A tecnologia é uma daquelas palavras que todo mundo fala e quase ninguém sabe efetivamente o que ela é ou significa. E esse quase ninguém engloba quase todas as pessoas viventes no planeta, incluindo uma grande parte de cientistas e pesquisadores. Essa dificuldade tem sua origem tanto na etimologia da palavra quanto na impossibilidade prática de diferenciação do processo de produção e do produto resultante. Para os cientistas que lidam diretamente com a produção de tecnologia, é difícil marcar quando terminam as etapas que levam à geração da tecnologia enquanto produto e começa a tecnologia propriamente dita. Quando se trata de um produto físico, como veremos, a distinção pode parecer óbvia: isso é um produto e aquelas foram as etapas de sua produção. Mas quando as tecnologias são mais, digamos, intangíveis, as coisas mudam de figura. Mas um caminho seguro, pelo menos relativamente seguro, para saber o que é tecnologia é começar dizendo que é uma forma de encapsulamento de conhecimento com alguma finalidade.

A palavra tecnologia vem da junção das palavras gregas téchnē e logos. A primeira delas designa as coisas feitas com as mãos, o manuseio de algo e sua transformação. É daí, por exemplo, que vem a palavra técnica enquanto forma de fazer alguma coisa. Quando alguém diz que tem uma técnica para assar um tambaqui que não o deixa oleoso, na verdade está se referindo a uma técnica ou maneira específica de manusear algo. As técnicas podem ser mais ou menos refinadas, mais ou menos especializadas, dependendo da complexidade das coisas que manuseiam. Em síntese, pode-se dizer que uma técnica é uma série de etapas que levam à realização de alguma coisa.

A palavra logos já é um pouco mais complicada de ser entendida. A razão disso é que o verbo grego designa um monte de coisas diferentes, tais como dizer alguma coisa, pensar algo, descrever ou narrar algum acontecido, discutir para apontar a causa de algum efeito e saber, conhecer. Para sintetizar o significado pleno do termo com o menor risco de erro, costumamos dizer que logos é sinônimo de lógica de alguma coisa. Realmente, quando dizemos alguma coisa estamos apontando sua lógica; se pensamos algo, para que possa ser entendido o pensamento precisa ter lógica; se algo é descrito ou narrado, é preciso alguma lógica para que se possa compreendê-lo; as causas de todo efeito são podem ser debatidas se as pessoas que debatem apresentarem alguma lógica para tal; e, finalmente, só dizemos que alguém tem sabedoria ou que sabe alguma coisa se é capaz de apresentar esquemas lógicos passíveis de tornar sua sabedoria e saber compreensíveis.

Juntando as duas palavras chegamos à compreensão de que tecnologia é a lógica através da qual fazemos alguma coisa. Essa lógica é uma espécie de fundamento, bases sobre as quais o edifício da técnica é construído. A tecnologia não é propriamente a coisa que é feita, o produto e nem as etapas que levam à geração do produto. É o seu fundamento, aquilo que torna compreensível tanto o produto, quanto o processo, quanto a vinculação com a necessidade que levou à criação do produto e o relacionamento entre essas três coisas. Vamos tentar esclarecer essa complicação toda.

Um dos grandes problemas amazônicos é a queimada da capoeira como etapa de preparação da terra para plantio. A tecnologia empregada é a derrubada e queima da mata. O problema é que essa solução gera uma série de outros problemas, como a redução da fertilidade da terra. Criou-se, então, uma mata capaz de cortar as árvores, triturá-las em minúsculos pedaços, remover a terra, colocar os minúsculos pedaços para baixo da terra e cobrir a terra com a folhagem das árvores derrubadas. Esse equipamento recebeu o nome de Tritucap, resultado do projeto Tipitamba. Tanto a máquina quanto todo esse processo passaram a ser chamados de tecnologia.

De fato, a máquina é uma máquina. Mas, para que toda máquina seja inventada, precisa de tecnologia. Isso quer dizer que uma máquina não é uma tecnologia, mas tem tecnologia. Um computador e um celular não são tecnologias. São artefatos produzidos a partir de tecnologias. A tecnologia é aquele conjunto de coisas (detectação da necessidade, invenção de uma solução, teste da solução, ajustes nas soluções para que elas funcionem bem e assim por diante, até que a solução esteja funcionando) que levam à aplicação prática de algum esquema lógico. Esse esquema lógico é a compreensão de como um problema é solucionado ou superado. Em última análise, portanto, uma tecnologia é uma forma específica de se utilizar uma série de conhecimentos.

Realmente, uma tecnologia envolve o emprego de muitos saberes. Para inventar uma máquina para fazer suco de limão, por exemplo, é preciso saber que produtos podem lavar o limão sem destruí-lo ou torná-lo nocivo, de que maneira pode ser cortado e espremido, como o sumo pode ser separado das sementes e assim por diante. E não apenas o saber, a explicação, mas o fazer, a fabricação das peças e componentes da máquina. E essas coisas todas precisam estar encadeadas, harmonizadas, logicamente ordenadas para que aquela finalidade. Assim, um controle remoto como parte de um equipamento chamado aparelho de televisão é, na verdade, a materialização de uma série de conhecimentos. Esses conhecimentos foram organizados e permitiram a invenção daquele aparelhinho que utilizamos para ligar a TV.

É por essa razão que dizemos que tecnologia é um encapsulamento de conhecimentos. Os conhecimentos são recursos extrafísicos, que não fazem parte da realidade física, mas que explicam e detalham o funcionamento do mundo físico e seus objetos. Se esses recursos são verdadeiros e válidos e puderem ser manuseados, podem ajudar a resolver os nossos problemas. É daí que vem a invenção da tecnologia, que nada mais é do que o aprisionamento de conhecimentos através de algum artefato físico ou mesmo extrafísico. Na prática, desde a suspeição de que determinado problema pode ser solucionado até a entrega de um artefato com a solução envolve a geração de tecnologia. Em tudo a tecnologia está presente.

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