“Não temos medo de disputar com a China, mas em condição de igualdade”

Jornal do Commercio – Como o senhor avalia o atual panorama econômico do PIM?

Hélio Pereira da Silva – Pelos contatos feitos, principalmente no meio empresarial da indústria, este fim de ano está bom para alguns setores e para outros não, decorrente do crédito, principalmente para o setor de motocicletas. Este ainda sofre com a indústria chinesa, que tem prejudicado fortemente a ZFM (Zona Franca de Manaus).

JC – Em que sentido?

Hélio da Silva – A Moto Honda e a Yamaha fizeram um trabalho no sentido de trazer seus fornecedores para Manaus a fim de baixar custos e agregar maior valor nos seus produtos. Com um terço do preço fabricado aqui, as indústrias têm que recorrer a importação de muitas peças, o que tem prejudicado bastante os fabricantes de componentes. Um motor regulador de motocicleta, custa R$ 70 aqui. O chinês vende no Brasil por US$ 10, o que significa R$ 17 a R$ 20. Como eles não podem atacar na motocicleta, que tem um diferencial grande que é o IPI [Imposto sobre produtos Industrializados] e o II [Imposto de Importação], que são altos, estão atacando nas peças, onde os dois impostos são baixos. Mesmo que pagassem esses impostos, ainda sairia mais barato do que o nacional.

JC – Dê exemplo de um outro produto.

Hélio da Silva – Existe uma fabricante de garrafa térmica no PIM que não consegue fazer a parte interna em vidro, onde coloca o café, e ela corre o risco de fechar se não houver uma flexibilização no PPB (Processo produtivo Básico) por parte da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) para que a empresa importe pelo menos a parte mencionada.

JC – O crédito é a solução?

Hélio da Silva – Sim, hoje os financiamentos bancários para a compra de motocicletas, por exemplo, estão no máximo em 48 meses. Quem compra motocicleta são pessoas que querem utilizar esse meio de transporte para trabalhar – ganham entre R$ 1.000 e R$ 2.000. Por isso, fica difícil pagar uma prestação de R$ 500 mensais. As prestações para as pessoas nessa faixa têm de ser no máximo R$ 200 Caso contrário, as motos não vendem e ficam encalhadas nos pátios dos revendedores autorizados.

JC – Como estão esses estoques das fabricantes?

Hélio da Silva – Todos os fabricantes de motocicletas estão com seus estoques até as nuvens sem poder vender. Isso está relacionado ao crédito.

JC – Qual a sua projeção para 2010?

Hélio da Silva – As perspectivas são boas para o segmento eletroeletrônico, que terá uma alavancagem na parte de televisores, decorrente da Copa do Mundo que acontece em junho de 2010, na África do Sul. No entanto, essa boa performance vai depender muito das importações de parte e peças porque hoje não temos mais uma indústria de componentes em Manaus no ramo de eletroeletrônico.Os chineses mataram tudo.

JC – O que tem é de duas rodas?

Hélio da Silva – Sim e assim mesmo estão acabando da mesma forma que fizeram com o ramo eletroeletrônico.

JC – A tecnologia chinesa é importante no PIM e ao mesmo tempo é prejudicial. Não lhe parece uma relação complicada?

Hélio da Silva – O lado bom de sua vinda para o PIM é que ele se iguala ao nacional e nós não temos medo de disputar em condições de igualdade. O problema é que essa disputa ocorre por meio de contrabandos, inclusive de produtos nocivos a saúde contendo chumbo. Hoje os chineses abocanham 50% do mercado de produtos de escrita descartáveis como canetas, isqueiros, barbeadores, porque conseguem vender mais barato, mas é um preço fictício, justamente para matar a indústria brasileira.

JC – Como mudar esse cenário?

Hélio da Silva – Vai depender do que o governo facilitar em termos de crédito para incrementar os negócios da Copa e das eleições.

JC – Qual a sua avaliação sobre a 5ª Fiam?

Hélio da Silva – Achei um tanto fraca de público, principalmente de fora do Estado, tanto nacional como estrangeiro. Até as rodas de negócio foram fracas.

JC – O que causou essa baixa de público?

Hélio da Silva – O calor foi um dos fatores que prejudicou muito a vida das pessoas no evento. Na sala dos consultores tivemos que colocar ar-condicionado, porque sempre recebemos empresários para ‘vender’ a ZFM. Outro motivo foi o fato de serem duas feiras seguidas. No ano passado houve uma inclusive em São Paulo, onde cheguei a fechar alguns projetos que foram trazidos para Manaus.

JC – Qual a sua projeção de projetos industriais para Manaus em 2010, ante 2009, ano que foi prejudicado pela crise global?

Hélio da Silva – Neste ano houve uma queda em torno de 50% em relação a 2008, decorrente da crise. Somente nas últimas reuniões do Codam (Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas) e do CAS (Conselho de Administração da Suframa) está aumentando o número de projetos. Eu, que acompanho muitos projetos de fora, me ressenti disso. Para esta última reunião do ano vou apresentar apenas três projetos.

JC – Qual a sua maior demanda de projetos?

Hélio da Silva – Atendo mais as empresas de duas rodas –tanto fabricantes de bens finais, como de componentes. Sou um projetista da Honda, que recomenda todos os seus fornecedores para o meu escritório. Mesmo assim, tenho tido grandes dificuldades em conseguir novos projetos.

JC – O que deve ser feito para mudar esse cenário?

Hélio da Silva- Os governos não podem deixar os bancos fazerem as besteiras que fizeram neste ano, do contrário, vai haver quebradeira de novo.

JC – A diversidade de projetos é uma realidade no PIM?

Hélio da Silva – Sim, é um meio de manter o emprego e não perder o investimento que foi feito. Para se ter uma idéia, a Pioneer, que é fabricante de auto-rádio, DVD para carro, teve que partir para fazer máquinas fotográficas para salvar os investimentos realizados no PIM. Isso se deu porque os chineses conseguem colocar seus produtos para a indústria automobilística mais baratos.

JC – Como está o mercado de máquinas fotográficas?

Hélio da Silva – Muito bom, e é onde vamos atacar em 2010, assim como no segmento de segurança empresarial.

JC – Que tipo de segurança?

Hélio da Silva – De câmeras, sistemas. A última revista Exame traz um estudo de mercado completo sobre segurança empresarial. A Abraseg (Associação Brasileira dos Distribuidores e Importadores de Equipamentos e Produtos de Segurança e Proteção ao Trabalho) estima em R$ 13 bilhões esse mercado para 2010. Eu pretendo trazer projetos nesse sentido para Manaus.

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