‘O Amazonas tem uma lógica de hidrovia’

A FAS (Fundação Amazônia Sustentável) bem que poderia trocar o S pelo Z. Já que não se pode mexer no Sustentável, podemos então, somente acrescentar o Z, e assim se chamar FASZ. Falando ninguém nota a diferença. A presença do Z é para dizer que nesses dez anos de existência o que mais tem caracterizado a instituição é o fazer, o realizar.

E por tudo isso, nas palavras do superintendente geral da FAS, Virgílio Viana, a instituição é uma história em construção, cheia de novos desafios. E ele sabe o que fala, pois, foi um dos fundadores, ou melhor, um dos sonhadores que acreditou, mesmo enfrentando dificuldades, que poderia quebrar tabus e romper com paradigmas, tanto no nível programático quanto ético. Por sinal, Virgílio, deixa escapar uma ponta de “pavulagem”, quando afirma que a transparência, nesses dez anos, é um dos pilares do trabalho da FAS.

A “pavulagem”, aumenta, quando se constata também, segundo Virgílio, por meio de pesquisa, que houve uma mudança positiva nas comunidades atendidas. Os números passam de 80%. ” É a prova de que estamos certos em mostrar e defender que a floresta em pé, vale muito mais do que derrubada. Por isso, convido a todos para se somar e engajar nessa história de fazimentos”.

Jornal do Commercio – O Brasil parou por causa da greve dos caminhoneiros. No meio de tudo, o preço de um combustível fóssil. Em alguns países, o carro movido com esse combustível tem data para deixar de ser fabricado. Qual caminho deve seguir o Brasil? Defende o diesel ou busca alternativas?

Virgílio Viana – O mundo inteiro está caminhando na direção do combustível não fóssil. Alemanha, França e Inglaterra e alguns outros países europeus já fixaram a data para o fim dos carros movidos por combustível fóssil. 2025, para uns e 2030 para outros. Essas datas já estão próximas. 2025 é amanhã e 2030, logo depois. E o Brasil tem uma matriz energética muito mais limpa, por que nós temos muita energia hidroelétrica, temos um enorme potencial de energia eólica, além da energia de base de biomassa. Eu acredito que nós não deveríamos ficar esperando o bonde passar. Nós deveríamos estar pilotando esse trem que se chama Desenvolvimento Sustentável. O Mundo inteiro caminha nessa direção e o Amazonas teve um momento de protagonismo mais ativo, nessa área, e hoje são dadas as condições pelo governo do Estado para retomar esse caminho. No entanto, poderíamos ser mais ousados com relação ao modal de transporte que o Amazonas tem vocação. Primeiro é o hidroviário. Muito se debate sobre as rodovias no Amazonas, mas acredito que o principal tema deveria ser sobre as hidrovias. Como melhorar os portos, como reduzir os custos da cabotagem, nós ainda temos custos muito elevados, a segurança nos rios com a sinalização e a própria indústria naval como um todo. Essa é a vocação amazônica. Só que o Brasil é rodoviário, por isso tenta empurrar sobre o Amazonas, uma lógica de rodovia, quando o Amazonas deveria ser guiado por uma lógica de hidrovia. Essa é a natureza do Amazonas.

JC – Por que a FAS defende que floresta em pé vale mais do que derrubada?

Virgílio – A floresta em pé possui muitas riquezas que são valorizadas pelo mundo. As pessoas estão cada vez mais interessadas em consumir comidas com menos agrotóxicos e mais comidas orgânicas, naturais. Um açaí que vem da floresta é diferente do açaí cultivado. O pirarucu que vem dos lagos é diferente do de criatório, e assim por diante. Esses produtos da floresta têm um grande valor. Essa é a primeira razão. A segunda é que a floresta é uma usina geradora de benefícios indiretos para toda a sociedade. É o que chamamos de serviços ambientais. São as duas grandes razões que entendemos que a floresta tem mais valor em pé do que derrubada.

JC – O meio ambiente é um entrave para o progresso?

Virgílio – Essa é uma visão que ainda permanece nos campos extremos. As pessoas mais retrógradas olham o ambientalista como um entrave. Os ambientalistas mais radicais enxergam o progresso como um problema. Mas, eu diria que a maior parte das pessoas já superou essa dicotomia, entre desenvolvimento e conservação ambiental. No aspecto geral o paradigma é que não é possível ter o desenvolvimento com a destruição da natureza, simples assim. Nós não podemos acabar com os cursos d’água e com a fonte de água limpa como um resultado de um desenvolvimento econômico. Posso citar como exemplo o Chile que está perto de nós e que hoje é super organizado e que caminha rumo à despoluição dos rios.

