O jeito ‘manauês’ de falar

O linguajar de um povo é uma coisa muito engraçada. Muda não só de uma região para a outra do país, mas de Estado para Estado, cidade para cidade, e se bobear até de bairro para bairro.

O professor da Ufam e doutor em Linguística Sérgio Freire, se deu ao trabalho de, durante dez anos, pesquisar a forma de falar do amazonense quando ainda fazia o doutorado, iniciado em 2000. “Começou como um embrião e durante dez anos eu coletei as palavras através de pesquisas in loco, e teve até casos de amigos que me enviaram palavras de cidades do interior”, contou. Desse trabalho resultou o livro ‘Amazonês – expressões e termos usados no Amazonas’, com a segunda edição lançada esse ano.
“Nossa linguagem resulta de três influências. A primeira é dos portugueses que começaram a colonizar a região a partir de 1669 e não mais partiram daqui. Deles herdamos a língua propriamente dita e o chiado característico, também comum entre os cariocas; a segunda influência é dos indígenas, que já moravam aqui quando da chegada dos portugueses e acabaram se mesclando com estes, e incluindo novas palavras ao idioma dos colonizadores; a terceira influência é a dos nordestinos, principalmente cearenses, que vieram pra Amazônia em duas grandes levas: primeiro entre o final do século 19 e início do 20, e depois na época da Segunda Guerra, com os soldados da borracha”, explicou.

Sérgio disse que as pessoas assimilam as palavras do local onde vivem, e explicou até porque muitas, depois de anos morando num determinado local, ou tem sotaque, ou falam da mesma forma como falavam na sua cidade de origem. “É que, inconscientemente, elas não se desligaram do lugar onde nasceram, ou mantiveram suas raízes”.

“Também a entonação de uma mesma palavra, ou expressão, pode ter significados diferentes. ‘Vô mermo’ pode ser dito tanto quando você quer ir mesmo a um lugar, quanto ironicamente quer dizer que não vai”, falou. “Outro exemplo é o ‘égua’, que pode ser dito diante de uma surpresa, com raiva, com medo, com dúvida”.

“E o amazonense é muito gestual. A característica mais marcante é ‘falar’ com um gesto da boca. ‘Eu moro ali’, e aponta com o canto da boca. Ou ainda colocar o sujeito no final da frase, tipo ‘vou lá pra festa, eu’.

Além da fala, Sérgio lembrou que o amazonense, também de forma inconsciente, se porta na cidade como o indígena e o ribeirinho na floresta. “Você vê um amazonense na rua, no ônibus, falando alto, contando coisas íntimas, com a maior naturalidade, como os indígenas em suas aldeias, onde não havia divisão, nem paredes, entre as famílias. Os motoristas têm o hábito de dirigir no meio da rua, como se estivessem numa canoa, no meio do rio, sem ninguém dos lados e atrás”.

Em suas pesquisas, Sérgio descobriu até palavras e expressões que só existem aqui. “Tem aquela expressão, para quando algo não é muito bom, que diz: ‘não é assim uma Coca-Cola…’. Pois criou-se aqui a Fanta, como algo ruim. Se não é bom, é Fanta. Essa expressão é daqui”, garantiu.

E a palavra ‘kikão’ é genuinamente manauara. “Na década de 1980 existia o Lanche do Kiko, ali no final do Boulevard. Ele lançou um cachorro-quente para o qual deu o nome de Kikão. O nome ‘pegou’ e até hoje quem vende cachorro-quente o chama de kikão. O cheese (queijo), também surgido na década de 1980, virou X e tudo que é sanduíche vendido nas esquinas de Manaus é X alguma coisa”. “O que identifica um povo é a sua cultura, sua comida e sua língua. As três temos em Manaus e no Amazonas”, concluiu. A seguir, algumas palavras e expressões que usamos no dia a dia e nem nos damos conta que muitas delas são faladas apenas por nós, manauaras e amazonenses: brocado, mermão, banzeiro, de bubuia, putitanga, paidégua, até o tucupi, marrapaz, que só, merenda, papoco, espia só, pitiú, pegar o beco, putzgrila, eita pau, mano, vô mermo, dar um pulo, telesé?, põe no toco, é fogo, rumbora, maceta, se manque, nem com nojo, di cum força, tu é leso, é?, lavar da área, no balde.
Nicolas Jr. conseguiu colocar na sua composição ‘O Amazonês’, várias delas.

O Amazonês Nicolas Jr.
Espia maninho
Eu sou dessas paragens
Das ‘banda’ de cima
Do lado de cá
Eu não sou leso
Nem tico bodó
Mas boto no toco
Se tu me ‘triscá’ (marrapá)
Eu não vim no Guaramiranga
Sou moleque doido não venha ‘frescá’
Pegue logo o beco e saia vazando
Senão numa tapa tu vai ‘emborcá’

Me criei na beira ali pelo ‘ródo’
Eu me embiocava lá pelos ‘motô’
Mamãe me ralhava e eu nas ‘carrera’, zimpado
Era galho de cuia, lambada e o escambal
Saía vazado pro bodozal, menino vai se ‘assiá’
Tira a tuíra do ‘côro’, que agora é dos vera
Vou te malinar.

Sou amazônes, não nado com boto, nem chupo ‘piqui’
Sou do mesmo saco da farinha
Aquela da ovinha ali do uarini
Sou amazônes, num é ‘fuleragi’
Eu sou bem dali e dou de ‘cum força’ na farinha
E sou ‘inxirido até o tucupi.

Eu era escarrado e cuspido uma osga
Mas meu apelido era carapanã
Muito apresentado, passando na casca do alho
Era chato no balde, um cuirão pitiú
Mais ‘intojado’ que ‘dismintidura’
Numa gabolice pai d’égua que só, pois num é?!
Man eu era chibata, parente, de rocha
Era o rei do ‘migué’

(sou amazonês…)

Na ilharga das balsas
Brincava de pira
E ali de ‘bubuia’, ficava até ‘ingilhá’
Mangava ‘dusôtro’ na esculhambação
E na hora da broca mandava dindin com kikão
Era bom ‘qui só’
Eu pegava um boi, que era massa demais
Égua ‘su mano’, eu cresci à pulso
E hoje vivo dos bicos na rampa dos cais

(sou amazonês…)

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