Nova realidade espera novo crédito

Não quero parecer redundante ao ser mais um a citar a retomada do crescimento de nossa economia. É que vivemos agora uma situação em que somos os protagonistas do processo econômico, e não mais coadjuvantes. Constatei isso em recente encontro em Bruxelas com membros do Conselho Econômico e Social Europeu. A percepção clara dos estrangeiros é que o Brasil construiu uma rede de proteção social e econômica muito eficaz, lançada sobre alicerces bem estruturados, que permitem atender rapidamente demandas a que a catastrófica especulação mundial nos levou e cuja explosão sentimos mais forte a partir de setembro do ano passado.
A crise externa está exigindo do empresariado mais pulso e flexibilidade redobrada na hora do fechamento dos negócios, mesmo que isso possa parecer contraditório. É que muitos dos preços inflados do período pré-crise retornaram a patamares mais realistas, como no caso das commodities agrícolas. A valorização do real frente a outras moedas também está empurrando o empresariado a buscar maior produtividade e a investir em inovação, único remédio para um processo que veio e que não tem volta. A atratividade do Brasil vai trazer ainda muito mais dólares, mantendo a cotação da moeda norte-americana lá embaixo.
O jogo é eliminar gorduras, estimular a pesquisa e o desenvolvimento, não apenas na tecnologia eletrônica, mas sobretudo na capacitação humana. É um trabalho árduo, que envolve as universidades e a academia, que precisam produzir tantas patentes quanto produzem de ciência.
As corporações melhoraram seus processos de gestão e governança; os consumidores estão mais atentos e exigentes ao gastar; e, principalmente, os juros brasileiros estão convergindo, apesar de ainda timidamente, para um patamar mais adequado ao crescimento e ao desenvolvimento de nossa economia. É preciso agora capacitar gente para o que vem por aí.
Momentos como este experimentado pela economia mundial provocam sempre desafios difíceis de serem superados, como é o caso do desemprego em determinados setores e do fechamento de empresas que não conseguiram se equilibrar em meio à tormenta. Por outro lado, oferecem aos gestores públicos e empresariais uma ocasião propícia à observação acerca das melhores práticas, aquelas que estão dando certo, as de melhor resultado.
Aprendemos, hoje, que ter as rédeas nas mãos, com ações melhor planificadas, pode levar a uma nova ordem econômica e social mais democrática, com o máximo de transparência, sem preconceitos, com posturas de mercado melhor estruturadas, respeito às ações de sustentabilidade social, ambiental e empresarial, tendendo a permitir melhores salários, mais renda e mais investimento. Esse talvez seja o grande paradigma que está sendo rompido.
Tem se falado muito sobre o retrato da economia mundial que ficará a partir do pós-crise. Para mim, o choque de realidade aplicado aos mercados está a exigir posturas mais cautelosas e atentas na gestão dos negócios. Quem dispõe de capital é muito mais seletivo e parcimonioso para disponibilizá-lo.
Lembremos que mesmo contando hoje com as taxas básicas de juros mais baixas de nossa história, o setor financeiro tem mantido spreads bancários em patamares incrivelmente elevados. A minha preocupação não é a de reduzir o lucro do setor financeiro, mas, sim, viabilizar economicamente quem toma dinheiro emprestado. Quando a taxa de juros supera o retorno sobre o capital aplicado, a chance de inadimplência cresce astronomicamente.
É importante que empresas, governos, entidades e instituições financeiras promovam um esforço conjunto para garantir que a redução do custo do dinheiro não fique apenas restrita à taxa Selic, mas que se espraie na mesma proporção a toda oferta de crédito e alimente de forma equilibrada as necessidades do sistema produtivo brasileiro, único capaz de produzir riqueza.
Perder essa oportunidade pode significar anos de retrocesso diante de perspectivas extremamente positivas de crescimento propiciadas por nosso mercado consumidor em expansão e por nosso tradicional empreendedorismo.

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