Em 2014, depois de dois anos e sete meses de trabalho, a CNV (Comissão Nacional da Verdade) confirmou, em seu relatório final, 434 mortes e desaparecimentos de pessoas que agiram contra o regime militar que esteve no poder entre 1964 e 1985. 210 continuam desaparecidas. Um desses mortos era o parintinense Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto, o Thomazinho, como era chamado pelos familiares. Thomaz também é um dos 210 desaparecidos, já há 46 anos.

“Para mim ele não morreu, pois não há nada que comprove isso”, falou Ubaldino Meirelles, primo de Thomaz, e que conviveu com ele na ilha Tupinambarana, onde se criaram.

Se vivo estivesse, Thomaz Meirelles seria um senhor de 83 anos, completados no dia 1º de julho passado. Ubaldino é quatro anos mais velho e lembra bem do primo muito estudioso, que se ‘enfiava’ no porão da casa do avô, em Manaus, e punha-se a ler jornais e livros.

Em Parintins, o menino estudou o primário no tradicional Grupo Escolar Araújo Filho. Adolescente, foi enviado pelos pais Togo e Maria, para fazer o ginasial na capital, Manaus, onde estudou no Colégio Estadual do Amazonas. Era o início da década de 1950.

“Quando ele foi estudar no Estadual, eu já estava estudando lá. Sempre que era possível, viajávamos juntos para Parintins. Ele adorava comer o pão servido nas embarcações. Uma vez um padeiro perguntou o que ele queria ser quando crescesse, e Thomazinho respondeu que queria ser padeiro de bordo”, riu Ubaldino.

Mas o destino não quis assim. Thomaz chegou a trabalhar como redator no jornal A Crítica. Em 1958, já politizado, e com 21 anos, o rapaz resolveu viajar para o Rio de Janeiro.

“Ainda lembro de sua tia Belmira dizendo: ‘meu filho, não vá para tão longe, sua mãe precisa de você’, ao que ele respondeu: ‘Tia, vou trabalhar em prol de todas as mães do Brasil’, recordou Ubaldino.

Primeira prisão

No Rio, Thomaz integrou a Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas) e Une (União Nacional dos Estudantes) participando de manifestações culturais e políticas, inclusive apoiando a posse de João Goulart, em 1961. Viajou a Cuba e, em 1962, representando a Une, esteve no Chile em congressos e encontros. Nesse mesmo ano pediu ao governo soviético, e ganhou, uma bolsa de estudos para a Universidade Internacional de Amizade dos Povos ‘Patrice Lumumba’, onde cursou, por cinco anos, economia política, planificação econômica, direito internacional, filosofia e sociologia. Ao defender com brilhantismo uma tese, foi transferido para a Faculdade de Filosofia da Universidade Central de Moscou, onde casou com a também jornalista parintinense Miriam Marreiros. O casal teve a filha Larissa em Moscou.

Quando Thomaz voltou ao país, em 1967, já estava visado pelos órgãos de repressão do governo militar e passou a viver na clandestinidade. Desconhecem-se ações praticadas pelo rapaz, mas ele integrou a ALN (Ação Libertadora Nacional), grupo armado comandado por Carlos Marighella, cujo programa dizia que seus integrantes eram ‘guerrilheiros, terroristas e assaltantes’.

Em dezembro de 1972 ele foi preso pelos órgãos de repressão e sua família só soube da prisão porque um militar, o sargento Murilo, cunhado de um tio de Thomaz, descobriu seu nome na lista de presos levado para a base naval da ‘Ilha das Flores’ e conseguiu falar com ele uma única vez durante o rápido banho de sol. Thomaz ficou preso por uma semana.

Desaparecido 46 anos depois

Assim que souberam de sua soltura, Ubaldino, a irmã Edda, a mãe de Thomaz e outros familiares foram ao Rio visitá-lo.

“Ele contou que havia sido torturado na prisão. Certa vez estávamos na praia de Copacabana quando reconheceu um de seus torturadores. Também me disse para eu evitar andar com ele, pois estava sendo monitorado pelos órgãos de repressão, que queriam matá-lo, como já haviam feito com vários outros integrantes da ALN”, lembrou Ubaldino.

“Thomaz pressentia a redução de sua pena como uma armadilha. Como consequência, eu e seus amigos fomos sequestrados e torturados: queriam-no outra vez, mas as investigações policiais foram infrutíferas quanto a qualquer outra incriminação política, apesar de o chamarem de guerrilheiro”, contou, certa vez, sua esposa Miriam.

Em agosto de 1973, o ator Carlos Vereza, amigo de Thomaz, foi detido pelo Doi/Codi (Destacamento de Operações de Informação/Centro de Operações de Defesa Interna) do I Exército, juntamente com Lúcio da Silva Marreiros, irmão de Miriam.

Documento confidencial do Cisa (Centro de Informações da Aeronáutica), de julho daquele ano, registra uma série de diligências empreendidas pelo Doi/Codi, para localizá-lo.

No dia 7 de maio de 1974, Thomaz desapareceu no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, entre 10h45 e 11h15, segundo consta em documentos da CNV. Na ocasião, ele ia encontrar-se com Beth e Flávio Leão Sales, militantes da ALN que tentavam sair do país. O filho Togo, de Thomaz e Miriam, nasceu em Manaus e ele nem o conheceu.

Da esquerda para a direita: Amazonino Mendes, Nobre Leão, Walmir Lindoso, Tino, Thomaz Meirelles, e o então deputado federal Francisco Pereira da Silva, autor do projeto de criação da Zona Franca de Manaus

“Para nós ficou a lembrança de alguém muito inteligente, um bom menino, que conviveu comigo na infância, em Parintins, e na adolescência, em Manaus, e que continua vivo na minha memória”, finalizou Ubaldino.

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