JC – E a BR-319?

Virgílio – Eu acho que nós temos um debate muito superficial, ficando só no quem é contra e quem é a favor. É necessário uma análise das alternativas e dos seus reais custos e benefícios. Quanto custa uma ferrovia? E quanto custa uma rodovia? E aí você tem um custo financeiro da obra e um custo indireto. Qual vai ser o impacto de uma rodovia sobre a criminalidade de Manaus. Isso tem que ser precificado. Com os índices de criminalidade e de desemprego maiores que o Amazonas, qual vai ser a migração de Rondônia? Esse contingente de desempregados de Porto Velho para Manaus, será facilitado ou não por essa rodovia? Se for facilitado qual o impacto disso e qual o custo nos cofres públicos por demandas de mais escolas e postos de saúde?. Por isso, penso que precisa ser analisada a alternativa da ferrovia. Em especial com potencial para a exploração de potássio que é uma riqueza que está na direção dessa ferrovia. Ligada ao projeto da ferrovia que os chineses querem financiar, ligando o Centro-Oeste brasileiro com o Pacífico, o Polo Industrial de Manaus, se ligaria não só ao mercado Centro-Sul brasileiro, mas também com os países do Pacífico. As análises que eu já vi apontam que a ferrovia tem muitas vantagens, por isso, acho que o debate público devia ser mais aprofundado. E se houver a decisão política de se pavimentar por completo a estrada, as medidas de prevenção do desmatamento deveriam ser implantadas antes das obras. Hoje elas estão apenas nos estudos de impactos ambientais e constam somente no papel. No campo, não tem nada, o que significa que todos os riscos que foram levantados, como grilagem de terra, de aumento de violência, de criminalidade, vão acontecer, se não for feito o investimento prévio. No entanto, se todas as medidas que foram elencadas, forem implantadas, com um ano de antecedência, os impactos poderiam ser razoáveis. Se não houver as medidas, acho temerário, fazer algo que os estudos mostram que é uma tragédia anunciada.

JC – Superintendente, voltando para os números da FAS como foi 2017?

Virgílio – Tivemos ótimos números. Foram beneficiadas quase quarenta mil pessoas. Atendemos 583 comunidades e localidades, realizamos 149 Oficinas de Planejamento, 522 projetos de geração de renda, 157 ações de apoio à associação de moradores. Tem mais, 1470 crianças de 0 a 6 anos foram atendidas pelo Programa Primeira Infância Ribeirinha. Estabelecemos 201 parcerias e nas nossas feiras tivemos um público de mais de 7.500 pessoas, sem contar que a nossa Virada Sustentável, desde 2015, envolveu 30 mil pessoas. Também tivemos ótimos números quanto à diminuição do desmatamento e aos focos de calor.

JC – Com tudo isso, houve uma mudança na vida do caboclo?

Virgílio – Essa resposta está no resultado da pesquisa de satisfação feita nas nossas Unidades de conservação. Mais de 85% responderam que houve mudanças positivas. Na minha visão, houve mudanças profundas. Primeiro que passaram a ter muito mais elementos para sonhar os seus sonhos, porque, antes era quase impossível. Sempre foi negado ao caboclo sonhar uma vida lá mesmo. O sonho era migrar para Manaus e vir morar numa invasão. Hoje é emocionante vê um jovem de 16, 18 ou 20 anos, pensando e desenhando um projeto de empreendedorismo. Foi o caso de dois jovens que montaram uma microempresa com máquina de primeira linha, numa comunidade distante 12 horas de barco recreio da sede de Carauari e que hoje estão fornecendo óleo vegetal para a Natura. Recentemente, embarcaram em containers, Andiroba e Murumuru, principalmente.

JC – Superintendente, quais as perspectivas para 2019?

Virgílio – A FAS está crescendo esse ano, comparado ao ano passado, em torno de 18%. Num cenário de muita crise e de desafios que o Brasil vive é um número bastante animador. Nós estamos com 104 colaboradores celetistas e mais ou menos 40 consultores caboclos. É gente do meio do mato que dá aula de diversas práticas, nas áreas de Saúde Pública, Esporte e Cultura, além de um trabalho muito bonito na defesa dos direitos do jovens e adolescente na busca de minimizar o problema das drogas e da prostituição. Nós acreditamos no envolvimento sustentável. Isso é um conceito que pra FAS é muito central. Na verdade é fazer com que as pessoas permaneçam envolvidas nos seus locais e não desenvolvidas para imigrarem para as grandes cidades.

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