O desafio de 2020 nos remete ao movimento de comunhão em 2021

Num destes encontros casuais, hoje, significativamente, mais virtuais, recebi o vídeo TEDxBerlin – Change Your Channel, onde Mallence Bart-Willians, nascida em Serra Leoa (Oeste da África), falava sobre “o Continente Africano e o Mundo”.

A palestra ocorrera na Alemanha em 2015, país em que a jovem possui cidadania, e pode ser acessada no site https://www.mallence.com/.

Os 17 minutos de conversa e imagens funcionam como um “soco no estomago dos imperialistas”, nas palavras do Amigo Henrique, com quem comunguei a mensagem recebida.

Dizem que as boas citações devem ser atualizadas (até os últimos cinco anos). Na virada 2020/2021, as reflexões de Mallence ganham uma força regeneradora e provocativa ao processo civilizatório vigente.

O dilema de 2020, que expôs a mais cruel faceta humana, revelou a fragilidade do ser humano diante do ambiente material e imaterial, frente aos inimigos visíveis e invisíveis, e de nossa realidade natural: a morte.

Experimentamos o desprezo, a desconexão de realidades, mas, também, uma solidariedade incondicional, observada no sorriso dos olhos, no uso da máscara, no distanciamento necessário e sobrevivente, no respeito às nossas limitações e, por movimentos empreendedores, inovadores, regeneradores, de colaboração em praticamente todos os campos do conhecimento.

Questionei-me sobre a realidade brasileira a partir da pergunta feita por Mallence, diante da contradição de Serra Leoa: por que, no país mais rico do mundo (Serra Leoa), no continente mais rico do Planeta (África), rico em paisagens naturais, em recursos da fauna e flora, na produção de café e cacau, em insumos minerais industriais, reservas de petróleo e onde diamantes de centenas de quilates e ouro podem ser lavrados nos quintais, habitado pelas mais belas almas, 5 mil unidades da moeda de sua nação equivaliam o valor de uma unidade da moeda europeia?

Lembrei-me das igrejas visitadas por mim em Portugal, ornadas pelo ouro colonial escravocrata, quando a jovem africano-germânica acentuou: o conceito ensinado nas Escolas de Economia e Finanças que frequentei, indica que quem possui reservas de ouro tem lastro em seus sistemas financeiros nacionais. Portanto, afirmou, nessa lógica, o mundo ocidental dependeria do “socorro” dos recursos da África, e não, vice-versa.

Ao tocar na ferida, Mallence provoca: se no mundo ocidental tais recursos são escassos, como garantir que os mesmos continuem chegando gratuitamente? “Por meio da desestabilização sistemática das nações africanas mais ricas e de seus sistemas financeiros, tudo isso apoiado por grandes campanhas táticas de publicidade deixando o mundo todo com a impressão de que a África é pobre e moribunda e que só sobrevive pela misericórdia do Ocidente. ”

 E continua: “parabéns à Oxfam, UNICEF, Cruz Vermelha, Life Aid e todas as outras organizações que realizam, continuamente, campanhas publicitárias multimilionárias, mostrando ações de caridade em meio à aparente pobreza a fim de perpetuar essa imagem da África para o mundo, campanhas financiadas por pessoas bem-intencionadas acreditando que estão ajudando com as suas doações. Enquanto uma mão doa, sob as luzes das câmeras, a outra tira, fora dos holofotes.

E propõe: “[…] É muito bom que o Ocidente venha com papeis coloridos em troca dos recursos de ouro e diamantes africanos. Em vez disso, proponho que venham de mãos vazias, cheios de integridade e honra. Queremos repartir/partilhar nossas riquezas e convidá-los a dividir/compartilhar as suas conosco”.

De certo, justifica Mallence: “nossa percepção de uma África saudável e empenhada, que não dispensaria seus recursos de forma tão barata e livre, é lógica. Claro… ao vender seus recursos ao preço do mercado mundial, desestabilizaria e enfraqueceria as economias ocidentais estabelecidas no sistema pós-colonial de alimentação gratuita. […] Dados do FMI (2014) indicam que das 10 economias mundiais que crescem mais rápido, em função dos seus PIBs, seis são africanas… por exemplo, o Tesouro Francês vem recebendo em torno de 500 bilhões de dólares, ano sim e outro não, em reservas cambiais estrangeiras africanas, baseado no débito colonial que a França os força a pagar. […] Isto é o que acontece no mundo humano. O mundo que nós criamos…”

Parece incrível que ainda existam relações internacionais deste tipo no Século XXI… Com o grande respeito que tenho ao povo francês, consulto: para onde caminhou ou caminha o ideário de Liberdade, Igualdade e Fraternidade conclamado na Queda da Bastilha? O que teria o “Velho Mundo” a contribuir com a África e com as nações latino-americanas?

O ano de 2021 requer uma imunização universal, onde a comunhão/partilha é um movimento natural, urgente e transnacional.

Os interesses econômicos e financeiros sobreporão aos da sobrevivência humana? Até quando empurraremos nossos refugiados ao êxodo de suas ricas terras de ricas almas?

Veio-me a lembrança da canção de Caetano e Gil “Haiti”… nosso desejo de um 2021 de muita comunhão.

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