22 de janeiro de 2022

‘Não estou com nenhum cacique’ diz Ricardo Nicolau

O deputado estadual Ricardo Nicolau diz acalentar o sonho de transformar o Amazonas num estado forte e próspero, sentimento que alimenta desde a sua estreia na política. E ressalta que está pronto para disputar o governo do Estado nas próximas eleições. Tem projetos que prometem revolucionar a administração pública, aliada a uma política empresarial com menos burocracia e dando mais oportunidades para atrair potenciais investidores.  

O parlamentar defende novas matrizes econômicas que impulsionem mais o desenvolvimento. Para ele, só a Zona Franca não é suficiente para alimentar a economia de um Estado continental como o Amazonas. Ele defende espraiar as riquezas para o interior com a exploração dos recursos naturais de forma sustentável. “Os governos se acomodaram com a ZFM”, avalia o deputado.

Ricardo Nicolau deixou o PSD, partido ao qual foi filiado durante dez anos, para pôr em prática o que considera estratégico para promover grandes mudanças em todas as áreas das atividades, gerando mais empregos e renda à população.

Nicolau diz que não está comprometido com nenhum cacique. E que vai empreender a mesma independência quando concorreu à prefeitura nas eleições municipais, ocasião em que angariou mais de 100 mil votos concorrendo com candidatos que representam, segundo ele, o “continuísmo” de lideranças que agem através dos bastidores.

“Precisamos mudar radicalmente o que já se perpetuou na política amazonense. As mesmas pessoas se revezam no poder sem levar benefícios a uma população que sofre com o alto custo de vida, não tem educação, nem saúde, sem perspectivas de uma melhor qualidade de vida no futuro”, argumenta Ricardo Nicolau.

O deputado informou que ainda busca um partido que atenda às aspirações de seu novo projeto político. E que escolherá com muitos critérios a sigla ou possíveis alianças aos quais vai se filiar para a corrida eleitoral ao governo do Estado.

“É importante ganhar a eleição, obviamente. Mas temos que pensar em termos de futuro. Não adianta sair vitorioso e tudo permanecer como está agora. Não podemos tirar as esperanças da população por dias melhores”, acrescenta o deputado. Ele avalia também que as autoridades de saúde não fizeram praticamente nada para conter o avanço da pandemia.

Ricardo Nicolau falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Deputado, ainda estamos enfrentando a pandemia.  Como avalia as ações das autoridades de saúde e a colaboração da população para lidar com a crise sanitária?

Ricardo Nicolau – Na primeira e segunda onda foi um caos absoluto, muita dor, sofrimento e falta de tudo, inclusive oxigênio. Vivemos uma nova fase com a vacinação sendo ampliada e poucos pacientes internados.

A gravidade está menor, mas isso não quer dizer que estamos totalmente fora de risco. Vimos o que está acontecendo na China, Inglaterra e Estados Unidos. Precisamos ficar vigilantes e preparados, fazendo com que a vacinação possa chegar ao maior número de pessoas. Inclusive com a dose de  reforço pra que possamos estar livres. Mas vamos ter que conviver com o coronavírus pro resto da vida, como acontece com a HN1.

JC – O enfrentamento à Covid-19 está correto, principalmente priorizando a vacina….?

RN – Sem dúvida, a vacina é a nossa única arma potente para evitar as contaminações e complicações da doença.  Agora, o governo federal se envolve em muita polêmica sobre a compra de vacinas.

Na realidade, as ações governamentais não contiveram a doença. O que houve foi um ciclo natural da Covid-19 que interrompeu os casos. Quando passamos por um problema, sempre aprendemos uma lição.

Mas os mesmos erros cometidos na primeira onda aconteceram na segunda. É muito difícil a gente poder avaliar ações porque não foi tomada nenhuma de forma efetiva.

JC – Percebe-se uma movimentação na política para as eleições. De forma clara e antecipada, o sr. colocou o seu nome para disputar o governo do Estado em 2022. Como vai alinhar com outra sigla ou potenciais alianças para se lançar candidato?

RN – Na verdade, os ditos caciques políticos guardam acordos para as próximas eleições. Contratam marqueteiros. É superficial. Não é uma campanha que tenha propostas verdadeiras, uma ação estudada e planejada.

A política do Amazonas foi sempre comandada dentro de casa como se fosse um tabuleiro de xadrez. Os caciques se revezam no poder faz tempo. Veja na eleição passada. O Amazonino saiu candidato à reeleição vendo que a ascensão do David Almeida estava boa no interior e na capital.

Surgiu com uma candidatura para tirar votos do David na capital e acabou ganhando a eleição pro Wilson. Muitas vezes essa mexida no tabuleiro não dá certo. A campanha é feita dessa forma. Fizemos de uma forma diferente. Vamos lançar uma campanha. É um sonho que eu acalento há muitos anos pra poder dar a minha parcela de contribuição, ajudar nosso Estado a construir um caminho diferente.

