6 de março de 2021

Comer peixe é um hábito de todos os povos que vivem perto de rios ou do mar. O Rio Amazonas, com seus inúmeros afluentes, é um fornecedor permanente de peixes para a população da região. O peixe, como fonte de alimento, é algo tão arraigado que não pode ser chamado de hábito e sim de necessidade. Se não estiver presente todos os dias na mesa do povo ribeirinho a dieta fica prejudicada. 

 Manaus, a cidade que se multiplicou por oito nos últimos 50 anos e, pelo andar da carruagem não pretende parar embora já tenha mais de dois milhões e duzentas mil  bocas que devem ser alimentadas. O Rio Negro que, segundo o poeta Aldisio Filgueiras, segue seu curso de funcionário público, não consegue ser destruído pela cidade porque é muito mais pujante que ela. O mesmo não se pode dizer dos igarapés do centro e periferias da capital que continuam servindo de esgoto natural para dejetos não só humanos. Os peixes, com isso, estão cada vez mais distantes.

Toda vez que ouço a expressão “o pirarucu é o bacalhau da Amazônia” sinto uma ponta de revolta com essa injustiça. O pirarucu é maior que o bacalhau, é muito mais saboroso é o mais e mais. Se os amazonenses têm o raro privilégio de poder saborear o pirarucu com regularidade não é porque o peixe seja menos importante que o bacalhau. Apenas o mundo não conhece o pirarucu e quem está perdendo com isso são eles. A pouca valorização das coisas da terra faz parte da cultura local se manifesta até no futebol, onde a população prefere torcer por times cariocas e paulistas em detrimento aos clubes locais. Se sente orgulhoso quando dizem que “Manaus é a Paris dos trópicos” quando a capital francesa tem quase tudo criado pela mão do homem e Manaus ainda conserva os traços do Criador.

Causa espanto ouvir falar da extinção do pirarucu quando a pesca do bacalhau (aí incluo todos os peixes que se abrigam em baixo deste nome) só aumenta e ele também é um peixe que tem seu ciclo de reprodução e períodos em que deve ser preservado. Isso nos remete à criação de peixe em cativeiro. A Embrapa já possui tecnologia de criação de muitas espécies de peixe em cativeiro. Concentrou muitos esforços no tambaqui e Matrinchã, outros peixes regionais muito apreciados..  O pirarucu ainda está nas preliminares nesta forma de criação. Mas, dado à extensão territorial, à facilidade de formação de barragens na maioria dos municípios e a instalação de tanques rede, nos permite sonhar com o pirarucu sendo tão popular quanto o frango e consumido com a satisfação de estarmos gerando renda ao produtor, não com o sentimento de culpa de quem está ajudando a extinguir um animal pré-histórico nem está desequilibrando nossa balança de pagamentos com a importação do bacalhau.

Muitos puritanos dirão que o sabor do peixe de cativeiro não é comparável a um peixe criado na natureza. Por um lado, eles têm razão. Por outro, o frango está aí para derrubar este argumento. Hoje, mesmo vindo do sul distante, o consumo de frango rivaliza com o consumo de peixe na capital amazonense. Motivos? Preço e oferta abundante. Não é igual? Pode até não ser, mas não deixa de ser gostoso.

A natureza já está protestando em altos brados para que nos preocupemos com a reposição do que dela tomamos. Já se vislumbra a possibilidade de produzir pirarucu com fartura tal, que o resto do mundo também possa desfrutar deste privilégio, hoje limitado a nós. Precisamos abandonar o ritmo indolente das águas do Rio Negro para que isso aconteça em breve.

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