21 de janeiro de 2022

O Brasil tem estrutura para superar a atual crise econômica internacional

A instabilidade econômica continua em evidência e o PHD em Economia pela Universidade da Carolina do Norte (EUA), Luiz Flávio Maia Filho, diz acreditar que o Brasil tem condições de enfrentar o atual momento e sem ser fortemente prejudicado

Jornal do Ccommercio – O Brasil já passou por diversas crises econômicas, e acabou superando os impactos que esse tipo de instabilidade causou. O senhor acredita que o país deverá superar também este momento atual?

Luiz Flávio Maia Filho – O Brasil já foi severamente afetado nas crises passadas por estar fortemente apoiado na entrada de capitais estrangeiros para financiar suas atividades, e esta crise chegou num período em que o país está menos vulnerável e menos necessitado de um fluxo contínuo de recursos de fora. O volume das reservas que o Brasil tem está na ordem de US$ 200 bilhões, e isso é uma grande proteção para que o país enfrente problemas como esse, com condições incomparáveis para solucionar entraves causados por essa instabilidade.

JC – O senhor acredita que essa reserva está sendo bem gerenciada?

Maia Filho – Sim. O estoque está sendo extremamente bem administrado pelo BC (Banco Central), que por meio da gestão de reservas cambiais e flutuações que o país tem em dólar, está sendo parcimonioso na sua atuação cambial.

JC – Quais são então os reflexos da crise na atual conjuntura no país?

Maia Filho – O primeiro e inevitável impacto é a escassez de crédito, que influencia diretamente no processo de exportações, muitas vezes pagas por meio de contratos de adiantamento (empréstimos). O segundo reflexo foi com relação aos preços de commodities, como milho, soja, e minério de ferro, que devido à desaceleração da economia mundial teve sua demanda reduzida, influenciando na lucratividade das empresas do segmento. Há também o impacto quanto à importação de insumos utilizados nas indústrias nacionais.

JC – Que ações podem ser utilizadas para minimizar os impactos no desempenho dos setores econômicos?

Maia Filho – A redução nas taxas de juros e, principalmente, a desoneração tributária, são essenciais para contornar problemas causados pela crise e trazer maior sustentabilidade às empresas brasileiras. A criação de pacotes de estímulos para as atividades econômicas também poderiam contribuir, já que com esses pacotes, os custos nas empresas podem ser contidos.

JC – A ampliação dos prazos para o recolhimento de impostos pode comprometer prioridades como o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento)?

Maia Filho: Acredito que não, já que a ampliação dos prazos de recolhimento de impostos é um caso típico de como o governo pode agir para facilitar a vida do empresário. Também posso destacar que os impostos não deixarão de ser recolhidos, eles apenas terão o prazo estendido para que o empresário encontre maneiras de quitar os seus impostos com segurança, deixando de buscar financiamentos de curto prazo com juros altíssimos.

JC – O que as empresas brasileiras devem fazer para se manter competitivas e produtivas?

Maia Filho – Agir com cautela, tomar decisões visando longo prazo, pensar na sustentabilidade não só daqui a três meses, mas daqui a três anos. Contratar ou demitir um funcionário é um processo muito caro. Não é à-toa que muitas empresas recorrem às férias coletivas, então o empresário deve ter cautela na hora de tomar decisões, seja na hora de cortar custos, seja no momento de atualizar suas previsões de receita.

JC – A expansão do PIB brasileiro (Produto Interno Bruto) foi de 5,4% no ano passado. Como o senhor avalia o desempenho para este ano?

Maia Filho – O mercado tem trabalhado com um projeção de crescimento entre 4,8% e 5,1%. Esses números do mercado são estimativas bem próximas do que vai acontecer. A economia brasileira obteve nos dois primeiros trimestres deste ano taxas de crescimento robustas, então, ainda que no quarto trimestre deste ano a taxa de crescimento sofra uma redução, a taxa de crescimento do ano vai ser uma média de dos quatro trimestres então é muito difícil que o Brasil alcance taxa inferior a 4,8%.

JC – Apesar das exportações nacionais crescerem, não conseguem alcançar o nível de importações, comprometendo assim o desempenho da balança comercial. Em sua opinião, que medidas poderiam ser tomadas para reverter essa situação?

Maia Filho – A importação faz parte da natureza dos negócios de grande parte das empresas brasileiras, e se as importações crescerem não é algo negativo, por si só, para o país. Acredito ser saudável que o Brasil não apresente grandes desequilíbrios na balança comercial. Uma boa parte do crescimento de importações faz parte de um processo de modernização do nosso parque produtivo, então temos importado maquinário agrícola e industrial, atualizando o nível tecnológico das indústrias nacionais. Não defendo um saldo positivo na balança comercial por muito tempo, mas também, obviamente, o país precisa ter suas exportações mais competitivas. Não gostaria que as nossas exportações parassem de crescer, porque, com isso, perderíamos parcelas do mercado mundial, e para estimular as exportações, a gente precisa não apenas de medidas pontuais, como a que o governo já tomou ao atender ao financiamento de exportações, mas também de estímulos fiscais e mais flexibilidade para a contratação de mão-de-obra.

