Montadoras questionam recém chegadas

A retomada no ritmo da produção do setor de duas rodas no universo pós-crise ficou clara durante o Salão Duas Rodas, momento em que foram alinhavados os anúncios oficiais sobre investimentos postergados para 2010 no Amazonas. A despeito da queda prevista de 24% no volume fabril deste ano, nunca se previu a venda de tanta moto para o país: em torno de 2,5 milhões para 2010.
O problema é que determinadas fábricas instaladas no PIM (Polo Industrial de Manaus) -em especial as mais novas- estariam importando mais e produzindo menos. Por conta disso, a Moto Honda chegou a declarar, durante a realização do Salão de Duas Rodas, que as regras do atual PPB (processo produtivo básico) de motocicletas para as novas montadoras beneficiam muito mais o ciclo produtivo externo que a geração de empregos no mercado local.
No entendimento do diretor vice-presidente da Moto Honda da Amazônia, Issao Mizoguchi, esse “falso adensamento praticado por montadoras locais” é visível e injusto para indústrias estabelecidas, como Honda e Yamaha, que agregam valores à produção. As regras do PPB da forma que estão postas, segundo o executivo, incentivam muito mais as empresas componentistas de fora do país -que têm enviado para as montadoras chinesas um volume de pedidos cada vez maior. “O PPB é bom para atrair empresas para o Amazonas até que elas se estabeleçam no local. Mas, em médio ou longo prazo, essas regras, da forma como estão, acabam prejudicando a nação como um todo”, desabafou.
Mizoguchi garantiu que o anúncio da chegada para 2010 de concorrentes com capital chinês no Amazonas é encarado com naturalidade pela companhia, mas fez questão de frisar o papel das lideranças governamentais em fiscalizar o cumprimento do PPB. “Assim, ninguém prejudica ninguém e acaba ocorrendo a boa concorrência de mercado”, ressaltou.
O diretor-presidente do Grupo Izzo, Paulo Izzo, é outro que considera que a chegada de novas empresas ao Amazonas só será um bom negócio para a região se trouxer, entre outros benefícios, o aumento de emprego direto e a consolidação do ciclo produtivo no Estado. Segundo o executivo, a maioria das indústrias de motocicletas cumpriu o acordo feito com o governo estadual em relação à manutenção dos empregos, apesar da queda na produção durante todo o primeiro semestre. “A política de nossas empresas é cumprir sempre as prerrogativas de geração de emprego e renda para o Estado. Mas, é importante saber se as novas empresas vão cumprir esse acordo de beneficiar a população local ou vão preferir investir mais no exterior”, ponderou.

“Adensar produção”

O grupo Izzo detém a produção industrial das marcas Buell, Ducati, Polaris e Harley-Davidson, entre outras. As linhas fabris das motos Polaris serão instaladas no PIM em janeiro de 2010, de onde sairão inicialmente mil unidades por mês. “É uma grande conquista a chegada da marca a Manaus. A Polaris é a primeira na Europa e a segunda no mercado norte-americano. Mesmo assim, queremos adensar a produção toda em Manaus como exemplo de boa administração”, asseverou.
Em sentido contrário às principais indústrias de motocicletas, o presidente da Dafra, Creso Franco, disse não concordar com o argumento de que é preciso mudanças nas atuais regras do PPB. Questionado se sua empresa importa mais que produz no Amazonas, o executivo demonstrou nervosismo e disse que se sentia pouco confortável para responder, mas negou que a montadora esteja descumprindo qualquer item previsto nas normativas industriais. “A Dafra foi uma das empresas que mais empregou, mesmo durante a crise. Nossa companhia está em fase de expansão e não temos porque deixar de investir no Estado”, asseverou.
Procurada pela reportagem, a Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) não pode se pronunciar, em virtude do coordenador-geral de acompanhamento de projetos industriais, Gustavo Igrejas, se encontrar incomunicável e fora de Manaus.
O secretário de desenvolvimento da produção industrial Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), Armando Meziat, também foi procurado pelo Jornal do Commercio, mas não enviou resposta até o fechamento desta edição.

Executivo considera que regras atuais são “injustas”

Jornal do Commercio – Como a Honda vê o fato da chegada de algumas empresas que empregam menos e se utilizam mais dos benefícios fiscais concedidos pelo Estado?

Issao Mizoguchi – Bem, a chegada de concorrentes em si é encarada com naturalidade. Mas existe uma regra chamada PPB que deveria ser universal e todos deveriam obedecê-la. A Honda está fazendo o seu papel de produzir no local e repassar valor agregado ao Estado. No meu ponto de vista, cabe às lideranças governamentais comparar e verificar se as atuais regras são justas ou não.

JC – O senhor considera as atuais regras justas?

Issao Mizoguchi – Bem, para que uma empresa se estabeleça no local, ou seja, o início de operações, o PPB ajuda a trazer novos empreendimentos. Mas, em médio ou longo prazo, da forma como o PPB está acaba prejudicando a nação como um todo. No momento, o que eu posso dizer é que não são justas essas regras.

JC – O senhor apóia uma revisão do PPB das motocicletas?

Issao Mizoguchi – Não é questão de apoiar, mas é incentivar as empresas que estão no Brasil a agregarem o valor de forma que possam beneficiar, por exemplo, o povo amazonense. Onde está o valor agregado dessas recém-chegadas, no Brasil ou na China? Deveria estar no Brasil, mas quem mais importa gera mais emprego lá fora. É até compreensível que tenhamos uma regulação para os novos players entrarem. Mas, conforme o volume fabril aumenta, não se gera empregos e a firma ainda se prevalece dos incentivos fiscais do Estado.

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