E não há outra forma de construir um caminho que não seja através da política ou do executivo. Porque o executivo é que transforma vidas. Entendo que eu me antecipei nessa questão. O atual governador está desgastado e tenta correr atrás do prejuízo. Ele sabe como está a situação dele na capital e no interior.

Não acho ruim antecipar. O tempo é importante para discutir programas e ideias, buscar subsídios, visitar pessoas que possam trazer um futuro melhor à  população.

JC – O sr. saiu do PSD depois de dez anos. Fale sobre essa decisão. E como está a sua busca por uma nova legenda, já tem alguns partidos em vista?

RN – A minha saída do PSD se deu por projetos políticos diferentes que não caberiam dentro do partido nas próximas eleições. Não saio com nenhum problema, nenhuma mágoa….

Estamos conversando com os partidos em nível local e nacional. No Brasil, não há candidaturas avulsas. Tem que estar alinhado a um partido. Existem 37 partidos com ideologias e programas divergentes.

E os partidos de um modo geral estão muito relacionados a pessoas. Estamos conversando com os que possam dar sustentação a nossa candidatura, tenham tempo de rádio e televisão para nossas ideias serem debatidas com a população.

Estamos procurando com muitos critérios. Não sou daqueles que acham que vale tudo numa eleição. Só não vale perder. Tem pessoa que faz de tudo pra ganhar a eleição. Ganhar eleição é importante, mas é uma missão. Não se pode comprometer o futuro do Estado e da cidade, deixando as coisas como estão com as mesmas pessoas.

Não se pode abrir mão de princípios por causa de uma eleição. É um instrumento para que Deus e a população possam escolher as pessoas corretas para melhorar a vida e promover um futuro melhor.

JC – Recentemente, o sr. foi candidato a prefeito e teve mais de 100 mil votos. A princípio, é um candidato da capital. Como fará para compensar essa diferença em torno de seu nome no interior?

RN– Lógico que uma candidatura a governo do Estado envolve capital e interior. Hoje metade da população que vive nos municípios precisa de muito mais investimentos, não  só na infraestrutura, mas também na segurança pública, na saúde.

Se estamos vivendo um caos na segurança na capital também estamos no interior. As atividades econômicas são muito  pequenas. As pessoas vivem do setor primário, mais de subsistências, e dos recursos que vêm do INSS e das prefeituras.

O interior não tem atividade econômica. A eleição passada foi importante do ponto de vista pessoal – saímos com ensinamentos e experiência de uma eleição majoritária.

Vimos que a eleição do ponto de vista político e independente era muito arriscada. Não tínhamos apoio do governador e do prefeito e dos empresários ligados a esse sistema que opera há muito anos. Graças a Deus, obtivemos uma boa receptividade e a possibilidade foi grande para ir ao segundo turno.

A eleição é um desafio e estou pronto para cumprir esse desafio, estou pronto para as eleições. Vamos visitar todos os municípios.

Fizemos uma  proposta agora na Assembleia de emenda constitucional pra que 100% do FTI, um fundo de interiorização do desenvolvimento, vá efetivamente para os municípios. Esses recursos não vão para o interior.

Temos a ZFM, mas os governos não tiveram capacidade de criar e diversificar nossa economia pra fortalecer. Não precisamos ficar naquela questão ‘acaba a ZFM ou não´. O Distrito precisa também ser diversificado, outras atividades precisam vir.

JC – Já existe um movimento de campanha no interior. O governo do Estado está muito presente, principalmente colocando sua marca na agricultura. Vimos outros candidatos como Amazonino Mendes enaltecendo o que foi feito em seu tempo. E o próprio senador Eduardo Braga mostrando suas emendas que trouxeram benefícios ao interior. Como entrar na disputa com todo esse pessoal e ainda capitalizar para que seu nome seja mais conhecido?

RN – Vejo o interior do Estado com desejos efetivos de mudanças. O governador atual tem a máquina, tem influência com as prefeituras. Mas a população está vendo qual foi a atuação dele nesses três anos de mandato.

Ele começa a se movimentar em função das eleições. Vemos ações do governo só agora. Mas a população é esperta, ela está vendo. O próprio Amazonino já foi quatro vezes governador. A população já deu oportunidades, mas eles não conseguiram mudar a vida das pessoas.

O povo do interior do Estado está esperando ações efetivas. Já acabou aquela época de ir pro Vivaldão e entregar motor de rabeta. A internet é um grande aliado, abre as informações.

A situação do cidadão  que vive no interior do Estado é a mesma de dez anos ou 20 anos atrás. Há um sentimento muito forte de mudanças efetivas e de participar de um projeto que  venha a ser sustentável.

JC  –  Criar postos de trabalho é sempre essencial para um governo. Que ações planeja desenvolver para gerar mais empregos e renda à população?

RN – Não tem como acreditar em desenvolvimento social e econômico com uma renda familiar baixa. A base de tudo é se ter o emprego para sustentar a família.

O Amazonas é um Estado rico em muitos sentidos. Tem minério de nióbio, petróleo, gás, com capacidade para transformar o Estado num grande polo petroquímico.

