O fim próximo pode não chegar

Ainda adolescente, na década de 1980, em uma das atividades voluntárias da LBV (Legião da Boa Vontade), levávamos uma faixa às ruas contendo uma frase forte de autoria de José de Paiva Netto, nosso diretor-presidente: “A destruição da natureza é a extinção da raça humana”.

No movimento ambientalista brasileiro nascente, a LBV reforçava seu ideal ecumênico, endossando que cada gesto de solidariedade, notadamente em relação à conservação da natureza, era e continua sendo fundamental à preservação do ser humano, afinal, formamos uma única família: a Família Humanidade.

É de 1988, no âmbito dos trabalhos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e da Organização Meteorológica Mundial, a criação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), um comitê composto por cientistas de todo o Planeta indicados pelos governos mundiais para avaliar o que já conhecemos sobre mudanças do clima, quais as consequências do fenômeno, de forma a recomendar políticas e iniciativas coletivas ao enfrentamento dos desafios civilizatórios.

Os primeiros resultados do Sexto Relatório de Avaliação (AR6) emitido pelo grupo de pesquisadores da Física do IPCC (www.ipcc.ch) no início de agosto deram o tom da gravidade planetária: são IRREVERSÍVEIS algumas consequências do aquecimento global, como o degelo, o aumento do nível do mar e mudanças nos oceanos.

Tal irreversibilidade nos remete ao compromisso humano inadiável, civilizatório, portanto, coletivo, de sobrevivência ante ao colapso e suas consequências catastróficas, pois, o IPCC trabalha com o pressuposto que a ação humana tem aquecido ainda mais o sistema climático e que mudanças do clima rápidas e disseminadas pelo mundo já estão acontecendo.

Nós que vivemos em ecossistemas urbanos somos os primeiros a sentir os efeitos das escolhas equivocadas na relação entre Homem e a Natureza, notadamente, as cidades construídas às margens, ou entrecortadas por rios/igarapés.

A Região Metropolitana de Manaus é uma área pouquíssimo resiliente, portanto, muito vulnerável às mudanças climáticas.

O rio Negro, em sua maior cheia histórica (2021), nos deixou claras as marcas de sua pujança e estragos nas ruas, avenidas, praças e bairros inundados da capital amazonense. 

Chuvas intensas e concentradas têm recorrentemente arrebentado, pela ação geológica da água, calçadas, vias asfaltadas, sistemas de drenagem em Manaus.

Não se trata apenas de gastos econômicos na reconstrução das estruturas urbanas… falo do cheiro das valas negras e esgotos a céu aberto que tornamos nossos igarapés; do desmatamento insensível do crescimento da cidade contra a floresta, destruindo nascentes, assoreando igarapés, aquecendo as temperaturas nos bairros; da insistência em morar em áreas de risco, ou em frágeis palafitas dentro do caminho natural das águas, de forma espontânea, sem controle, ou geotécnica… do quanto também somos responsáveis, enquanto cidadãos, pelas atuais catástrofes.

A cidade nos esconde a nossa natureza humana: somos animais, portanto, seres heterótrofos – necessitamos de matéria orgânica como alimento na obtenção de energia à vida. 

Por mais que os discursos e ideias arrogantes vigentes promovam o ceticismo à capacidade científica de promover evolução e resiliência, os resultados apresentados pelo AR6 demonstram a inequívoca verdade: a natureza humana é incapaz de sobreviver sem o cuidado com os recursos naturais. 

Lembro que em minha participação na Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente (2012) – Rio+20, convidado a contribuir com o tema ‘governança dos recursos hídricos e sua correlação com a redução da pobreza e as mudanças climáticas’, fiz a seguinte reflexão final na forma de recomendação às Nações Unidas: “ENFRENTEMOS A 3ª GUERRA MUNDIAL PELA PRESERVAÇÃO DO MAIOR DE TODOS OS RECURSOS NATURAIS: O SER HUMANO”. 

Baseei minha defesa nos resultados do Relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde), emitido às vésperas da Rio+20, que anunciava a grave notícia: “1,5 milhão de crianças morrem por ano no mundo por falta de acesso à água potável e ao saneamento”. 

Tal estudo revelava que 39% da população mundial, em 2012 (2,6 bilhões de pessoas), não tinham serviços de saneamento básico, especialmente, as áreas rurais; sendo crianças e mulheres, as mais atingidas pelas dificuldades no acesso à água e falta de saneamento básico. 

Postulei aos presentes na Conferência: se na 1ª Guerra Mundial perdemos 19 milhões de vidas, na 2ª Guerra mundial 30 milhões de vidas, a partir dos números apresentados pela OMS, em 20 anos, outras 30 milhões de pequenas vidas seriam ceifadas pela guerra silenciosa da nossa indiferença.

Infelizmente, desde 2019, perdemos o protagonismo brasileiro nas discussões das mudanças climáticas, retrocedendo em nossa capacidade de governança nacional. 

Em 2022, passados 10 anos da Rio+20, temos no Brasil a ótima oportunidade de promover uma cordial e democrática discussão política sobre o que avançamos no enfrentamento desta 3ª guerra mundial vigente, que, certamente, muito contribuiu aos nossos resultados negativos do enfrentamento da pandemia.

Não nos esqueçamos que o coronavírus não sobrevive ao habito simples de lavar as mãos e o rosto com água e sabão.

Mas, como poderei enfrentá-lo se poluo com o meu lixo os igarapés das cidades que vivo, se as autoridades públicas e privadas não priorizam investimentos em saneamento básico?

Ao “comercialmente ser humano”, cabe a reflexão e consciência às novas atitudes civilizatórias urgentes e irreversíveis. Afinal, se a irreversibilidade é algo possível e próximo, há e haverá sempre tempo de uma longa retomada para salvar o planeta. 

Para tanto, ressalto o que apreendi com a recomendação dada por Paiva Netto, materializada nas atividades da LBV durante o evento da Rio+20: “EDUCAR. PRESERVAR. SOBREVIVER. HUMANAMENTE TAMBÉM SOMOS NATUREZA”.

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