3 de dezembro de 2021

Ópera ‘moto-contínuo’ usa ficção científica para tratar da busca por sentido

Uma inventora recebe a visita de um homem, no Centro da Terra, que pede a construção de uma máquina que pode se mover eternamente. Mais do que ficção científica, a ópera “moto-contínuo”, do compositor Piero Schlochauer, que encerrará o Festival Amazonas de Ópera (FAO), no dia 20 de junho, trata de algo mais profundo. Neste ano, o FAO será realizado em formato on-line, entre os dias 6 e 20 de junho, pelo canal do Youtube do FAO (festivalamazonasdeoperafao) e redes sociais da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (@culturadoam).

Realizado pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural, o festival está sendo produzido inteiramente com verba da iniciativa privada, por meio do Bradesco e da Motorola, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, Ministério do Turismo e Secretaria Especial de Cultura. Conta ainda com parceria do canal Allegro HD e TV Encontro das Águas, e com o apoio do Catavento Museu de Ciências e da Importadora Carioca.

Com libreto de Beatriz Porto, Isabela Pretti e do próprio Piero, “moto-contínuo” é uma ópera de ato único, com cerca de 30 minutos de duração, escrita para um quinteto de sopros (flauta, oboé, clarinete, trompa e fagote), tímpano e dois percussionistas, e terá a participação da Amazonas Filarmônica, com os solistas Juliana Taino (mezzo-soprano) e Erick Souza (barítono).

Segundo o orquestrador, arranjador, pianista e compositor Piero Schlochauer, o argumento para a história surgiu em um processo conjunto do trio. 

“Quando recebi o convite do maestro Malheiro soube imediatamente que queria trabalhar com elas, são amigas que eu conheço há anos e tenho muito carinho e confiança nas suas sensibilidades dramáticas e artísticas. Nas nossas conversas – todas à distância por sinal – fomos trocando inspirações, lendo textos e discutindo ideias. A ideia inicial era adaptar algum conto brasileiro, mas aos poucos foi amadurecendo um texto original, criado a partir das nossas impressões e inspirações, em particular sobre os textos de José Saramago e Clarice Lispector”, explica Piero. 

Piero Schlochauer – Foto: Divulgação

Um moto-contínuo, que dá nome a obra, é uma máquina hipotética que utilizaria a energia de seu próprio movimento indefinidamente. Uma máquina impossível, uma vez que sua ideia viola leis da termodinâmica.  “A invenção em si, o moto-contínuo, foi uma das últimas ideias a serem discutidas. Os impulsos e as ânsias das personagens em cena vieram primeiro e foram os elementos norteadores da construção da narrativa”, pontua o compositor.

Piero ressalta que a ópera inteira se estrutura num diálogo ininterrupto entre a inventora e o homem que a visita. Apesar de passar a impressão de ficção científica que poderia ter saído de um dos livros do escritor francês Júlio Verne, Piero garante que o ponto central da obra é outro.

“O verdadeiro cerne da questão é a dinâmica entre os dois nessa eterna busca por sentido, que não se sabe qual é. O texto em si, nas palavras ditas e cantadas, nem é tão metafórico: os diálogos poderiam ser ditos por qualquer um. Mas a concepção do todo dá espaço para muitas leituras e interpretações diferentes, o que sempre traz uma experiência rica para o público”, ressalta.

Sobre a produção e os solistas escolhidos, o compositor revela que o público pode esperar um evento “impecável”. “Juliana Taino e Erick Souza fizeram uma leitura belíssima do material, percebendo e dando uma dimensão para as personagens muito além da superfície, e com vozes lindíssimas. A equipe toda escalada pelo FAO foi impecável, a direção de William Pereira, a execução da Amazonas Filarmônica, a cenografia de Giorgia Massetani, construída a partir da estrutura existente do Museu Catavento. Tudo! Tenho só a ser grato e honrado”. 

Primeira ópera no FAO 

Foto: William Pereira

Assim como os compositores Leonardo Martinelli e Eduardo Frigatti, das óperas “Três Minutos de Sol” e “O Corvo”, Piero Schlochauer também estreia a sua primeira ópera no FAO. “Foi uma experiência bem desafiadora, mas também um aprendizado enorme. Foi tudo escrito e composto em cinco semanas insanas, e houve momentos em que honestamente não achei que eu fosse conseguir entregar a partitura e as partes a tempo. Mas o bom de ter um prazo super estabelecido e com cobrança externa é que, independentemente das inseguranças e bloqueios criativos, eu sentava todo dia pra escrever de manhã até tarde da noite, até que, para minha surpresa, eu não tinha mais nada pra escrever”, comenta Piero.

