O complicado manejo do jacaré

O jacaré possui um potencial imenso para alavancar a economia do Amazonas através da comercialização de sua carne, couro e vísceras, mas há décadas, apesar da gigantesca população do animal existente em todos os rios da Amazônia, sua caça é proibida. Só agora, depois de estudo em cima de estudo, realizados por órgãos ambientais, ensaia-se uma tímida liberação da exploração econômica de duas das quatro espécies existentes na Amazônia.

“A licença para liberação de manejo referente a cota experimental para o abate de jacarés em UC’s (Unidades de Conservação), em específico no setor Jarauá localizado na RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Mamirauá, está sendo articulada para 2020, podendo acontecer no fim do mês de janeiro ou na primeira quinzena do mês de fevereiro”, revelou Jusenaldo Alves, técnico em Recursos Pesqueiro da Sema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente).   

Tecnicamente o manejo de qualquer recurso natural em UC’s está liberado desde 2000, com a publicação do Snuc (Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Em 2003, foram iniciadas as tratativas junto ao Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas) para o manejo de jacarés na RDS Mamirauá, contando com monitoramento, capacitações com os manejadores e construção de abatedouro. A legislação estadual de 2011 e a federal de 2012 trazem critérios específicos para o manejo do jacaré.

“Para realizar o manejo do jacaré em UC’s é necessário embasamento técnico-científico que comprove a sustentabilidade na exploração de espécie silvestre em ambientes naturais”, explicou.

Sucesso do pirarucu

Levantamento realizado pelo Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas), em 2016, registrou uma população de 8.144 répteis habitando na RDS Mamirauá, e este número só tem aumentado. Atualmente vivem no local, ao menos cinco mil animais considerados em idade adequada para serem abatidos, além das fêmeas e dos filhotes, mas está difícil conciliar manejo sustentável com atividade altamente lucrativa.

“Considerando os abates que ocorreram entre 2004 e 2010, 574 jacarés foram abatidos na RDS Mamirauá. Os animais iriam ser comercializados inteiros pelo valor de R$ 200, cada, o que geraria aproximadamente R$ 30 mil de renda para os moradores da comunidade, entretanto, devido a problemas de armazenamento nos abatedouros, geridos pela Adaf (Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas), a carne foi doada”, lembrou.

O Amazonas possui hoje 42 UC’s, com apenas seis delas realizando satisfatoriamente o manejo do pirarucu. A partir da RDS Mamirauá, o mesmo pode acontecer com o jacaré, mas estudo em cima de estudo emperram o manejo.

“A possibilidade de estender o manejo do pirarucu, assim como a do jacaré, para outras unidades, torna necessária uma série de estudos para a viabilidade ecológica que apontem as áreas onde existem potenciais para o manejo. No momento, as ações estão voltadas para a RDS Mamirauá, onde ocorrerá o manejo para a cota experimental, citada acima”, destacou.

A cota experimental será de 100 animais, em 2020, o que representa aproximadamente 2.500 kg de carne. O couro será vendido para curtumes no Sul e Sudeste do país e a carne, provavelmente, comercializada em Manaus.

“As carnes de jacarés comercializadas hoje, em Manaus, são oriundas de outros estados”, acredita Jusenaldo.

200 quilos de carne/dia

O jacaré é um dos animais da Amazônia com grande potencial econômico por ser completamente aproveitado para comercialização. O couro é vendido para o mercado de bolsas e sapatos por cerca de R$ 30 o centímetro, já a carne é destinada à alimentação e as vísceras são utilizadas para fazer ração.

A primeira licença para abate de jacaré na atividade primária, em UC’s foi assinada em 2018, autorizando o funcionamento do Plantar, primeiro abatedouro e entreposto flutuante de abate e comercialização do animal, na comunidade rural Jarauá, no município de Uarini (distante 565 quilômetros de Manaus), na RDS Mamirauá. A licença tem validade de cinco anos, período no qual poderão ser abatidos até dez mil animais das espécies jacaré-açu (Melanosuchus niger) e jacaretinga (Caiman crocodilos), no paraná do Jarauá.

No dia 1º passado a Adaf certificou o Plantar com o SIE (Serviço de Inspeção Estadual). A empresa tem a autorização do Ipaam e conta com o apoio da Sepror para as atividades.

O estabelecimento terá a capacidade de produzir mais de 200 quilos de carne de jacaré, equivalendo aproximadamente ao abate de 30 animais por dia. Serão comercializadas carcaças inteiras frescas e cortes, sobrecoxas e coxas, caldas, costelas e dorsos. A pele será comercializada para industrialização.

A estimativa é que sejam empregados aproximadamente 54 funcionários, que atuarão na produção e administração técnica das atividades de captura e no processamento dos crocodilianos. A carne será comercializada em frigoríficos, supermercados, restaurantes, hotéis-pousadas e feiras devidamente regulamentadas.

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