“O Banco Central dá claros sinais de que os juros vão voltar a subir em 2010 “

A supervalorização da moeda nacional em relação ao dólar, que aumentou os preços da exportação brasileira, gerou ônus à indústria, setor que mais se ressentiu dos efeitos da crise financeira

Jornal do Commercio – O reaquecimento da economia e preços em alta das commodities gerou a expectativa de que a Selic voltará a subir em 2010. Esse fato pode afetar o ciclo de alta no consumo?

Fábio Pina – Evidentemente pode reduzir o potencial do consumo geral, dado que as linhas de crédito ficarão mais caras. Todavia, não deve haver um choque de juros tão grande que deva trazer efeitos muito fortes à economia.

JC – Em que exatamente uma taxa de juros alta afeta a entrada de novos investimentos industriais?

Fábio Pina – Alta de juros afeta principalmente no custo de capital. Outro afetado é o consumo, já que as linhas de crédito ficarão mais caras e, portanto, o cenário para o setor industrial se torna menos atrativo. Outro motivo é o da preferência dos estrangeiros por investimentos especulativos que, com os juros altos, se tornam mais lucrativos em curto prazo.

JC – Por que o aumento no preço das commodities e a recuperação do mercado interno amparado na melhora da economia mundial têm sido considerados premissas para a elevação da Selic em 2010?

Fábio Pina – O Banco Central tende a ser conservador. Com preços de commodities em alta e demanda mais forte por parte do consumidor, o Copom [Comitê de Política Monetária] teme que haja pressão nos preços de alguns setores da economia.

JC – Alguns especialistas acreditam que a Selic é um mal necessário para o mercado interno. Qual sua opinião sobre isso?

Fábio Pina – Em nossa opinião, o Banco Central poderia ser menos conservador. Mas é fato que o Brasil gerencia mal sua política fiscal e, portanto, impõe muitas restrições à atuação do Banco Central.

JC – O ritmo de redução dos juros começou a cair. É possível se imaginar um crescimento gradativo dos juros daqui para frente?

Fábio Pina – Não se sabe bem ao certo. O fato é que o Banco Central dá claras indicações de que os juros vão voltar a subir em 2010.

JC – Diminuições gradativas da queda da Selic e elevação do IOF podem provocar depreciação cambial num prazo mais longo?

Fábio Pina – Os dois eventos, Selic e IOF [Imposto sobre Operações Financeiras] correm no sentido contrário. A alta da Selic atrai mais capital estrangeiro, enquanto o IOF repele.

JC – O diferencial de juros do mercado interno ainda influi na conta dos investimentos externos?

Fábio Pina – Evidentemente. O dinheiro aplicado procura a melhor remuneração vis-a-vis o risco embutido no investimento.

JC – Uma economia que aumenta gastos públicos, consumo das famílias e investimentos pode fazer isso sem poupança externa?

Fábio Pina – Enquanto o consumo agregado for menor que o PIB [Produto Interno Bruto], sim. Mas se o consumo das famílias, do governo e das empresas seguir crescendo mais que o PIB, esse diferencial terá de ser coberto por déficit em transações correntes, ou seja, poupança externa.

JC – Aumento de gastos do governo com contratação de pessoal, crescente gastos fixos de custeio e liquidez no mercado. É possível que esses fatores despertem o dragão da inflação?

Fábio Pina – Acho difícil essa hipótese, porque o Banco Central estará de prontidão para combater eventuais surtos inflacionários. Mas, a medida do Banco Central para conter esse dragão é aumentar a Selic.

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