As lideranças locais precisam ter uma visão realista do estado em que se encontra a educação. Para que a sociedade possa desenvolver-se, é imprescindível, em primeiro lugar, que se reconheçam de forma absolutamente clara suas deficiências e carências. Quanto maior for a revolta contra elas, maiores as chances de acelerar o processo de mudança. Se houver pressão social e vontade política, as transformações serão mais rápidas. Obviamente, a presença de líderes carismáticos, bem-intencionados e com competência, pode tornar o processo mais veloz.
Outra observação é que a educação do povo brasileiro, de acordo com a Constituição, é missão do Estado, que a realiza por intermédio de políticas públicas competentes. Educar um povo não é tarefa fácil, principalmente quando a própria sociedade não cultua valores voltados à educação de qualidade. Aqui, infelizmente, não se valoriza o conhecimento nem a sabedoria. Pesquisa recente demonstrou que a maior parte das famílias está plenamente satisfeita com a educação que seus filhos recebem nas escolas, que todos sabemos ser de péssima qualidade.
Na ZFM (Zona Franca de Manau), as empresas incentivadas vêm doando parte dos seus resultados para a UEA (Universidade do Estado do Amazonas). E o que se vê é que grande parte desses recursos, por força de artifícios legais, está sendo desviada para outras atividades. Na realidade, no sistema econômico em vigor – o sistema de mercado – a função das empresas é gerar riqueza, investindo, produzindo e criando renda e emprego, além de contribuir de modo significativo para o Erário (apesar de a ZFM ser equivocadamente cohecida como paraíso fiscal). O professor Benchimol, de saudosa memória, costumava dizer, fazendo blague, que a ZFM não é um “paraíso fiscal”, mas um “paraíso do fisco”.
Nos países asiáticos (Japão, Coréia, Malásia, Cingapura etc.), em geral culturas que dão enorme valor ao saber, encontram-se os exemplos mais edificantes de políticas educacionais que mostraram resultados em poucas gerações. Nesses países foram adotados, com determinação e persistência, sistemas educacionais de excelência que rapidamente os transformaram em nações desenvolvidas, detentoras de capital intelectual de classe mundial.
Aqui se discute em demasia – existe um encantamento pela verborragia e pela liturgia. Preocupamo-nos mais com a forma que com o conteúdo. Nas reuniões, as pessoas têm fascínio pela controvérsia, mas têm enorme dificuldade de chegar a conclusões e produzir planos de trabalho logicamente encadeados. Enquanto perdurar a cultura do autoengano, que nos impede enxergar os problemas, não será fácil resolver as questões que nos prendem ao arcaísmo.

Escassez de engenheiros

A falta de engenheiros qualificados está preocupando o setor industrial. O déficit anual desses profissionais já atinge o patamar de 30 mil, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria) – situação que preocupa empresas e especialistas em educação. “O país tem de formar mais engenheiros urgentemente, sob pena de vir a pagar preço muito alto mais à frente”, diz o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Vanderli Fava. Já o diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Carlos Henrique Cruz, é ainda mais categórico: “Especialmente agora que o país está numa trajetória de crescimento econômico que parece sólida, é essencial que existam mais e melhores engenheiros, pois são eles que fazem as indústrias funcionarem”. Ao participarem em São Paulo, na semana passada, de um evento realizado pela CNI para debater a formação dos engenheiros brasileiros, Fava e Cruz apontaram as carências dos ensinos fundamental e médio, a dificuldade de ingressar em uma faculdade pública ou de bancar os custos em uma instituição de ensino privada e o descolamento entre os currículos universitários e as necessidades das empresas como algumas das razões para a baixa procura pelos cursos de engenharia. “Um engenheiro que esteja desempregado tem algum problema de formação porque nós inclusive já estamos recebendo engenheiros vindos de outros países para trabalhar aqui”, disse Fava, mencionando que, num país como o Brasil, de 190 milhões de habitantes, a demanda anual por novos profissionais gira em torno dos 60 mil pessoas, enquanto, hoje, são formados apenas 32 mil ao ano. De acordo com estimativa divulgada pela CNI, até 2012 haverá pelo menos 150 mil vagas não preenchidas por profissionais devidamente capacitados, ou seja, por necessidade dos empregadores alguns destes postos poderão ser destinados a pessoas com outras formações acadêmicas. Na opinião do presidente da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), Humberto Barbato, “O momento é oportuno para os jovens que estão prestes a ingressar numa universidade e que ainda estão em dúvida sobre qual carreira escolher. A oportunidade é essa. Os cursos de engenharia são atraentes e eu acredito que, neste momento, o jovem deve pensar seriamente em estudar engenharia”. Referindo-se ao setor industrial da associação que preside, conclui Barreto: “No setor eletroeletrônico, como em outros setores, nós já sentimos a falta de mão de obra qualificada”. No PIM, onde está localizado o maior polo eletroeletrônico da America Latina, a escassez de engenheiros se eleva com o crescimento das empresas. A falta desses profissionais poderá comprometer o futuro do nosso polo industrial.

Iniciação em ciências

A baixa procura de cursos de engenharia decorre basicamente da má formação em ciências – principalmente matemática, física e química – em geral apresentada pelos estudantes brasileiros. Em regra, os alunos têm ojeriza por matemática – a base do conhecimento científico. Há falta de bons professores que estimulem o desenvolvimento da curiosidade infantil e das competências cognitivas voltadas ao raciocínio em ciências exatas, com técnicas pedagógicas apropriadas. Isto aborta, desde cedo, a curiosidade das crianças para explicar os fenômenos da natureza. Logo nos primeiros anos da escola, instala-se no aluno a aversão pelo conhecimento científico, o que pode explicar a preferência avassaladora nos vestibulares pelos cursos nas áreas de humanas. A falta de engenheiros é a resultante natural desse processo, que custará caro ao Brasil em suas aspirações para integrar-se à sociedade do conhecimento.

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