O processo educacional mais importante (Parte 1)

O brasileiro tem a fama de um povo que “lê muito pouco” e, por isso, não sabe ler bem, escrever bem etc., o reflexo disso não está só nos resultados das redações do Enem, que, diga-se de passagem, representa um aspecto da qualidade do processo educacional mais importante de toda vida escolar dos discentes das escolas públicas e privadas: a alfabetização. Ser alfabetizado é condição necessária para o exercício consciente e ativo da cidadania, aqui no Brasil como em qualquer país.
O processo de alfabetização é, para Luiz Carlo Cagliari (1945), “o momento mais importante da formação escolar de uma pessoa”. Dessa assertiva pode-se concluir que o processo de alfabetização deve ter como objetivo a concretização do homem corno criador da cultura, deixando de assumir uma posição passiva na sociedade a partir do momento em que se apropria da escrita e a utiliza como um instrumento de expressão e libertação…, uma mediação pela qual o sujeito materializa a crítica.
Jean Foucambert esclarece que “analfabetismo é o desconhecimento das técnicas de utilização da escrita; iletrismo é a falta de familiaridade com o mundo da escrita, uma exclusão em relação ao todo ou a parte desse modo de comunicação” (passagem do livro: A Leitura em questão). Portanto, segundo esse cientista francês, há diferenças marcantes entre indivíduos considerados decifradores e leitores. Somente esses últimos podem realmente aspirar à condição ativa e esclarecida.
O referido pesquisador registra, ainda, que na primeira metade do século 20, com o advento da Revolução Industrial iniciada no fim do século 19, o conceito de analfabetismo era concebido como o resultado de ausência de escolarização. Atualmente, este conceito aparece como consequência do iletrismo, em contraponto ao conceito de letramento…, o iletrismo é um fenômeno que reside nos mecanismos da sociedade capitalista, uma sociedade que exclui do processo de decisão e poder cerca de 50 e 70% dos cidadãos.
Jean Foucambert assevera, ainda, que numa sociedade hierarquizada com base em classes sociais, a distribuição desigual das técnicas de acesso aos bens simbólicos reforça e realimenta as características excludentes dessa sociedade. É por isso que na sociedade capitalista poucos indivíduos são letrados (e não se busca saber o que os torna letrados), enquanto a maioria da população é somente alfabetizada (e indaga-se por que, alfabetizados não se tornam letrados).
O que isso significa? Significa que tanto os alfabetizados quanto os analfabetos são frutos do mesmo processo de exclusão, do iletrismo – que, por sua vez, resulta da exclusão de ambos das condições que lhes permitiriam participar das redes de circulação de impressos. Para aqueles que socialmente vivem essas condições de exclusão, o destino é a alfabetização ou mesmo o analfabetismo – num caso ou noutro, a não-leitura.
Não é difícil observar que a educação pública (e privada) que temos contrapõe ensinar a escrever com ensinar a ler, o que gera uma sociedade excludente dos poderes que a escrita e a leitura conferem aos que as dominam…, a escola alfabetiza, mas não forma sujeitos capazes de exercer competências (e habilidades) de leitura e de escrita que os contextos sociais contemporâneos passaram a exigir do homem.
Reportando-nos ao pesquisador francês, a noção de poder está ligada à própria natureza da comunicação escrita na sua exigência de distanciamento e de teorização: o poder sobre si mesmo; o poder de se conhecer, de se compreender e de situar-se; o poder sobre sua maneira de aprender, sobre a gestão de seu tempo e de seu espaço; o poder de participar da vida, das decisões, dos projetos de diferentes grupos; o poder sobre o ambiente físico e social para compreendê-lo, transformando-o e agindo sobre ele através de produções.
O saber-ler não pode ser confundido com o saber-decifrar. À escola e à sociedade impõem-se a urgência de uma reconceitualização do status de leitor para atender ao desafio de incorporar todos os alunos e cidadãos à cultura do escrito. “Para formar todos os alunos como praticantes da cultura escrita, é necessário reconceitualizar o objeto de ensino e construí-lo tomando como referência fundamental as práticas sociais de leitura e escrita. Pôr em cena uma versão escolar dessas práticas que mantenha certa fidelidade à versão social (não-escolar), requer que a escola funcione como uma microcomunidade de leitores e escritores.”

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