7 de dezembro de 2021

‘Nosso desafio é reinventar o varejo’

“A presença dele era muito forte e vai continuar como uma lembrança eterna. Até por que ele amava essa empresa como se fosse um filho. Sempre teve a plena consciência de que era daqui que mantinha todo o sustento de milhares de famílias, inclusive a nossa”. As palavras ditas com a voz ainda embargada pela emoção são de Antonio Azevedo, se referindo ao seu pai, o empresário José Azevedo, proprietário do grupo TV Lar, que nesta semana que está terminando, completou dois meses de morto. O economista Antonio tem hoje 55 anos e chegou na empresa em fevereiro de 1974, com 12 anos de idade. Nesses mais de 40 anos, ele vem se preparando para assumir o comando do grupo que no ano passado tinha 29 lojas e hoje tem 45. Considerando todo o grupo, são mais de 3 mil colaboradores. As lembranças emocionam novamente quando Antonio diz que mesmo com toda a preparação, ” ninguém sucede um empreendedor como ele”. Para o pai, continua Antonio, em primeiro lugar estava a empresa, e em segundo, a empresa. E completava, se a empresa vai bem, a família vai bem. E era esse espírito, de entrega total para a empresa que fazia o “seu” Azevedo, no domingo ir para a loja da Henrique Martins trabalhar. “Lá, ele fazia um balanço das ações da semana e planejava as necessidades da semana seguinte. Além disso, olhava com muita atenção os encartes que saía nos jornais das lojas concorrentes”, salientou Antonio. Mesmo ainda abalado pela perda, Antonio Azevedo Filho, recebeu o JC na mesma sala onde seu pai trabalhou durante décadas. Quanto ao futuro, ele se diz um otimista tanto com relação ao grupo TV LAR como em relação ao Brasil. “Acredito que o pior já passou”, afirmou.

Jornal do Commercio – Trabalho era mesmo o nome do seu pai?

Antonio Azevedo – Entre tantos ensinamentos e característica do meu pai, o trabalho, realmente, pode-se dizer, ocupava praticamente todo o espaço da vida dele. Para se ter uma ideia, enquanto muitos, no domingo, se divertiam num sítio ou numa praia, jogando futebol ou tomando cerveja, ele vinha para a loja e planejava as reuniões e as pautas da semana seguinte. Listava 20 ou 30 providências e o pessoal tinha que correr. Era um leão. Ele também Selecionava os assuntos que seriam cobrados para os outros diretores. Além disso, fazia questão de olhar os encartes dos concorrentes. Ele sempre deixava claro que o trabalho era a sua maior diversão. Pensei até fazer uma sucessão, há mais ou menos dez anos. Mas, ninguém sucede um empreendedor como ele (voz embargada). Não dá pra suceder. Era uma figura com um grande dinamismo. A presença dele era muito importante, embora eu estivesse na retaguarda, ele queria vê tudo, era o que ele gostava de fazer. Mesmo no limite das forças,ele, era muito atuante. Pior é que nesse ritmo de concentrar as atividades, ele acabava fazendo o que os outros não faziam. Assim era o seu estilo. Minha (voz embargada) vontade era que ele tivesse um pouco mais de tempo para desfrutar de outras coisas, já que a vida dele foi trabalho e mais trabalho.

JC – E o estilo do Antonio, qual é?.

Antonio Azevedo – Eu sou um pouco diferente. Acredito que temos que montar uma equipe, trabalhar e cobrar resultados. Eu gosto da participação de todos. Do ao passado para cá fizemos um movimento que com a participação da equipe que resultou no nosso crescimento do número de lojas. Eu não diria que foi o trabalho de uma pessoa, foi da equipe. Pensamos juntos as estratégias e atualmente estamos num momento muito bom de modernização da empresa. Estamos tranquilos, pois somos um grupo seguro e já olhando num horizonte dos próximos 50 anos. Pensando nisso, há mais ou menos 5 anos já começamos a preparar toda a governança, criamos conselhos e holdings e já estruturamos também as regras societárias, pois tenho outros irmãos que também são sócios, como eu. Preciso prestar contas de forma transparente.

JC – Mesmo na crise, vocês cresceram. Isso mostra que além de um bom gestor você é um otimista. É isso mesmo?

Antonio Azevedo – Sempre. Sempre acreditei no País. Sempre acreditei no trabalho, principalmente nas pessoas. Cada inauguração que fazíamos eu dizia que a crise estava lá fora, da porta pra dentro quem faz a diferença somos nós. O País é muito grande, o País é muito novo e temos muitas potencialidades. Eu sou um fervoroso otimista, sempre. A empresa sempre investiu nos momentos de crise e foram nesses momentos que agente se reposicionou, então eu tinha plena consciência que o momento era aquele de agente se reposicionar perante o mercado e esperar a oportunidade do crescimento externo quando os ventos favoráveis começassem a soprar. Por isso, eu vejo que o Brasil não dá para piorar, é daqui pra melhor. Não tem como imaginar um País numa situação pior do que está. Nós estamos num momento de definição política e as incertezas são naturais, mas já vivemos outras crises e todas elas foram superadas, pois o povo brasileiro é um povo trabalhador. Gosto de repetir que nossa empresa faz parte do Brasil real. Aquele que acorda cedo, dorme tarde e que trabalha todo dia, diferente do Brasil que aparece na televisão, da falcatrua, da malandragem. Sei que a maior parte da população é honesta e trabalhadora. Isso me faz cada vez mais acreditar no País. O nosso povo é empreendedor e pacato, pois atravessar uma crise dessas, em outro país, já teria tido uma revolução, uma verdadeira guerra civil. E é esse povo que a nossa empresa serve, buscando oferecer melhor qualidade de vida, seja com produtos ou com serviços.

