As análises políticas são profícuas no Brasil. Já temos algo como quatro ou cinco gerações bem formadas em instituições acadêmicas nacionais e estrangeiras. A formação acadêmica de profissionais em ciência política melhorou bastante o nosso debate público. As opiniões foram substituídas por pesquisas científicas, jargões obscuros cederam espaço para os dados e informações, o panfletarismo aberto deu lugar à análise de conjuntura e de risco político.

Mas nem tudo são flores. Embora muitos colegas tenham robusta formação acadêmica, ainda é possível testemunhar muitas análises embaraçadas, distorcidas e enviesadas como se estivessem na torcida por um dos dois times na final do Brasileirão. Tenho observado, num exercício contínuo de sociologia do conhecimento, que temos pelo menos três tipos de análise.

A primeira é a análise de tipo colérica, pois está fundada na raiva e no ódio como se estivesse numa relação obsessiva. A segunda é a análise cardíaca, por sua vez, é passiva e refém das circunstâncias. Já a terceira, por fim, é a cerebral é dotada de equilíbrio e razão algo necessário e urgente.

A obra do professor Jairo Nicolau, O Brasil Dobrou à Direita: uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018, é um exemplo categórico de como a política deve ser estudada e, principalmente, analisada. Ao longo da obra, Jairo Nicolau lista um conjunto de fatores que ajudam a entender a vitória de Jair Bolsonaro.

  1. A vitória de Bolsonaro subverteu uma lei de ouro do sistema político brasileiro, ou seja, a crença generalizada segundo a qual a vitória numa eleição presidencial dependeria da combinação de uma grande quantidade de dinheiro para o financiamento da campanha; tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV; e palanques estaduais, onde lideranças locais e o presidenciável unem esforços.
  2. Bolsonaro foi o favorito nos três principais níveis de escolaridade (fundamental, médio e superior).
  3. Do ponto de vista regional, o Nordeste concentra um contingente significativo de votos de pessoas de baixa escolaridade (analfabetos e pouca escolaridade formal).
  4. A correlação entre votos de homens e mulheres sempre foi uma constante no nosso histórico eleitoral. Porém, com a eleição de Bolsonaro, essa tendência foi modificada. Embora tivesse o suporte eleitoral dos dois grupos, o voto bolsonarista é majoritariamente masculino.
  5. E ao correlacionar sexo com escolaridade, descobre-se que o voto masculino é constante em todas as faixas de escolaridade, ao passo que entre as mulheres, Bolsonaro tem apoio das faixas médias de escolaridade.
  6. O fator idade pouco ou nada interferiu no resultado das eleições. Bolsonaro e Haddad alcançaram um relativo equilíbrio em se tratando das faixas etárias. Todavia, um dado chama a atenção: Bolsonaro vence entre as mulheres mais velhas, ao passo que Haddad leva vantagem entre as mulheres mais nova, na faixa dos 16 aos 29 anos.
  7. O voto evangélico foi decisivo na vitória de Bolsonaro. O presidente obteve aproximadamente 70% dos votos evangélicos. Foi o maior percentual já conquistado por um presidenciável desde 2002, quando Anthony Garotinho disputou as eleições e ficou em terceiro lugar. Bolsonaro levou a melhor também entre os católicos, porém com uma margem bem menor – a região Nordeste é majoritariamente católica e apoiadora do PT.
  8. O antipetismo pesou significativamente na decisão do eleitor na eleição de 2018. Em termos percentuais, 10% do eleitorado se identifica com o Partido dos Trabalhadores, ao passo que aproximadamente 33% do mesmo eleitorado o rejeita. O mais surpreendente na pesquisa de Jairo Nicolau é que quase 50% é indiferente, ou seja, não preferem tampouco rejeitam. Numa atmosfera de radicalização política e ideológica, a retórica bolsonarista foi mais eficaz na captura da massa eleitoral não-engajada.
  9. A emergência e consolidação das redes sociais foi outra mudança importante, sobretudo na estratégia de comunicação eleitoral dos candidatos. WhatsApp foi a rede social mais usada pela candidatura de Bolsonaro. E, para além do WhatsApp, outras redes sociais foram igualmente utilizadas, especialmente o Facebook e Twitter.
  10. O voto regional é uma realidade no Brasil. Por esse motivo, a região Nordeste manteve um significativo apoio ao candidato Fernando Haddad. Conhecedor dessa dinâmica, os estrategistas do bolsonarismo precisam abrir uma larga diferença nas regiões Sudeste e Sul, a fim de compensar a discrepância. Só nos estados da região Nordeste, o PT de Fernando Haddad abriu uma vantagem de 70% dos votos válidos.
  11. Bolsonaro, por sua vez, obteve um expressivo sucesso eleitoral nos três maiores do país. Em São Paulo, Bolsonaro superou o histórico eleitoral dos tucanos; no Rio de Janeiro, foi o candidato de direita mais bem votado desde 1994; e, em Minas Gerais, interrompeu a sucessão de vitórias eleitorais do PT. Em suma, para Bolsonaro a vitória nas regiões mais ricas e povoadas do país compensou as perdas no Nordeste.
  12. O bolsonarismo é um fenômeno urbano, produto das grandes e médias cidades. E foi assim que o projeto de Bolsonaro atingiu os eleitores de escolaridade superior. Já Haddad obteve sucesso eleitoral nas pequenas cidades, sobre as pequenas cidades do Nordeste. As clivagens regionais foram decisivas na vitória do atual presidente.

O Brasil Dobrou à Direita: uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018 é um livro singular, pois aponta as evidências e mostra por meio de dados quais foram os resultados obtidos por cada candidato no processo eleitoral de 2018. Jairo Nicolau consegue fazer uma análise sofisticada e objetiva daquilo que aconteceu em 2018. Cabe ao leitor ler, entender o processo e, se for o caso, fazer as escolhas corretas para as eleições que se avizinham.

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