O homem não precisa ser o lobo do homem

Com o avançar da idade valorizamos nossas memórias e o que aprendemos. Talvez seja a vontade de comprovar para si mesmo que não está passando em vão pela vida. Em um desses momentos de lembranças veio em mente Thomas Hobbes. Filósofo, teórico político e matemático inglês do século XVII que escreveu um livro chamado Leviatã.

Lá estava eu, durante um almoço familiar de domingo, lembrando de Thomas Hobbes. O motivo? Uma brincadeira entre crianças. Uma disputa de quem conseguia pegar primeiro uma bola jogada ao ar. José e João, primos, e Ruth, irmã mais velha de José, que coordenava a disputa infantil jogando a bola para o alto. Todos com idades entre 3 a 6 anos. Ao vencedor palmas dos pais e amigos, ao perdedor restava o choro.

A relação de Thomas Hobbes com aquela brincadeira parece bastante improvável, mas eu posso esclarecer. O autor do livro Leviatã divulgou em sua obra mais conhecida uma frase em latim, adaptada, do dramaturgo romano Platus que diz “homo homini lúpus“. Em português seria “O homem é o lobo do homem”. Uma metáfora que afirma que o homem é um animal capaz de ameaçar e destruir seus semelhantes, um comportamento intrínseco à natureza humana.

Uma frase forte que descreve o ser humano como um animal que em sua essência é capaz de explorar os mais fracos, enganar, ludibriar, colocando-se dessa forma acima dos demais e tendo como prioridade o seu bem estar, desconsiderando ética, moral e outros preceitos que conduzem os homens a uma vida em sociedade justa e igualitária.

E a brincadeira das crianças? Hobbes me surgiu no momento em que Ruth, ao jogar a bolinha, favoreceu seu irmão e enganou o pequeno João, impedindo que ele corresse. A vantagem dada por Ruth fez com que José conseguisse pegar a bola primeiro e com isso recebesse os aplausos de todos os adultos presentes. Ao João restou chorar pela derrota, nem percebendo que havia sido enganado.

Ruth estava ali comprovando que o homem realmente pode ser o lobo do homem. Uma criança inocente que já demonstrava uma característica humana de proteger e favorecer a si mesmo e os seus, sem considerar se iria prejudicar alguém. Atitude louvável se vivêssemos sem regras, mas reprovável quando somos parte de uma sociedade.

Aqui não cabe analisar o livro Leviatã, pois foi publicado em um contexto social diverso do que vivemos atualmente e Hobbes defendia o Absolutismo, mas vale um olhar na afirmação de que para vivermos em sociedade é necessário um contrato social entre os indivíduos. Em outras palavras não é possível homens vivendo com outros homens sem regras de condutas, afinal a natureza do homem é destrutiva. Nesse momento a presença de um Estado constituído é fundamental.

Vivemos em uma sociedade que possui em sua estrutura regras de condutas sociais, com a ética e a moral entre seus pilares, e também as regras de natureza coercitiva e atributiva que possuem o objetivo de trazer a ordem, a paz e a harmonia social. Qualquer coisa diferente disso nos leva a um caminho diverso do que é ser uma Nação.

Resta então a desaprovação aos que aplaudiram José, quando ele ganhou a brincadeira se valendo da intervenção de sua irmã Ruth, por estimular algo considerado socialmente desonesto em crianças que estão em formação. Devemos sempre, como adultos, incentivar nas crianças a compreensão de como é salutar para o coletivo sermos honestos e participativos na vida em comunidade. Devemos sempre, como adultos, inibir nas crianças atos reprováveis que possam promover desvios de caráter no futuro. Afinal o homem não precisa ser o lobo do homem.

*Moisés Hoyos é Analista-Tributário da Receita Federal do Brasil

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