A ópera foi encomendada especialmente para o FAO, experiência que o compositor classifica como “surreal”. Ele conta que conhece o festival há muitos anos, mas nunca imaginou ser convidado para participar. 

“É uma honra tremenda participar desse evento, que é um dos mais importantes para ópera no Brasil. Admiro muito a iniciativa de montar um evento completamente on-line, de composições de brasileiros para brasileiros. Acho essencial para a sobrevivência da ópera como arte esse tipo de festival, que traz produções novas, sobre temas atuais e com a democratização e acesso do público. Isso traz um aspecto muito importante a ser levado em consideração no momento de compor, como pensar o tipo de linguagem que vá se traduzir para quem está assistindo e ouvindo pelos alto falantes de um celular, por exemplo”, declara.

FAO 2021 

A 23ª edição do FAO será realizada de 6 a 20 de junho, com óperas e concertos gravados, recitais transmitidos ao vivo, webinars e masterclasses on-line. Adiado por conta da pandemia de Covid-19 em 2020, o FAO será totalmente dedicado a compositores e intérpretes brasileiros.

Seguindo os protocolos de segurança e prevenção contra o novo coronavírus, o FAO tem uma produção inovadora este ano. As orquestras dos Corpos Artísticos gravam, em dias alternados, áudio e vídeo das obras em Manaus, no Teatro Amazonas, e os solistas gravam as vozes em São Paulo, onde também é trabalhada a parte cênica. O material é, então, reunido e editado para dar vida às óperas e aos concertos. Os grupos de músicos também são reduzidos, em formato de câmara, para evitar aglomerações e facilitar o distanciamento social.

De acordo com Luiz Fernando Malheiro, o FAO não exaltará apenas os compositores contemporâneos, mas realizará um panorama de 165 anos de repertório brasileiro.

“É importante salientar a filosofia desta edição do festival de priorizar nossos artistas. Muitos sofreram e foram prejudicados por conta da pandemia, e por isso decidimos trabalhar apenas com profissionais brasileiros e também com repertório brasileiro. Teremos obras desde o século 19 até os dias atuais”, assinala o diretor artístico.

Óperas 

O FAO 2021 terá três estreias: “Três Minutos de Sol”, de Leonardo Martinelli; “O Corvo”, de Eduardo Frigatti; e “moto-contínuo”, de Piero Schlochauer. Todas foram encomendadas especialmente para o Festival.

”Três Minutos de Sol”, de Leonardo Martinelli, abrirá a programação no dia 6 de junho, às 19h (20h – Brasília). Ópera de câmara, com libreto de João Luiz Sampaio, aborda os relacionamentos em tempo de pandemia. Narra a história de três pessoas que estão em lugares diferentes, cada uma em sua casa, que convivem e se relacionam por meio das mídias sociais. O nome da ópera faz referência ao tempo que uma das personagens fica perto da janela esperando o sol bater diariamente, por apenas três minutos.

Obra de Eduardo Frigatti, “O Corvo” será apresentada no dia 13 de junho, às 19h (20h – Brasília). Baseada no poema de Edgar Allan Poe, traduzido por Machado de Assis, a ópera será uma ilustração de 20 minutos que narra a visita perturbante de um corvo a um homem que acaba de perder sua amada, e que vê a ave como uma mensageira sobrenatural. Já “moto-contínuo”, de Piero Schlochauer, encerrará o festival no dia 20 de junho, também às 19h (20h – Brasília).

Recitais e concertos 

Os recitais serão apresentados em transmissões ao vivo do Teatro Amazonas, nos dias 7, 9, 10, 16 e 17 de junho, às 20h (21h – Brasília). No repertório estarão canções de Carlos Gomes, Ronaldo Miranda, João Guilherme Ripper, Chiquinha Gonzaga, Almeida Prado, Ernani Aguiar, Osvaldo Lacerda e Francisco Mignone.

O programa também terá canções amazonenses, com temáticas ou compositores regionais como Waldemar Henrique, Lindalva Cruz, Adroaldo Cauduro, Ronaldo Barbosa, Ketlen Nascimento, Celdo Braga, Osmar Oliveira, Candinho, Altino Pimenta, Claudio Santoro, Pedro Amorim e Arnaldo Rebelo.

Os concertos, que são gravados com produções em Manaus e São Paulo, serão exibidos nos dias 11, 12, 14, 15, 18 e 19 de junho, também às 20h (21h – Brasília), com obras de Fernando Riederer, Laiana Oliveira, Tatiana Catanzaro, Vinicius Giusti, Paulina Luciuk e Willian Lentz.