JC -A crise econômica mundial também mexeu com o mercado doméstico. Antes o crédito era abundante, o que fomentou o consumo desde produtos alimentícios até o de imóveis e agora, a carência de crédito força a elevação dos juros. O que fazer para reverter essa situação?

Maia Filho – A questão do crédito no Brasil precisa ter um cuidado maior. As taxas de juros executadas no país ainda estão entre as mais altas do mundo, mas mesmo assim, o país ainda consegue ser competitivo. O fato do custo de crédito ser tão alto no Brasil, decorre de questões institucionais, e de questões culturais. Por um lado, o BC tem tido sucesso em garantir a solidez dos bancos, monitorando e exigindo que os bancos tenham um grau de alavancagem relativamente baixo – se comparado ao padrão internacional. Para reduzir o custo do crédito, seria necessário estimular os empresários e consumidores a serem mais criteriosos na escolha do seu banco, comparar taxas, tarifas bancarias, e buscar outros bancos se perceberem que as taxas estão muito altas. A questão da oneração tributária também contribui para a elevação das taxas de juros. O governo, quando perdeu os recursos arrecadados pela CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), aumentou dois impostos que incidem sobre a atividade financeira, a CSLL(Contribuição sobre o Lucro Líquido) e o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), e com essas medidas o crédito foi encarecido. Diante menor liquidez internacional, é hora de o governo rever tais medidas.

JC – O processo de mobilidade social com a ascensão das classes sociais deve continuar mesmo diante do atual momento?

Maia Filho – Acredito que sim, a transição da economia brasileira é formidável, no que tange ao poder de compra de certas camadas da sociedade brasileira. As classes mais baixas estão sendo reduzidas e migrando para outras classes. A população da classe D se mantém estável e a classe C já representa mais de 50% da população brasileira. Essa migração e estabilidade resultam em um acesso maior da população ao mercado, a bens como alimentação, vestuário, que são importantes para manter a dignidade humana.

JC – Quais são os conselhos que o senhor daria à população diante desse momento de crise, escassez de crédito, e até mesmo de desemprego?

Maia Filho – As pessoas devem ser bastante cautelosas com relação ao endividamento, porque nesse momento o crédito é caro e quem fica sem dinheiro pode se ver obrigado a recorrer a uma linha de crédito a taxas elevadas, mas acredito que a população está mais atenta a esse cenário.

JC -Que medidas deverão ser adotadas pelo governo para que o país não volte aos tempos da inflação galopante?

Maia Filho: O Brasil ainda tem muitas barreiras a vencer, mas já avançou muito, inclusive no controle da inflação. A atuação do BC nos últimos anos foi muito questionada, mas graças a essa atuação, o país tem hoje a certeza de que não dá para crescer e distribuir renda com inflação. A gestão da política monetária e o combate à inflação não esmoreceram, e isso é uma conquista da economia e da sociedade brasileira. Espero que o comprometimento com a inflação de 4,5% seja mantida para os próximos anos.

JC – Antes da crise, o país estava se beneficiando dos altos preços das commodities e da expansão das economias emergentes . E agora, qual a tendência de recuperar esse mercado?

Maia Filho: Com a economia apresentando sinais de instabilidade, a tendência é de que o país deixe de ter um ambiente econômico de farto crescimento. Isso vai fazer com que as empresas tenham que trabalhar com metas de venda e crescimento mais modestas, mas não quer dizer que o país vai parar de crescer. Cada venda terá que ser feita com mais suor, mais inteligência comercial, as empresas terão que explorar outros mercados, além da China e Estados Unidos, vender mais internamente. Também seria imprescindível que o governo retome discussões em relação ao Mercosul.

JC – Quais são os setores econômicos que estão sendo mais afetados com a crise?

Maia Filho – Os mais afetados serão os setores que dependem mais de crédito. Entre os setores afetados, estão os de autopeças e automobilísticos, com impactos sobre toda a cadeia produtiva.

JC – Em relação à importação de insumos, aqui no Amazonas grande parte dos componentes utilizados na produção das indústrias instaladas no PIM (Pólo Industrial de Manaus) são importados, e, com a crise, as transações ficaram mais caras levando muitas empresas a reduzirem seus custos. O senhor acredita que esta é uma medida adequada?

Maia Filho – A produção voltada para o exterior terá o impacto negativo no custo de peças importadas, mas também poderá perder no volume de vendas, com uma menor demanda internacional e com o acirramento da concorrência. Assim, a busca pela contenção de custos é inevitável. Em todo caso, os empresários precisam se mobilizar em torno da agenda de reformas tributária e trabalhista que darão maior competitividade ao negócio no Brasil. O custo da nossa lentidão em avançar nessas agendas está ficando muito alto.

JC – Quais são as suas projeções para a economia brasileira em 2009?

Maia Filho – Sou confiante na capacidade de reação do empresariado brasileiro. Já passamos por crises muito agudas e essa experiência acumulada vai fazer a diferença. Além disso, observo que o governo e os empresários tem bons canais de comunicação hoje. O crescimento do PIB pode ceder para algo em torno de 2,5% ou 3% e a taxa de desemprego poderá se elevar um pouco. Mas não espero, hoje, uma reversão das boas perspectivas para nossa economia no médio prazo.

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