O artista dos instrumentos de cordas

Se o sertanejo é antes de tudo um forte, o parintinense é antes de tudo um artista. Que o diga Walclides Santos da Silva, artista duas vezes. Primeiro, morando num casebre, no Monte das Oliveiras, em Manaus, o rapaz conseguiu transformar um dos quartos da pequena habitação em uma luthieria onde as mais diversas ferramentas para consertar e fazer instrumentos musicais estão agasalhadas, e os próprios instrumentos, por consertar e em fase de fabricação, também encontram seu espaço. A segunda arte do parintinense é exatamente consertar e fazer instrumentos.

Ah, e Silva, como é mais conhecido, ainda toca guitarra, instrumento que ele aprendeu sozinho, em Parintins, quando tinha 15 anos. “Toquei em algumas bandas, mas bandas pequenas, sem renome. Depois fiz um curso de música no Liceu de Artes Cláudio Santoro, de Parintins. Boi? Não. Não torço por nenhum e nunca participei das brincadeiras”, falou.

Ainda em Parintins, Silva quis ir além do simplesmente tocar um instrumento. “A curiosidade de querer saber mais, além do conhecimento musical, me fez querer descobrir como tudo funcionava num instrumento. Em Manaus, há dez anos, fiquei sabendo de um curso livre ministrado pelos professores Gean Dantas e Edson Silva, ex-alunos do projeto Oela (Oficina Escola de Lutheria da Amazônia) e fiz o curso por um ano”, lembrou.

“No começo do curso o professor Edson me perguntou qual instrumento eu queria aprender primeiro, e eu respondi com outra pergunta: qual é o mais difícil de fazer? Sim porque aprendendo o mais difícil, depois os outros seriam fáceis de aprender. Aí ele disse que seria a guitarra Les Paul, modelo com corpo sólido e timbre mais grave que as demais, e confesso, foi muito difícil aprender a fazê-la porque exige técnica”, contou.

Com dez marcas diferentes, a Les Paul foram, e são, guitarras tocadas por monstros do rock como Jimmy Page, Led Zeppelin, Peter Green, Joe Perry, Gary Moore, Slash, Zakk Wylde e Peter Frampton.
As mãos de Silva, que até então só haviam dedilhado as cordas de sua guitarra, agora pegavam num formão, numa plaina, numa tupia para cortar e moldar duríssimas madeiras. “Nunca tinha trabalhado com ferramentas, antes, mas não achei ruim. Ao contrário. É fantástico ver um instrumento surgindo da madeira bruta. Hoje eu até fabrico algumas ferramentas conforme a necessidade”, disse.

Paixão pelo cavaquinho vazado
Depois que aprendeu a fazer instrumentos, Silva voltou para Parintins. “Foi bacana. Tinha uma clientela boa. Mas aí veio essa crise econômica e meus clientes sumiram, então resolvi arriscar e vim para Manaus. Há quatro anos estou aqui. Já tenho uma clientela fixa, mas sempre surge gente nova”, falou. “Diria que 80% dos meus clientes são músicos profissionais e o restante são pessoas comuns que têm como hobby tocar um instrumento”, revelou.

“O que mais faço é consertar violões, baixos e guitarras, mas ao menos uma vez por mês aparece alguém querendo que eu faça um instrumento, mais violão. Eu faço qualquer tipo de instrumento popular de corda. Já os eruditos, como o violino, exigem um conhecimento bem mais aprofundado. Talvez um dia eu enverede por esse caminho”, explicou.

Entre os instrumentos populares fabricados por Silva, ele tem uma paixão especial pelo cavaquinho vazado, um cavaquinho que só tem o contorno do corpo do instrumento e é elétrico. “Apostei em instrumentos exóticos, diferentes, e o que faz mais sucesso é o cavaquinho vazado. Como ele não tem a caixa de ressonância, precisa ser elétrico, e acaba proporcionando um som especial”, garantiu.
Mas Silva também faz o cavaquinho tradicional, instrumento que, no Brasil, é imprescindível para se executar o choro, e um parente distante deste, o ukulelê, característico do Havaí que, com suas quatro cordas, acredita-se ter se baseado no cavaquinho. “Foi popular e teve cordas, pode pedir que eu faço”, assegurou.

Madeiras amazônicas
Silva concorda que o fato de ser parintinense ajuda na profissão que escolheu. “Está no sangue do parintinense ser artista. É coisa nossa mesmo. Quando falo que sou de lá, da pequena comunidade de Parananema, logo as pessoas fazem essa associação com a arte, então dão mais credibilidade ao meu trabalho. Como gosto do que faço, faço tudo muito bem feito”, afirmou.

Outra característica dos instrumentos de Silva é serem feitos com madeiras amazônicas. “Elas vêm de um fornecedor de Parintins, que já sabe o que eu preciso. Geralmente são cedro, marupá, angelim, roxinho. Devido o nosso clima quente e úmido, as madeiras daqui dão mais estabilidade aos instrumentos. Toda madeira tem sua instabilidade, ou seja, umas são mais moles, outras mais duras. Em termos técnicos elas se dividem em tensidade curta, média e alta. E ainda tem o conceito da umidade interna da madeira. Quanto mais seca a madeira, mais estabilidade ela terá, proporcionando um instrumento sem risco de empenar”, ensinou.

Sobre seus planos futuros, Silva pensa em viver somente da luthieria. Atualmente ele aumenta os ganhos com um trabalho noturno.
“Quero ter uma boa oficina, mais estruturada, que possa atender os clientes com melhor qualidade. Mais no futuro pretendo ensinar o meu ofício”, adiantou.

Contatos com Silva podem ser feitos através do Instagram e Facebook (Silva Luthier) e pelos telefones: (92) 9 9463-8187 e 9 9615-2241

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