Nasceu a era dos eventos digitais

A olhos vistos, a quarentena criou novas tendências, e muitas provavelmente vieram para ficar, como as lives de artistas da música, conforme explicou ao Jornal do Commercio a produtora e analista de tendências e experiências do marketing, Loren Luniére, pioneira da divulgação de shows e eventos culturais em Manaus, ainda pelo Orkut.

Jornal do Commercio: Você fez parte da geração Orkut. O que aquela rede social mudou nos padrões de comportamento das pessoas em dez anos de existência?

Loren Lunière: Nos tempos do Orkut não tínhamos o consumo de internet na palma da mão. Naquele tempo as câmeras analógicas perderam espaço para as digitais. Havia câmeras digitais empunhadas ao invés de smartphones, as fotos eram descarregadas no computador, e só depois compartilhadas em cds ou pendrives, socialmente via ‘álbuns’ no Orkut. Hoje a repercussão é online, milhares de pessoas acompanham simultaneamente os fatos.  

JC: A partir de qual momento você verificou que o Orkut poderia ser uma excelente ferramenta para divulgação da cultura?

LL: No Mirc já era comum a gente se comunicar em grupos e conhecer as pessoas, uma evolução do ‘Disk Amizade’, o 145. O MSN trouxe um visual aprimorado e recursos interativos, até chegarmos às conversas com vídeos. Vivemos um momento experimental de reencontrar amigos de infância, aproximar as pessoas. Então, comecei a divulgar o que tinha pra fazer. Eu criava artes utilizando fotos das atrações com as informações e postava. Quando percebi, já tinha centenas de curtidas, seguidores e vários depoimentos e avaliações: Sexy, Legal e Confiável. 

JC: Com o fim do Orkut, quais outras redes sociais você passou a utilizar para continuar nesse trabalho de divulgar shows e eventos?

LL: Todo mês tinha uma casa abrindo em Manaus. Bares, boates, shows. Comecei a organizar essa agenda e divulgar nas redes sociais. Naquele tempo o plano de mídia era voltado para os impressos, rádio, TV e outdoor. Ninguém levava a sério as redes sociais como uma ferramenta de negócios. Daí comecei a estudar as ferramentas, e começaram a surgir as parcerias para inserir artistas e casas nas redes sociais. Eles me procuravam porque ninguém sabia como fazer. Tinha que ir ao tutorial ou no ‘posso ajudar’ das redes. Baixei o Tweetdeck, criei perfis para bandas, artistas, festas, criava conteúdo para Twitter e Facebook. Com um Nokia N95 e sua impressionante câmera de cinco megapixels, comecei a gravar vídeos de shows e subir para as redes. Em 2009, quando o YouTube ‘explodiu’ pra valer, já tinha vários recursos de publicidade para as marcas e os acessos passavam de 1 bilhão por dia, pensei ‘posso subir vídeos das nossas bandas também’, mas a qualidade de áudio era terrível. Em 2010 a qualidade dos vídeos em HD melhorou, subi vídeos dos artistas de Manaus no YouTube, trechos das festas que eu produzia, também subia músicas dos artistas para o Soundcloud, ensinava os DJs como subir seus sets no mesmo site, compartilhava o link nas redes e a galera curtia muito, porque passou a conhecer mais o trabalho dos artistas locais.

JC: Essa quarentena veio forçar os artistas a verem outra forma de mostrar sua arte?

LL: A oportunidade está na palma da mão. Essa é a hora de estar presente, fazer um roteiro, ensaiar a live, arrumar um cantinho em casa, enquadrar o celular e fazer a transmissão. Dêem preferência para o YouTube e o Facebook, porque transmitir shows no Instagram perde alcance, ninguém consegue ficar dez minutos sem responder uma notificação na palma da mão. Deixe o Instagram para o público repercutir nos stories, mostrar que tá curtindo você. 

JC: Na sua opinião, os artistas locais estão sabendo fazer suas lives serem atrativas?

LL: Eu tenho acompanhado as lives, todas. Muitos, logo no início, fizeram o que todos os nacionais fizeram: ligaram a live no Instagram, na cozinha ou sofá, ainda meio sem saber se respondiam perguntas ou se cantavam, músicas sem ensaios, muita interferência e perda de alcance. Depois da primeira transmissão mais elaborada do Gusttavo Lima, todos entenderam que ‘fazer live’ é produzir um ‘show digital’. Quem tá em casa quer assistir o seu trabalho, esse formato mais organizado alcança um número maior de pessoas.

JC: Quais as novas ferramentas das redes sociais você tem utilizado no seu trabalho?

LL: O Twitter voltou muito forte, ativou um novo recurso chamado ‘Fleet’, que é o story do Instagram e tem menos propagandas. Mas o mais interessante é que ele é muito fomentado pela geração millenial, que posta ‘threads’, edita trechos de vídeos, criam memes, sobem tags, ‘mutirões’, ditam as tendências e isso reverbera muito geograficamente, porque alcança personalidades em outros países, e em outras redes. Já se percebe o crescimento de conteúdo produzido no Twitter que é replicado no Instagram, por exemplo. É lá onde tudo começa. E as novas ferramentas que tendem a crescer são os aplicativos de reuniões ‘multitelas’, como o Zoom e o House Party. 

JC: Essa pandemia veio mudar o modelo de shows e eventos no mundo?

LL: É necessário e urgente que os produtores de eventos entendam que nasceu a era dos eventos digitais. É preciso investir em tecnologia, uma boa engenharia de informática, montar um site completo com assinaturas, usuários com login e senhas, ou venda aberta de ingressos, gerar conteúdo local além dos shows, fechar contrato com artistas prevendo essa agenda digital, montar um plano de negócios com vendas de ingressos com níveis diferentes de interação e kits personalizados. Exemplo: camarote virtual. Você paga para assistir ao show em casa, usa a camisa ou boné e copo do show, e a sua imagem ou vídeo é inserida na transmissão, pode subir o vídeo pelo site da empresa. Ou ainda, se pode transmitir o pré-show gratuitamente para degustação e quem quiser continuar assistindo ao show, compra o ingresso na hora. Não dá mais pra pensar que o futuro está distante.

Fonte: Evaldo Ferreira

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