19 de abril de 2021

Obras de Moacir Andrade são expostas no Espaço Cultural Millenium

Uma singela homenagem a um dos maiores nomes das artes plásticas da Amazônia. Foi montando algumas peças de arte de Moacir Andrade, numa das paredes da galeria Espaço Cultural Millennium, no Millennium Shopping, que o marchand José Carlos Pinheiro de Lima lembrou dos quatro anos da morte do artista no dia 27 passado.

José Carlos começou sua amizade com Moacir Andrade no início da década de 1980 quando era proprietário de uma loja de molduras, no Centro de Manaus.

“Nessa loja, na rua 24 de Maio, eu recebia vários artistas que iam comprar molduras. Um dia o Moacir apareceu lá. Ele já era um nome consagrado e foi uma grande oportunidade recebê-lo. Lógico, ele mandava fazer suas molduras em outro local, mas gostou do nosso trabalho e passou a fazer suas molduras comigo. Foi daí que começou nossa amizade”, lembrou.

“Isso foi em 1984/85, e a amizade mútua só cresceu até que ele me perguntou se eu queria ser seu marchand. Aceitei na hora e desde então passei a fazer grandes negócios com suas obras. Assim nasceu o José Carlos marchand, que também começou a negociar os quadros de outros artistas de peso, do Amazonas, mas Moacir sempre foi o campeão de vendas”, destacou.

Moacir Andrade tinha várias habilidades nas artes. Desenhava, pintava, entalhava, escrevia livros. Gostava de distribuir os desenhos rabiscados rapidamente e os livros de sua autoria, menos os quadros e as talhas.

“Uma vez, sem que eu esperasse, ele me deu duas obras de arte que surgiram ao acaso, sem serem pensadas: um jaleco e as sapatilhas, usadas por ele enquanto pintava, ambos marcados por borrifos de tinta. A partir destas duas peças, resolvi montar a parede”, contou.

Talhas raríssimas

O Espaço Cultural Millennium foi inaugurado no mesmo ano em que Moacir faleceu, 2016. José Carlos, que é proprietário da Galeria Palácio das Artes, na rua Luiz Antony, foi convidado para administrá-la junto com o artista plástico Santo Mário.

“Depois Santo Mário precisou ir embora de Manaus e eu fiquei tomando conta da galeria. A direção do Millennium tem gostado da idéia, pois agrega valores para o empreendimento. A arte é uma ferramenta maravilhosa de marketing”, disse.

E o espaço está aberto aos novos artistas que desejam mostrar seu trabalho.

“Temos quadros de artistas consagrados, mas queremos receber os emergentes. Sempre estou de olho nos novos talentos, que muitas vezes não têm espaço para expor. Os emergentes podem nos procurar, mas seu trabalho irá passar por uma curadoria, uma triagem, pois há critérios para ser considerado uma obra de arte”, adiantou.

Na parede/homenagem a Moacir, montada por José Carlos na galeria, há objetos curiosos e raros, como um desenho original de 1935, rabiscado por Moacir quando tinha apenas oito anos de idade; outro desenho tem uma dedicatória a José Carlos; duas talhas, em baixo relevo, de 1975, são raríssimas, porque Moacir produziu poucas talhas. Elas pertencem à fase das margaridas, que durou de 1970 a 85, quando ele usou essas flores em quase todas as suas obras. Livros do, e sobre o artista, completam o espaço.

Noutro espaço, separado, um único quadro de Moacir Andrade está à venda.

“Quando ele morreu, eu tinha 21 quadros dele para serem vendidos. A família os pediu de volta e ficou apenas este, que estava emoldurado. Tão logo este venda, os demais também serão disponibilizados para os compradores”, adiantou.

Descaso e desprestígio

Em janeiro de 2016, o Jornal do Commercio fez a última reportagem de Moacir Andrade, quando ele revelou.

“Não tínhamos dinheiro para comprar cadernos onde eu pudesse escrever minhas aulas, então meu pai ia até o Jornal do Commercio, o mais importante jornal da época (1936), e pedia aos amigos que tinha lá, pedaços de papel, as sobras que não serviam mais para nada. Essas sobras minha mãe transformava em cadernos que eu utilizava para escrever e desenhar. Meus primeiros desenhos foram feitos nesses papéis do jornal”, recordou.

“Moacir Andrade, além de artista, foi professor de artes durante décadas. Um nome sem igual para a cultura do Amazonas e do Brasil. Visitou muitos países elevando o nome de nosso estado e país com sua arte. Deve figurar na galeria dos grandes nomes da cultura brasileira, ele que começou assinando Moacyr, com ‘y’, nos quadros, porque queria ser diferente e ficar famoso”, contou José Carlos.

Por 74 anos, literalmente, Moacir Andrade fez a mais autêntica arte amazônica mas, como vários outros artistas da terra que elevam o nome do Amazonas, sentiu na pele o desrespeito pelo seu trabalho.

“Mesmo tendo acumulado homenagens no exterior, pouco antes de morrer Moacir quis vender um quadro para um órgão público do estado, que encomendara o trabalho, um painel. Concluída a obra ele pediu R$ 50 mil. Depois de meses de postergação, a direção do órgão disse que só poderia pagar R$ 15 mil. Como Moacir já havia entregue o painel, consternado e se sentindo humilhado e desprestigiado, aceitou o pagamento. Isso demonstra o descaso com que algumas ‘autoridades’ nossas tratam os artistas, por isso faço essa homenagem a ele, aqui na galeria, e que pode ser visitada por qualquer pessoa que goste e, acima de tudo, respeite a arte de Moacir”, concluiu.

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