Webinars e masterclasses 

O FAO também terá ações educativas e formativas com a realização de webinars e masterclasses on-line, com transmissão pelo canal do YouTube do FAO. As webinars acontecerão nos dias 6, 8 e 12 junho, às 16h (17h – Brasília), com os temas “A ópera hoje, no Brasil e no Mundo”, “Teatros de Ópera e a Economia Criativa no Brasil e na América Latina” e “A profissão do compositor erudito no Brasil: formação, divulgação, interesse, futuro”.

Também serão realizadas as masterclasses “A Arte do Canto na Ópera Contemporânea”, com soprano e atriz Gabriela Geluda, no dia 16 de junho, e “Composição de Ópera Hoje”, com o compositor e regente de orquestra João Guilherme Ripper, no dia 18 de junho. As masterclasses também serão realizadas às 16h (17h – Brasília).

Raio-X da ópera 

A programação contará ainda com uma série de vídeos dedicada a explicar as profissões artísticas e técnicas da ópera para crianças e adolescentes.

Bradesco e a cultura 

Com centenas de projetos patrocinados anualmente, o Bradesco acredita que a cultura é um agente transformador da sociedade. Além do Teatro Bradesco, o banco apoia iniciativas que contribuem para a sustentabilidade de manifestações culturais que acontecem de norte a sul do País, reforçando o seu compromisso com a democratização da arte. São eventos regionais, feiras, exposições, centros culturais, orquestras, musicais e muitos outros.

Assim como o Teatro Bradesco, muitas instituições e espaços culturais apoiados pelo banco promoveram ações para que o público possa continuar se entretendo – ainda que virtualmente – durante a pandemia da Covid-19. O banco também lançou o Bradesco Cultura, plataforma digital que reúne conteúdo relacionado às iniciativas culturais que contam com o patrocínio da instituição. Acesse em cultura.bradesco.

Óperas (19h Manaus / 20h Brasília)

6 de junho

“Três Minutos de Sol”

Ópera de Leonardo Martinelli / libreto de João Luiz Sampaio

Amazonas Filarmônica

13 de junho

“O Corvo”

Ópera e libreto de Eduardo Frigatti

Coral Do Amazonas e Amazonas Filarmônica

20 de junho

“moto-contínuo”

Ópera de Piero Schlochauer / libretto de Beatriz Porto, Isabela Pretti e Piero Schlochauer

Amazonas Filarmônica

Concertos (20h Manaus/ 21h Brasília)

11 de junho

“Duas Flores”

de Fernando Riederer

12 de junho

“Vox Populi e Vírus Verbal em Quatro Miniaturas”

de Laiana Oliveira

14 de junho

“Sans Rien Dire e Spaziergang”

de Tatiana Catanzaro

15 de junho

“Dire è Fare”

de Vinicius Giust

18 de junho

“Ária dos olhos”

de Paulina Łuciuk, poema de Alphonsus de Guimarães

19 de junho

“A Máquina Entreaberta”

de Willian Lentz

Recitais de canto e piano (20h Manaus / 21h Brasília)

7 de junho

Canções de Almeida Prado – Francisco Mignone – Ronaldo Miranda

Dhijana Nobre, soprano

Joubert Júnior, barítono

9 de junho

Canções de Almeida Prado – Ernani Aguiar – João Guilherme Ripper – Osvaldo Lacerda – Ronaldo Miranda

Carol Martins, soprano

Thalita Azevedo, mezzo-soprano

Enrique Bravo, tenor

10 de junho

Canções de Chiquinha Gonzaga

Mirian Abad, soprano

Marinete Negrão, mezzo-soprano

Jefferson Nogueira, tenor

Joubert Júnior, barítono

Roberto Paulo, baixo

16 de junho

Canções de Carlos Gomes

Raquel de Queiroz, soprano

Aurean Elessondres, mezzo-soprano

Juremir Vieira, tenor

Luiz Carlos Lopes, baixo-barítono

Emanuel Conde, baixo

17 de junho

Canções Amazonenses

Carol Martins, soprano

Samanta Costa, mezzo-soprano

Wilken Silveira, tenor

Miquéias William, tenor

Josenor Rocha, barítono

Roberto Paulo, baixo

Webinars

6 de junho (20h Manaus / 21h Brasília)

“A ópera hoje, no Brasil e no Mundo”

8 de junho, (16h Manaus / 17h Brasília)

“Teatros de Ópera e a Economia Criativa no Brasil e na América Latina”

12 de junho, (16h Manaus / 17h Brasília)

“A Profissão do compositor erudito no Brasil: formação, divulgação, interesse, futuro”

Masterclasses (16h Manaus / 17h Brasília)

16 de junho

“A Arte do Canto na Ópera Contemporânea”

18 de junho

“Composição de Ópera Hoje”

FOTO/DESTAQUE: William Pereira 

          

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