À medida que avançamos no tempo, o conhecimento científico vai, pouco a pouco, galgando um patamar de importância sem igual na história da humanidade. Mas essa importância, ao mesmo tempo em que pode ser vista com as cores do otimismo, uma certa penumbra parece encobrir seus principais aspectos, com sérios riscos de transformá-la em dogma. Um dogma, de forma sintética, é todo conhecimento que não permite que se investiguem as suas bases, seus fundamentos. Diferentemente da ciência, que exige constantes revisões e atualizações, os dogmas se assentam sobre a perigosa ideia de verdade, palavra que não faz parte do vocabulário dos cientistas. Advém daí, portanto, o grande desafio da ciência: ao mesmo tempo em que tem que ser compreendida por toda a humanidade, precisa, simultaneamente, se desvencilhar de qualquer possibilidade de se transformar em conhecimento verdadeiro ou algo similar. A ciência não trata da verdade das coisas, do certo e do errado, mas sim do que é provável e plausível.

Uma das características essenciais do conhecimento científico é o erro. O que chamamos de erro é a discrepância, a diferença entre aquilo que a ciência afirma sobre a realidade e a verdadeira essência da realidade que está sendo afirmada. Quando dissemos que o átomo é composto por prótons, nêutrons e elétrons estávamos cientes de que, provavelmente, esses componentes não eram os únicos e tampouco os mais elementares. Depois descobrimos novos elementos e novas subdivisões de algumas dessas partículas, como é o caso dos quarks. Quando a ciência disse que há uma tendência de equilíbrio entre oferta e demanda, no caso de muitos ofertantes e muitos demandantes, estava também ciente da possibilidade dessa regra não se aplicar a determinadas situações, quando houver poucos compradores para muitos vendedores, por exemplo.

Veja o caso dos remédios. Não há nenhum medicamento que tenha uma taxa de eficácia de 100%. A razão disso é que na ciência o 100% é apenas referencial, jamais alcançável. Há medicamentos com maior e menor poder de cura. Essa diferença entre o ideal e o real é a primeira noção de erro que precisa ser compreendida. Uma consequência disso é o que explica por que a ciência está o tempo todo pesquisando, tentando melhorar o conhecimento que já possui. Seu grande desafio é reduzir ao máximo o erro, que é a diferença entre o que ela explica e aquilo que efetivamente acontece na realidade. Por exemplo, um remédio que fosse 100% eficaz para todo caso da mesma doença seria a exata correspondência entre o que a ciência fala e a realidade da qual ela fala. Infelizmente, isso não existe. E provavelmente tão breve isso não vai acontecer.

Duas razões concorrem para que a verdade não exista na ciência. A primeira é o fato de que os fatos e fenômenos do mundo estão sempre em movimento e, por conseguinte, se alterando constantemente. E a segunda é que todas as vezes que a gente fala alguma coisa sobre a realidade, na prática estamos fazendo algum tipo de alteração nela. Em outras palavras, o que os cientistas falam da realidade é apenas uma retratação, uma descrição específica, particular, produzida pela mente de cada cientista em particular.

Por essa razão, a ciência que se pratica hoje nos grandes centros mundiais não é mais a de uma visão única, particularizada. É uma tentativa de compreender o todo, que é a realidade, a partir das inúmeras visões parciais de cada cientista. Vejamos o caso da pobreza. Um pesquisador A pode dizer que sua causa é a alfa, o pesquisador B diz que é beta, o C diz que é delta e assim sucessivamente. O que sabemos é que cada pesquisador está fazendo, de fato, é uma fotografia de apenas uma parte da realidade, da pobreza. Se somarmos todos esses conhecimentos parciais em um só, teremos grande chance de compreender com adequação a realidade total, ou seja, toda a pobreza, mas apenas a retratada nos estudos científicos.

O que está acontecendo, então? A ciência de hoje manuseia todo o conhecimento científico sobre a realidade porque ele está disponível através do uso de tecnologias. É possível a gente saber tudo o que o ser humano sabe cientificamente sobre alguma coisa. Como consequência, podemos, a partir daí, dar continuidade ao empreendimento maior da ciência, que é explicar todos os fatos e fenômenos do mundo. Este empreendimento é tão hercúleo que precisa da ajuda de todos os cientistas atuais e muito mais dos cientistas em formação e dos que ainda nem nasceram.

O motivo disso é que o estoque de conhecimentos científicos disponível ainda é muito pequeno em quase todas as áreas dos saberes. E, para piorar, uma quantidade muito grande de pesquisadores não tem domínio sobre o método científico e confunde conhecimento científico, que apresenta várias limitações, com filosofia, que tem pretensão de verdade, e com religião, que é dogmático. Noutras palavras, tem gente que acha que está fazendo ciência, enquanto, na verdade, está fazendo conhecimento religioso, mesmo odiando religião.

Como o conhecimento da ciência admite e exige a presença do erro, está sempre carecendo de atualizações, retificações. Essa característica peculiar, que não existe em nenhum outro tipo, faz da ciência se aproximar cada vez mais da natureza humana, que é falha e imperfeita. É através da detectação das falhas e reconhecimento da imperfeição humana que se faz avançar a ciência. E esse avanço é fundamental por uma razão extremamente importante: é o conhecimento que permite ao homem viver e viver cada vez melhor. A gente produz ciência não é apenas porque amamos aprender, mas essencialmente para aplicar o conhecimento obtido, transformando-o em tecnologia, que é todo artefato que nos ajuda a resolver nossos problemas e superar nossos desafios.

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