É um caminho da economia do Amazonas. O turismo que é tão falado continua inexpressivo. Hotéis estão fechando suas portas e outros continuam com poucos hóspedes. Temos vocação industrial, mas nossa indústria está focada no eletroeletrônico, no polo de duas rodas e no setor de ar-condicionado. São grandes setores de arrecadação do governo.

Temos condições de criar um polo de biocosméticos. Veja, o perfume da Chanel tem essências daqui, paga pouco pelos insumos e transforma em milhões de reais.

Hoje temos a EMS que tem grande produção de remédios. É um polo que está crescendo e pode oportunizar novos negócios.

Precisamos diversificar a nossa indústria para os bens que consumimos no dia a dia. A nossa farinha está vindo de fora, o tambaqui também e ainda o cheiro-verde.

Tudo pode gerar desenvolvimento, promover maior arrecadação e atraindo mais investimentos.

Os governos se acomodaram com a ZFM  que  promove uma arrecadação muito boa, mas não traz uma economia sustentável no setor primário. O setor primário representa 7% do PIB sem incentivo e pode crescer pra 15% se houver ajuda. Tudo é uma cadeia. Precisa ter comprometimento.

Tenho escutado que empresários vêm ao Amazonas, tentam falar com o governador e o prefeito, e não conseguem. Tivemos um episódio lamentável com o vice- presidente dos Estados Unidos. Ele veio ao Amazonas e não foi recebido pelo governador e nem pelo prefeito.

JC – O problema na segurança é muito grave. Facções estão no interior do Amazonas, onde existe um grande corredor de drogas nas fronteiras. O que pensa o governo de Ricardo Nicolau para essa área e também ao setor de saúde?

RN – Precisa mudar radicalmente tudo na saúde e na segurança pública. Ter infraestrutura tecnológica. Temos reconhecimento facial, mas não se usa e nem as câmeras estão funcionando.

Não se usa nada disso aqui. Tira-se uma identidade como 100 anos atrás tomando as digitais. A polícia científica precisa estruturar melhor os inquéritos. Não tem recursos tecnológicos.

Tem que trazer modernidade. O número de profissionais é insuficiente tanto na capital como no interior.  Valorizar o pessoal pra ele estar livre de qualquer outra questão pra desenvolver trabalho com equipamentos e segurança.

O Estado não pode ser conivente de forma eleitoral com os bandidos. O Rio de Janeiro paga isso até hoje por causa dessa conivência.

Na China já tem câmeras que identificam a pessoa pelo andar. Veja o grau de avanço. Lá, tinha um estádio que abrigava mais de 60 mil pessoas. E se identificou, entre elas, um fugitivo. Hoje no Amazonas, o cara entra na cadeia com o nome errado e é julgado também errado.

Tem que ter vontade, fazer com pulso firme e tolerância zero com bandidos. Acontece da mesma forma com a saúde que vive um caos. Temos um problema gravíssimo que é o déficit de maternidades. Faltam leitos para maternidades e também pra oncologia.

A FCecon tem só 25 leitos. E continua até hoje com esse mesmo número quando vivemos uma nova realidade. Vamos melhorar as urgências. Depois da Covid-19, a segunda maior causa de morte são as neoplasias.

Temos um projeto junto com a FCecon pra fazer a ‘ambulatorização’, evitando-se que o paciente chegue em estado avançado. Será construído um centro avançado de prevenção ao color de útero.

O Amazonas é campeão em câncer de colo de útero. Anualmente, morrem 300 mulheres com a doença.

JC – Qual a sua opinião sobre a polêmica em cima do preço da gasolina e do gás?

RN – O combustível é fundamental para a economia. E quando sobe o preço, mais cara fica a luz, o transporte e frete também.

Vai em cadeia encarecendo todo o processo e chega à mesa do trabalhador. O petróleo é uma commodity que segue os preços internacionais. Embora seja uma estatal, a Petrobras tem participação de empresas privadas. Então, a margem de lucro é muito alta.

Acrescenta-se impostos, ICMS, tem ainda uma substituição tributária. Vejo que essa questão precisa ser enfrentada, é necessário abrir mão hipoteticamente de alguns tributos. Mas tem que  passar por uma análise sobre diminuição de impostos estaduais e federais. Também rever a questão da Petrobras, que essa riqueza do petróleo pertença aos brasileiros.

A Petrobras precisa ter uma visão mais de desenvolvimento do País. Não adianta ter X bilhões pra dividir com acionistas e o Brasil perder. Precisa encontrar um equilíbrio sobre isso. Outro problema é que as reservas mais superficiais estão se esgotando.

O pré-sal, que tem uma reserva muito grande, é muito profundo. E  o custo de extração é muito alto. Precisa rever e buscar alternativas viáveis – energia solar, eólica.

Acho que não tem mais condições de manter essa escalada de preços dos combustíveis. Sofremos muito com a dolarização.

Foto/Destaque: Divulgação

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