Novas paralisações à vista no Polo Industrial de Manaus

Perto da metade do PIM deve sofrer uma nova rodada de paralisações temporárias a partir da próxima semana, desta vez por causa da falta de insumos nacionais, em função da crise do Covid-19. Além das dificuldades logísticas para o transporte do material, em virtude dos bloqueios de estradas nos Estados, boa parte dos fabricantes de componentes ‘made in Brasil’ – concentrados majoritariamente em São Paulo – já parou ou está parando.

Parte da indústria incentivada de Manaus já começou a desligar os motores de suas linhas de produção nas últimas semanas, seja pela escassez de insumos importados – que sofreram atraso na saída da China e da Coreia do Sul – seja pela retração na demanda, dado o fechamento do comércio e as medidas de contenção ao alastramento do novo coronavírus em todo o território nacional.

De acordo com o Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), o PIM já contabilizava 15 indústrias paradas e com férias coletivas até quarta (1º), algumas em função da falta de insumos da China, outras em decorrência dos efeitos das medidas para conter a curva de contagio do Covid-19 – a exemplo do fechamento do comércio e do bloqueio logístico para produtos não essenciais, nos Estados. “A consequência a elevação dos estoques”, lamentou o presidente da entidade, Wilson Périco, em vídeo postado em sua conta do Instagram. 

A relação de empresas do PIM que foram forçadas a desligar os motores das linhas de produção por força da crise inclui já Honda, Yamaha, BMW, Samsung, Technicolor, Transire, Harley Davidson, Panasonic e Whirlpool – fabricante de produtos de linha branca e dona das marcas Consul e Brastemp – e todo o polo relojoeiro, entre outros. Espera-se que, na próxima semana, o polo de bicicletas engrosse também a lista de baixas.

Efeito em cadeia

O presidente da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), Jose Jorge do Nascimento, disse ao Jornal do Commerico que os insumos importados já começam a chegar normalmente para as fábricas do Polo Industrial de Manaus, mas ressalvou que a mudança de cenário não permite um retorno às atividades no mesmo ritmo de antes.

“Há a dificuldade da escassez de componentes nacionais. Pelo menos 50% dos fabricantes de eletroeletrônicos devem sofrer a falta de pelo menos algum insumo, na próxima semana. Mas, nosso problema maior agora é a falta de demanda mesmo. O comércio está fechado e as pessoas estão e devem ficar em casa. Não há muita procura por bens de consumo em dias de crise”, lamentou. 

O presidente da Eletros ressalta ainda que as paralisações estão gerando efeitos em cadeia, que devem se fortalecer nos próximos dias. A maioria das empresas ainda não adota a possibilidade de conceder férias coletiva ainda, embora já ocorram algumas demissões. Em torno de 80% do setor já informa queda no fluxo de vendas e há muita preocupação das empresas com seus caixas, mas há companhias que enxergam oportunidades de investir e já fazem planejamento pós-crise, ou aguardam decisões governamentais para tanto.  

Contágio e esforços

Na mesma live do Instagram, o presidente o Cieam salienta que também há boas notícias em meio à crise. Uma delas é que ainda não foi detectado nenhuma ocorrência de contagio nas linhas de produção do PIM, o que demonstraria a eficácia das medidas implementadas pela indústria local para evitar o alastramento do Covid-19 em ambiente fabril.

“Tivemos apenas um caso confirmado, de um funcionário da área administrativa, que teve elevação de temperatura detectada, dentro do procedimento da empresa. Há outro caso de uma pessoa da área de segurança, que também teve elevação detectada pela empresa, mas ainda não foi confirmado”, emendou.

Quanto aos esforços do setor para reforçar a saúde, Wilson Périco informa que as empresas estão empenhadas e que as máscaras e viseiras já estão em produção e sendo distribuídas a postos e hospitais. Conforme o dirigente, álcool em gel está sendo produzido também, sendo que o Polo conseguiu mandar uma quantidade para Roraima. “Estamos desenvolvendo os ventiladores. Ainda não conseguimos produzir o protótipo, mas temos outras entidades fazendo isso também, como a UEA. Espero que uma solução apareça para produzirmos esses respiradores”, afiançou.  

“Vidas ou empresas”

O presidente do Cieam frisa que não pode haver mais o debate entre salvar vidas ou salvar empresas e defende que “temos que salvar tudo ao máximo”. No entendimento do dirigente, o governo federal tem as ferramentas para implementar ações similares a tempos de guerra e ajudar o país a passar por esse momento. 

“O governo tem como gerar recursos para ajudar as empresas e os empregos. Mas, a equipe econômica já se mostra mais flexível e entende que deve fazer o que outros países já estão fazendo, que é aplicar até 10% de seus PIBs em ações de socorro à população. Temos, todos nós, é que tomar as medidas de preservação da vida”, concluiu.

Fonte: Marco Dassori

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