Navegar é preciso, navegar é gostoso

A viagem começou no lusco fusco da manhã. A temperatura estava em 22 graus, bem abaixo que costuma estar no Amazonas. Resultado da friagem que vinha do sul, pois era dia 2 de julho e Manaus fica no hemisfério sul, embora isso nada represente porque o domínio é do clima equatorial. A chuva fina, fora de época, nos faz procurar abrigo. A embarcação é moderna, do tipo A Jato, uma espécie de ônibus aquático, com 80 lugares, com poltronas, ar condicionado e propelida por um motor Yanmar de 600 cavalos de força. O tempo de viagem estimado é de nove horas e o destino, a cidade de Parintins, chamada de Ilha Encantada pelos poetas. 

O rio amazonas está muito cheio. Embora já se tenham passado mais de duas semanas que as águas pararam de subir, o nível das águas da maior cheia da história, baixou baixou seis centímetros. Em ambas as margens se pode ver o efeito desta cheia. Enormes faixas de terra invadida, casas com água acima da palafita que as sustentam, currais e até uma igreja com o assoalho na água. Nas casas altas, com água por todos os lados, vemos os moradores, com certeza desconfortáveis, mas insistentes, que não abandonaram suas moradias. Aldeias inteiras dentro da água. Um espetáculo triste e, embora não seja agradável, não deixa de ter beleza. Sinto-me um pouco culpado de pensar em beleza. 

Em Parintins, um homem no hotel desenha um mapa tosco, para provar porque Parintins é uma ilha. Não uma ilha no meio do nada, mas cercada por rios que impedem seu acesso por terra. Ela está situada no lado sul do maior rio do mundo e é segunda cidade mais populosa do estado. Contudo, vamos falar desta cidade em outra ocasião, ela merece, principalmente depois de ficar dois anos sem realizar o maior festival do mundo. Hoje vamos nos ater às curiosidades da viagem.

O retorno para Manaus aconteceu dois dias mais tarde, iniciando também de madrugada. No entanto, a saída desta cidade é uma hora mais cedo, porque iremos subir o rio. Usaremos outra lancha com a mesma potência e porte da vinda. A diferença entre a subida e descida nessa lancha potente não é tão grande como nos barcos grandes, que transportam carga e passageiros. Estes consomem 20 horas na vinda de Manaus e um pouco mais de 30 horas na volta. Na lancha rápida, a diferença é de duas horas. 

Embora as curiosidades da navegação sejam interessantes, isto é, na descida a embarcação vem mais pelo meio do rio, acompanhando a corrente e na subida mais pelas margens, ora de um lado, ora do outro do rio, aproveitando as curvas e as águas mais brandas para subir. Embora embarcações de todo porte sintam o rebojo, ou a “ponta de água” querendo tomar a direção, a navegação é segura fazendo com que os acidentes ou naufrágios sejam raríssimos, se considerado o número de pessoas e barcos que navegam.

O rio amazonas sempre é bonito. Não importa se é na cheia, na seca ou no meio termo. Qualquer um que navegue vai sentir a exuberância da natureza sobre este imenso viveiro. O religioso vê a mão do criador nisso tudo e nem tenta entender seus fenômenos. No entanto, o homem apressado, só se preocupa com seu destino ou voltar ao seu lugar de origem. O tempo da viagem apenas é uma perda de tempo. Nestes momentos, sinto o que Fernando Pessoa deve ter sentido ao lembrar o general romano Pompeu e dizer: “Navegar é preciso, viver não é preciso.” Ou então, lembrar Morris West em seu livro “O Navegante”: “Navegar é mais importante que o destino.” 

Meu pensamento me transporta para as histórias de navegação que apenas li e me pergunto: Como fizeram os navegantes antigos para subir o rio amazonas com suas embarcações propelidas a vela? Realmente, a Amazônia tem muitos mistérios que não desvendamos. Só podemos entender um pouco mais o nativo, com suas crenças e suas lendas, quando vivemos um pouco mais neste universo insondável. Imaginação e realidade se confundem quando, apesar das modernidades, nos embriagamos de natureza.

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