; 2) atores políticos são orientados por crenças, valores, modos já interiorizados na sua persona; e 3) acreditam nos seus wishful thinking.

Em outras palavras, tal perspectiva observa, no seu conjunto amplo a dinâmica da política externa vis-à-vis os cenários globais, o processo centrado no responsável pelas decisões de Estado, tendo em visto a dinâmica psicológica e cognitiva. É, desse modo, portanto, que erros de percepção e a construção de imagens errôneas são construídos e amplamente explorados pelas análises.

A diplomacia bolsonarista é, desde a sua origem, um elemento de conturbação e fonte de tensões para o país. A política externa brasileira assumiu posturas perigosas que se afastam e muito do espírito do Barão do Rio Branco. Em termos práticos, deixamos de lado a política externa universalista e colocamos no seu lugar uma diplomacia da paróquia, voltada única e exclusivamente para os interesses eleitorais do presidente. Em outros termos, toda fala presidencial, certa ou errada, tem único objetivo: levantar o moral da tropa de eleitores, apoiadores e militantes do presidente. De fato, as condicionantes domésticas transformaram-se num imperativo categórico inegociável da política exterior de Bolsonaro.

O que mais me preocupa nos discursos presidenciais é o descaso com a agenda internacional. É um falso dilema pensarmos, por exemplo, que a agenda multilateral não pode ser colocada em pé de igualdade com os interesses nacionais. Pelo contrário. Hoje, os interesses nacionais precisam estar em sintonia com os projetos globais sob pena de sermos excluídos das principais arenas de negociação – definição das agendas dos regimes internacionais – e das cadeias globais de valor do comércio internacional. Não adianta muita coisa defender de modo intransigente o agronegócio e se esquecer de firmar acordos diplomáticos com os principais países do mundo. Afinal, interesses políticos e econômicos são interdependentes. A desconfiança atávica dos regimes internacionais e das organizações multilaterais jamais pode ser um problema para um país das dimensões do Brasil.

Radicalização da estratégia de autonomia pela distância, na feliz definição cunhada pelo diplomata Gelson Fonseca, pode ter um custo diplomático muito elevado para a posição do Brasil no mundo de hoje. A consequência concreta do aumento de qualquer tensão retórica do Brasil é o isolamento das grandes potências com múltiplas rodadas de retaliação dos mais diferentes países, interesses e ideologias. Política de boa vizinhança cultivada pela tradição diplomática brasileira é um recurso de poder valioso que não pode ser abandonado da noite para o dia.

Se todo ano, na liturgia da Igreja, o Santo Padre anuncia urbi et orbi – à cidade de Roma e ao mundo – as festividades da Páscoa e do Natal – respectivamente, a ressurreição e nascimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo – a mensagem da salvação, o presidente do Brasil, em sentido inverso, fala do mundo para a cidade – orbi et urbi. É do púlpito da Assembleia Geral da ONU que ele fala para os seus apoiadores e não para os atores internacionais mais relevantes. Perde a oportunidade de defender e universalizar os nossos interesses estratégicos.

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