Movimento brasileiro de alfabetização digital – e-mobral

Desde 2018 venho acompanhando as discussões na Comissão Econômica para América Latina – CEPAL e na União Europeia, provocadas pela Espanha, sobre políticas de desenvolvimento econômico baseadas nas competências digitais.

No começo do Governo Bolsonaro, enquanto a Austrália possuía cerca de 90% de sua população dominando as ferramentas tecnológicas, aproximadamente 40% dos brasileiros detinham tais competências.

A falta de competências digitais ressalta nossas desigualdades sociais, notadamente, em tempos pandêmicos.

No momento em que no Brasil alcança a dura marca de mais de 11.000 vítimas do COVID-19, milhares de famílias, enlutadas, choram a ausência de seus entes queridos. Outros, indiferentes ao necessário isolamento social, ‘brincam de fazer churrasco’, ou passeiam de jet-ski.

O comportamento debochado da Corte, que tem assombrado muito de nós e o mundo inteiro, busca esconder outros contrastes brasileiros que precisamos e precisaremos vencer além da pandemia.

Na história de nosso pacto federativo e de nosso sistema democrático republicano, onde ‘mais Brasília, menos Brasil’ representava estratégias civis e militares de perpetuação no poder, o olhar sobre o atual Sistema Único de Saúde – SUS no enfrentamento da pandemia nos revela as desigualdades e diversidades institucional e sociocultural regionais desconhecidas pelo Brasil, mas, e infelizmente, naturalizadas no viver da Amazônia, dita Legal.

Cidades como São Luís (MA), Manaus (AM), Belém (PA) … são destaques diários dos telejornais – fato raro na história da comunicação brasileira – pelo colapso e incapacidade das estruturas públicas e privadas na prestação de serviços de saúde.

Quem já não ouviu falar que o melhor tratamento de saúde em Manaus era a Transbrasil, a Varig ou a Vasp…

“E daí? A culpa é dos governadores e prefeitos”, diria o presidente do Brasil.

Aos poucos, com a incapacidade das autoridades em responder, com ciência, as demandas do momento, percebemos a importância que os dados, mesmo que, ainda subnotificados, podem e devem ser tratados. Tornando-se conhecimento adquirido poderão sinalizar prioridades em investimentos pós-pandemia.

Num programa governamental que se apresenta repleto de discursos ideológicos e capenga de ações concretas, caberá mais uma vez a Brasília definir o que fazer com aquilo que o presidente da Caixa Econômica Federal denominou como o maior ‘programa governamental de inclusão social de todos os tempos’: após os três meses de suporte à sobrevivência, conhecedor que a economia informal representa hoje 25% da população brasileira, qual será o papel do ‘novo normal’ estado neoliberal brasileiro?

Caberá ao mercado, aos governadores e aos prefeitos assumirem o protagonismo desenvolvimentista, afinal, fizemos a nossa parte, vencemos democraticamente o pleito com o discurso ‘menos União, menos Brasília’?

Ou perpetuaremos o ‘programa’ no modelo adaptado do Bolsa Família, como ação governamental de transferência direta de renda às populações que, moto-contínuo, fazem a roda da economia informal rodar, levando-as, em última análise, e, estrategicamente, à formalização e participação no sistema tributário brasileiro. 

As longas filas nas portas das agências nos mostram muito mais que números.

Demostram também, o largo percurso que deveremos caminhar à formalização desta economia, a começar pelo contraste entre a plataforma digital meio aos benefícios emergenciais e a distante realidade sociocultural dos trabalhadores no Brasil.

É fato: quando se consegue ter acesso à internet, temos dificuldades, brasileiros e brasileiras, de ler e escrever procedimentos simples de cadastro nos celulares e computadores.

Aos que sempre viram isso como o ‘copo meio vazio’, gosto do desafio de transformar o limão numa limonada.

Quem sabe possamos juntos, prefeituras, estados e governo federal, enquanto enfrentamos a pandemia, elaborar um programa estruturante educacional, um movimento brasileiro de alfabetização digital (e-MOBRAL), promotor do desenvolvimento das competências digitais aos brasileiros.

Por competências digitais não estamos falando apenas de aprender e desenvolver habilidades tecnológicas. Diante do cenário nacional das fake news é preciso reaprender e reconhecer valores, atitudes, regulamentos, segurança e ética no uso responsável das informações acessadas e compartilhadas.

Se, no distanciamento social, estamos aprendendo, à força, o valor das ferramentas tecnológicas à nossa disposição, saber ler e escrever nos ambientes virtuais, já fazia, faz e fará toda a diferença nas relações contemporâneas do trabalho e econômicas pós-pandêmicas. 

*Daniel Borges Nava é Geólogo, Analista Ambiental e Professor Doutor em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia.

Fonte: Daniel Nava

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