Oportunidades na nova terra

Oficialmente, há 108 anos, no dia 18 de junho de 1908, chegaram os primeiros japoneses ao Brasil. Eram 165 famílias que, a bordo do Kasato Maru, desembarcaram no porto de Santos. A grande parte destes imigrantes era formada por camponeses de regiões pobres do norte e sul do Japão, que vieram trabalhar nas prósperas fazendas de café do oeste do Estado de São Paulo.
Também oficialmente, 22 anos depois, em 2 de janeiro de 1930, chegaram os primeiros japoneses ao Amazonas, mais especificamente a Maués, onde se dedicaram ao cultivo do guaraná.
Mais 30 anos se passaram e eis que uma nova leva de japoneses, também agricultores, chegou a Manaus e é um deles, Hiroya Takano, proprietário do Suzuran, o mais antigo restaurante japonês de Manaus, que conta como foi essa saga mais recente desse povo incansável no trabalho cuja busca pela prosperidade supera as piores adversidades.
“Meu pai, Tatsuya Takano, plantava batatas em nosso terreno na cidade de Wakkanai, no norte do Japão. Dessas batatas ele tirava goma para vender. No final da década de 1950, duas geadas seguidas acabaram com as plantações de batata e meu pai teve um grande prejuízo. Em 1959, cinco irmãos dele haviam vindo para Manaus e mandaram um telegrama dizendo que aqui se plantava três vezes e se colhia três vezes no ano. Meu pai não pensou duas vezes para vender tudo e vir para Manaus com minha mãe, eu e meus cinco irmãos”, contou.
Hiroya era o caçula, com apenas oito anos de idade, mas lembra que o navio onde veio com a família demorou mais ou menos um mês para chegar a Manaus, atravessando o Pacifico, passando pelo Canal do Panamá até aportar na capital amazonense, em 1960.

Suzuran, o mais antigo de Manaus

Em Manaus a família Takano foi alojada numa fazenda no km 42 da estrada Manaus/Itacoatiara, então em construção. “E várias outras famílias japonesas já estavam na região, inclusive meus cinco tios”, falou.
Com a habilidade nata dos japoneses para a agricultura, logo a família Takano já colhia jerimum, arroz e batata doce. “Pra adubar a terra fraca da Amazônia meu pai começou a criar porcos, para produzir adubos. Uma época todo mundo começou a plantar pimenta do reino, mas aí a produção deu pra trás e logo todos voltaram a plantar verduras e frutas”, riu. Hábil nos negócios, Tatsuya iniciou a criação de galinhas e por mais de dez anos foi o maior criador de frangos de corte do Amazonas. Só perdeu esse título quando os supermercados surgiram em Manaus, na década de 1970, e começaram a vender frangos congelados.
Em 1978, novo tino comercial de Tatsuya. “Verificando que os japoneses do Distrito Industrial não tinham onde comer a gastronomia oriental, ele resolveu abrir o Suzuran, primeiro porque queria se aposentar da labuta da agricultura e depois porque apostou na saudade de seus compatriotas das comidas japonesas. Acertou. O Suzuran fez muito sucesso, mas meu pai errou num detalhe. Ele e minha mãe acharam que seria moleza tocar o restaurante, mas não foi. Em 1980 assumi a direção e estou à frente até hoje”, disse.
Apesar de já estar há 56 anos longe do Japão (ele só esteve lá em 1978 e 79 estudando mecânica), Hiroya não esquece a terra onde nasceu.

Manaus, a segunda terra

Junto com outros compatriotas, o ponto de encontro de toda a comunidade japonesa em Manaus é o Country Club, no Novo Aleixo, fundado por jovens nisseis com o apoio da Colônia Japonesa e de industriais e comerciantes orientais. Lá eles comemoram suas festas e praticam o golfe, um dos esportes mais populares do Japão.
Na Associação Nipo-Brasileira, em Adrianópolis, funciona uma escola de japonês, além de se praticar atividades como o judô, o taikô e o kenjutsu. “Minha neta está aprendendo japonês na Associação, pois ela quer ir para o Japão, estudar. Nós viemos pra cá em busca de dias melhores e ela quer fazer o mesmo, indo pra lá”, falou Hiroya.
Quanto às festas anuais, destacam-se a do Dia da Imigração para o país, em 18 de junho; o Bom Odori, em 20 de agosto, com tradição budista, onde se celebram as almas dos antepassados com danças em grupo e Taiko, e lanternas são acesas para lembrar a sabedoria dos antepassados; e as boas-vindas ao ano novo, quando se consome o Moti, o famoso bolinho de arroz.
Em se tratando de manter o hábito de comer verduras, frutas e hortaliças típicas de seu país, Hiroya aponta três locais: o Mercadinho do Japonês, no Vieiralves, onde todas as terças e sextas são vendidas verduras cruas; o supermercado Fuji, na rua Joaquim Nabuco, e o Emporium Roma, em Adrianópolis, nos quais são encontrados arroz japonês, tofu, kamaboco (massa de peixe) e saquê, entre vários outros produtos da terra do sol nascente.
Hiroya se orgulha de ser o proprietário do mais antigo restaurante japonês de Manaus, o Suzuran, há algum tempo Shin Suzuran, no N. Sra. das Graças, com 38 anos de existência, e indica outros verdadeiramente típicos.
“Existem muitas casas vendendo temakis, mas as que eu vou indicar os proprietários são japoneses mesmo e são restaurantes. Tem o Miako, em Adrianópolis; o Suysei, na Cachoeirinha; e o Himawari, no Largo de São Sebastião”.
“Em nossos encontros, no Country Club, reunimos entre 150 e 200 pessoas, nos finais de semana. Alguns são executivos do Polo Industrial de Manaus, que estão aqui de passagem, mas a maioria são pessoas que, como eu e minha família, deixaram o Japão para fazer de Manaus a sua segunda terra”.

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