JC – Existe, em curso, alguma mudança na linha de produtos ou serviços oferecidos pelo Grupo TV Lar?

Antonio Azevedo – A TV Lar de um ano pra cá ela se reinventou. Ela está recuperando o seu público, o seu mercado, querendo ser relevante para esse público. Ela quer ter um mix de produtos que atenda a faixa de nossa clientela que aquelas pessoas que compram no crediário, que paga em 10 ou 12 prestações uma geladeira e quando termina, compra um fogão ou uma cama. È muito bom vê as pessoas adquirirem, mesmo parceladamente, os bens que vão melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, dessas famílias amazonenses. Por isso, nosso mix de produtos vai continuar direcionado para esse público. Só que temos que ir mais além, por isso vamos em breve vamos relançar o nosso cartão da loja com toda uma nova tecnologia para oferecer aos nosso clientes, mais velocidade no atendimento. Antigamente o consumidor ainda esperava algum tempo para ter uma análise de credito. Agora, tem que ser tudo instantâneo. O tempo do cliente está cada vez mais escasso. Diante disso, estamos investindo em diversas frentes, e uma delas é o nosso cartão que vai facilitar e muito o processo de compra. O cliente pode gastar uma hora escolhendo, mas quando resolve o que levar, ele quer rapidez no pagamento e já sair com o produto debaixo do braço. Além disso,o cartão vai apressar a análise de crédito e oferecer bônus que poderão ser usados como descontos nas próximas compras.

JC – tem outros desafios a serem vencidos pelo grupo?

Antonio Azevedo – O nosso grande desafio é reinventar o próprio varejo.Esse modelo de varejo com lojas físicas já existem há alguns séculos e mesmo com alguns aprimoramentos continua o vendedor, a loja o produto. Nosso desafio, além de incorporar o digital nesse processo de venda e de compra, é tornar esses canais Omnichannel que é uma tendência do varejo que se baseia na convergência de todos os canais utilizados por uma empresa. Trata-se da possibilidade de fazer com que o consumidor não veja diferença entre o mundo online e o offline. O omnichannel integra lojas físicas, virtuais e compradores. E como fazer isso de forma que traga relevância para o consumidor. Estamos desafiando todo nosso pessoal a pensar nisso, mesmo sabendo que não é uma coisa fácil, pois muitos já vendem pela internet, possuem seus sites, mas como fazer isso relevante para o consumidor de forma transparente. Fazeer com que ele compre pela internet e pegue na loja ou começar a comprar na loja e terminar no site. Tudo isso faz com que possamos pensar que nosso grandes concorrentes nem sempre são outras grandes lojas, mas sim as grande plataformas e que hoje já é uma realidade e que nem tem presença física e tão vendendo. Hoje a tributação ainda é uma barreira natural,. mas que logo logo vai ser resolvido e nós vamos ter o mundo como concorrente. Pensar a longo prazo é acompanhar essas mudanças, afinal o consumidor não está mais disposto a pagar o custo da ineficiência. O desaio maior é se manter relevante para o consumidor e não vender só o produto e sim vender tranquilidade, para que ele tenha a certeza de que ao investir e adquirir aquele produto ele tenha a garantia de que ele vai continuar satisfeito e se der algum problema ele saiba onde e a quem recorrer.

JC – Antonio, o que você pediria aos novos governantes que serão eleitos em outubro?

Antonio Azevedo – Em nível nacional, é o custo Brasil. Hoje, nós pagamos um custo muito alto, no transporte, da falta de infraestrutura que encarece tudo. É o custo da ineficiência da máquina pública que acaba gerando impostos que você não consegue mais arcar. Nossa carga tributária é muito alta. Temos que diminuir o custo Brasil, melhorar a eficiência, melhorara produtividade interna e automaticamente fazer como outros países estão fazendo. Os EUA,por exemplo reduziram a carga tributária das empresas, ou seja, estão fazendo uma revolução que vai significar mais emprego, mais ganho de produtividade relativamente aos outros países. Isso, fatalmente repercute aqui no nosso país. Localmente, temos que buscar novos modelos de desenvolvimento. Não podemos mais depender única e exclusivamente da Zona Franca. Precisamos buscar outras alternativas sustentáveis enraizadas na região que possam ter um benefício, não só para a capital, mas também para o interior. A Zona Franca foi madrasta do interior. Elas esvaziou o interior. Hoje Manaus é a capital dela mesmo, com um interior completamente pobre. Mesmo assim estamos acreditando e estamos indo para o interior com nossas lojas. Precisamos ter uma visão de longo prazo que não seja de um governante apenas. Temos que ter a humildade para construirmos juntos com a sociedade um plano que possa ser abraçado pelos governantes e assim sairmos da dependência de apenas um modelo de desenvolvimento, até por que as indústrias que estão abrindo são menores do que as que estão fechando. Essa tendência fará com que cada vez mais o PIM fique esvaziado. Sem contar com os ataques voltados à renúncia fiscal, o que pode tirar ainda mais nossa competitividade.

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