Nos últimos anos, a participação política no Brasil se tornou vulcânica. Para sermos mais precisos, de 2013 até agora, o acirramento entre esquerda e direita tomou o espaço público de assalto. A presença da política no asfalto das principais cidades brasileiras pode significar duas coisas. Por um lado, em uma perspectiva pessimista, que as instituições não estão dando conta dos problemas, ou seja, não conseguem absolver as demandas a ponto de transformá-las em consensos coletivos. Por outro, em uma abordagem mais otimista, que a radical participação é, sim, um vestígio da vitalidade democrática e da participação popular, isto é, as pessoas nas ruas demandam mais e melhores serviços públicos e, assim, as instituições respondem com ações efetivas.

Parafraseando a velha sabedoria astrológica, as ruas falam. Acrescento: as ruas falam muito alto. As consagradas rivalidades políticas da época da Guerra Fria foram rapidamente substituídas por outras. Novas identidades políticas foram forjadas. Se, no passado, tínhamos o confronto entre comunistas e integralistas, tradicionalistas e trabalhistas, militaristas e populistas etc., agora testemunhamos outro padrão de conflito com seus métodos e objetivos. Em linhas gerais, se substitui a luta de classe pela luta das identidades; desloca-se definitivamente o palco histórico do conflito político da infraestrutura para a superestrutura. E neste caso, o identitarismo liberal distribui igualitariamente argumentos e lógicas de engajamento social para quem quer falar em nome de um grupo específico que jura representar. 

Por tudo que diz acerca da natureza do conflito político em tempos pós-modernos, uma lição jamais deve ser esquecida: a luta pelo poder é uma luta física, espacial, geográfica. A ocupação de espaços físicos conta muito como uma estratégia de intimidação do inimigo, mas também para alimentar o moral dos aliados por meio da propaganda para as massas. Ao longo dos anos, relaxamos e nos desacostumamos a falar sobre presença da militância nas ruas. As redes sociais nos condicionaram a pensar falsamente que a política saiu do asfalto para ser deslocada em definitivo para as redes de fibra ótica. Os apóstolos do desenvolvimento tecnológico, informativo e comunicativo chegaram a pensar que a política tal como a conhecemos tinha chegado ao seu fim. Em suas pregações erráticas subestimaram o poder da política e de seus efeitos concretos na legitimação da ordem democrática.

Definitivamente, o desenvolvimento tecnológico e o ativismo virtual não deixaram a velha política de lado. Estas novidades vieram e impulsionaram ainda mais a política tradicional. Os protestos de rua no sábado passado demonstraram que a oposição – e não só a direita governista – ainda tem poder de mobilização e pode dar muita dor de cabeça para a elite bolsonarista e seus apoiadores. Os protestos da oposição foram explícitos em seus objetivos, pois reivindicaram a compra de mais vacinas e o impeachment de Bolsonaro. Contrariando as narrativas do “fica em casa” e do “evite aglomerações”, muito usadas justamente contra as ações políticas do próprio presidente, os militantes de esquerda saíram às ruas em todo país.

A demonstração força popular da esquerda, contudo, expôs a divisão interna da elite esquerdista quanto ao método de enfrentamento do governo Bolsonaro. Um grupo defende a derrubada do presidente via impeachment com base nas investigações da CPI instalada no Senado Federal. Ocorre que a derrubada de Bolsonaro resultaria na sua substituição pelo seu vice, o gal. Hamilton Mourão. Em outras palavras, a saída de Bolsonaro poderia fortalecer ainda mais o bloco militar que se reuniria política e corporativamente em torno de Mourão. Outro grupo, este mais próximo de Lula, acredita em uma estratégia de longo prazo, em que o ex-presidente, já desimpedido penal e criminalmente com a ajuda do STF, poderia, dada a acentuada queda de popularidade e elevados índices de rejeição de Bolsonaro, derrotá-lo nas eleições gerais.

Paradoxalmente, o crescimento da esquerda lulista fortalece a direita bolsonarista. As duas forças se retroalimentam e saem fortalecidas no processo. A estratégia de ocupação das ruas iniciada por Bolsonaro mostrou a esquerda que o presidente tem força popular. Como reação e para não deixar um time jogar sozinho em campo mandou-se às favas o moralismo sanitarista e a resposta veio com mobilização e ocupação das ruas. A exemplo do presidente, a guerra de ocupação do espaço público busca tencionar a polarização e reforçar a dualidade schmittiana do amigo vs. inimigo. Palavras de ordem, imagética coletiva, discursos identitários proferidos pela esquerda soam como música e alimentam o espírito dos bolsonaristas.

Gosto de usar uma imagem da arte militar para entender a arte da política. A primeira imagem traça um paralelo entre a política e a guerra. E tende a ver a política, antes de tudo, como uma guerra de trincheiras, ou seja, uma guerra lenta, duradoura, incerta e sem vitoriosos claros. A guerra de trincheiras é um conflito estacionário, reativo e que depende do controle e da paciência dos estrategistas. Afinal, em um movimento precipitado, pode-se expor a tropa aos inimigos. Os conflitos políticos nas democracias raramente são jogos de soma zero – um ganha e o outro perde –, mas caracterizam-se como jogos das sombras na qual a imitação de um ato deve ser respondido com outro ato parecido. Afinal, um ataque se responde com um contra-ataque.   

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